Cavalera Conspiracy lideram a noite intensa do warm-up do Evil Live 2026
Nem sempre é preciso esperar pelo dia principal para sentir o verdadeiro pulso de um festival. No warm-up do Evil Live 2026, esse pulso bateu forte, sem filtros, sem rodeios, com o peso e a intensidade que fazem deste tipo de noites muito mais do que um simples aperitivo. Houve entrega, houve ruído, houve aquele caos organizado que só o metal consegue criar. E, no meio de tudo isso, houve momentos que se destacaram naturalmente.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro
Formados em 2016, os Okkultist não demoraram a mostrar que vinham para deixar marca. Desde cedo, a banda construiu uma identidade muito própria, onde o peso do death e do thrash metal se cruza com uma atmosfera sombria e quase cinematográfica. Mas mais do que um estilo, há uma atitude, uma entrega em palco que se sente, que se vive, que não deixa ninguém indiferente. Ao longo dos anos, foram crescendo de forma consistente, conquistando público cá dentro e lá fora, e partilhando palcos com nomes grandes do género. A ligação à Alma Mater Records, editora criada por Fernando Ribeiro, dos Moonspell, acabou por ser mais um passo importante nesse caminho, dando à banda uma projeção ainda maior.
Hoje, os Okkultist vivem uma nova fase. Mantêm em Beatriz Mariano o seu rosto mais reconhecível, uma presença intensa, quase hipnótica, que domina qualquer palco. Na bateria, Eduardo Sinatra assegura uma base sólida e poderosa. Ainda assim, há mudanças que deixam marca. A saída de Leander Sandmeier, membro fundador, trouxe uma inevitável sensação de ausência. Não apenas pela sua importância na construção da banda, mas pela pujança e identidade que imprimia às músicas, algo que, para quem acompanha o percurso dos Okkultist, ainda se sente.
No warm-up do Evil Live 2026, o alinhamento foi curto, mas intenso, pensado quase como uma descarga de energia bruta para preparar o ambiente da noite. E resultou. “Death to Your Breed” abriu caminho sem rodeios, com riffs pesados e uma atitude direta que agarrou imediatamente o público. “Meet Me in Hell” mergulhou tudo numa atmosfera mais escura, quase ritualista, onde se sentia a ligação entre banda e audiência a crescer. Pelo meio, “Teeth of the Hydra” mostrou que os Okkultist continuam a evoluir, sem perder a essência que os define. “Electric Haze” trouxe um lado mais envolvente, quase hipnótico, antes de “Sixpounder” voltar a acelerar o pulso da plateia, com uma agressividade que se sentia no corpo inteiro. E quando chegou “Sign of the Reaper”, já não havia dúvidas: era o fecho perfeito, carregado de peso e intensidade, deixando no ar uma certa sensação de catarse.
A história dos Cavalera Conspiracy é, antes de mais, uma história de sangue, rutura e reencontro. No centro de tudo estão os irmãos Max Cavalera e Igor Cavalera, que em 1984 deram vida aos Sepultura e, sem o saberem, ajudaram a mudar para sempre o rumo do metal. Juntos, criaram um som cru, tribal e politizado que saiu do Brasil para conquistar o mundo mas, mais do que isso, construíram uma ligação artística quase visceral, daquelas que não se explicam, sentem-se. Essa ligação, porém, viria a quebrar-se de forma dolorosa em 1996. No auge da carreira, quando tudo parecia imparável, Max sai dos Sepultura no meio de tensões internas profundas. O que podia ter sido apenas uma divergência profissional transformou-se numa ferida familiar. Durante anos, o silêncio entre os dois irmãos falou mais alto; um silêncio pesado, carregado de mágoa, distância e coisas por dizer. Seguiu-se uma década de caminhos separados. Max encontrou uma nova voz nos Soulfly, enquanto Igor permaneceu nos Sepultura até 2006, altura em que também decidiu sair. Mas por detrás das carreiras, dos palcos e dos discos, havia sempre algo por resolver. E talvez tenha sido precisamente essa ausência que manteve viva a possibilidade de um reencontro.
Quando finalmente voltaram a falar, não foi apenas uma reconciliação, foi quase um regresso a casa. O reencontro em palco trouxe de volta não só a parceria musical, mas também a cumplicidade que parecia perdida no tempo. Dessa reaproximação nasceram os Cavalera Conspiracy: mais do que uma banda, um novo capítulo escrito com a maturidade de quem já perdeu e voltou a encontrar. Foi com esse peso emocional e essa história viva que subiram ao palco no warm-up do Evil Fest 2026. Não houve nostalgia fácil, nem saudosismo vazio. O que se viveu foi uma afirmação crua de identidade, uma descarga intensa que atravessou décadas de música e significado.
“Refuse/Resist” abriu como um murro no peito, imediato, coletivo, quase tribal. A multidão respondeu em uníssono, provando que ali estavam verdadeiros fãs, daqueles que vivem cada riff como se fosse parte da sua própria história. Mas havia também quem estivesse a descobrir tudo pela primeira vez e se deixasse levar sem reservas. Foi o caso de Elisa e do namorado, que, entre sorrisos nervosos e adrenalina pura, arriscaram entrar no moshpit e acabaram literalmente a voar sobre o público junto às grades, levados por braços desconhecidos mas cúmplices na mesma emoção.
“Slave New World” trouxe reflexão e crítica, inspirada no universo de Brave New World, enquanto “Amen” mergulhou o ambiente numa densidade quase sufocante. “Propaganda” cortou o ar com agressividade, sem rodeios, e “Nomad” envolveu tudo num groove hipnótico que preparou terreno para “Manifest”, um dos momentos mais intensos da noite. Com “Kaiowas”, o tempo pareceu abrandar — um instante quase espiritual que evocou raízes, luta e memória, antes de “Clenched Fist” devolver a força combativa ao público, punhos erguidos no ar, olhos brilhantes e vozes roucas. “We Who Are Not as Others” reforçou esse sentimento de união — uma espécie de irmandade silenciosa que só quem lá estava consegue explicar. Já na reta final, “Biotech Is Godzilla” trouxe caos e velocidade, enquanto “Polícia”, dos Titãs, incendiou o ambiente com uma energia crua e interventiva. “The Hunt”, dos New Model Army, acrescentou densidade e tensão, e “Troops of Doom” fechou o alinhamento principal como um regresso às origens mais sombrias.
Nos encores, ninguém arredou pé. “Territory” explodiu com uma força ainda assustadoramente atual, seguida de “Symptom of the Universe”, dos Black Sabbath — um lembrete claro das raízes de tudo isto. E, para fechar, “Chaos B.C.”: não apenas uma música, mas um verdadeiro manifesto de uma era que continua a ecoar.
No final, não houve pressa em sair. As luzes acenderam-se, mas ninguém parecia disposto a deixar aquele momento morrer tão depressa. Entre olhares cúmplices, camisolas encharcadas e respirações ainda aceleradas, ficou no ar a sensação de que algo raro tinha acontecido, uma comunhão crua, feita de som, suor e verdade. Alguns levaram memórias, outros histórias para contar, e houve até quem saísse dali com uma nova paixão pela banda.
Formados em 1999, em Orlando, os Trivium cresceram até se tornarem um dos nomes incontornáveis do metal moderno. Ao longo de mais de duas décadas, a banda liderada por Matt Heafy construiu uma identidade sólida, onde o peso do metalcore se cruza com a agressividade do thrash e a grandiosidade do heavy metal clássico. Discos como Ascendancy, Shogun ou In Waves não só marcaram gerações de fãs como ajudaram a definir o som de toda uma era. Foi precisamente essa história, feita de evolução, consistência e reinvenção. que os Trivium trouxeram ao warm-up do Evil Live. Mais do que um simples concerto, o alinhamento apresentado funcionou como uma viagem pela carreira da banda. Mas antes de qualquer riff soar, houve espaço para um daqueles momentos improváveis que já se tornaram tradição em Portugal. “Coração Não Tem Idade (Vou Beijar)”, de Toy, ecoou pelo recinto, arrancando sorrisos e vozes cúmplices do público. Desta vez, porém, com um detalhe diferente: pela primeira vez desde 2019, Toy não subiu ao palco para acompanhar a banda. Ainda assim, o espírito manteve-se intacto: leve, divertido e absolutamente inesperado.
A entrada dos Trivium fez-se sob aplausos e uma energia imediata. Em palco, notava-se a boa disposição do vocalista, constantemente a puxar pelo público, a incentivar cada resposta, cada grito, cada braço no ar. Do outro lado, uma multidão vestida a rigor (muitas t-shirts da banda à vista) respondia sem hesitação. Tudo isto envolvido por um cenário de palco visualmente forte, que ajudava a elevar cada momento.
“The End of Everything” abriu as hostilidades com a sua carga instrumental e cinematográfica, quase como uma respiração funda antes do impacto. E esse impacto não tardou: “Pull Harder on the Strings of Your Martyr” entrou a rasgar, trazendo consigo a agressividade e a crítica à opressão que ajudaram a definir os primeiros anos da banda. Sem perder fôlego, “Strife” mudou ligeiramente o foco, da revolta contra o exterior para a luta interior. A mensagem tornava-se mais pessoal, mais próxima. Essa intensidade emocional ganhava ainda mais peso em “A Gunshot to the Head of Trepidation”, onde a dor se tornava crua e difícil de ignorar. A partir daí, o concerto foi-se expandindo em camadas. “The Sin and the Sentence” trouxe uma crítica direta à sociedade e ao julgamento fácil, que encontrou eco em “Down From the Sky”, onde os temas se alargam para questões globais como guerra e destruição. Depois de tanta densidade, “Until the World Goes Cold” introduziu um momento mais melódico, quase introspectivo, falando de distâncias emocionais. Mas essa calma foi sol de pouca dura — “Like Light to the Flies” devolveu a agressividade, como uma reação visceral ao vazio anterior. “Dying in Your Arms” trouxe contraste, mostrando um lado mais vulnerável da banda, onde o peso dá lugar à emoção. Essa linha prolongou-se em “Silence in the Snow”, que trocou a agressividade por controlo e resiliência, antes de “Throes of Perdition” voltar a elevar tudo para um plano mais épico e simbólico. Já na reta final, “Catastrophist” mergulhou no caos mental e emocional, funcionando quase como ponto de rutura. E é precisamente dessa rutura que nasce “The Heart From Your Hate”, com uma mensagem de superação que soa quase como redenção.
No encore, “Capsizing the Sea” serviu de ponte — um momento de antecipação antes do inevitável. Porque o final tinha de ser “In Waves”. E foi. Com toda a força, toda a entrega, toda a resposta de um público que nunca deixou de estar presente.
No fim, ficou mais do que um alinhamento bem construído. Ficou a sensação de uma viagem feita de peso, emoção e ligação. E, acima de tudo, a confirmação de que os Trivium continuam a saber exatamente como falar com o seu público… e como fazê-lo sentir cada segundo.
Trivium