Capitão Fausto no Coliseu de Lisboa: a mocidade chegou-lhes ao fim

Lançaram três discos em seis anos. Tocaram em todos os grandes festivais, várias vezes. Fizeram bandas paralelas. Trocaram de editora. Criaram uma editora. Protagonizaram um documentário. E foram homenageados com o nome de um hamburger. A chegar à consagração que é tocar no Coliseu de Lisboa, os Capitão Fausto estão “mais velhinhos” e só querem que o futuro lhes traga a oportunidade de fazer ainda mais música. Não têm, com toda a certeza, os dias contados.

A 22 de Dezembro, os Capitão Fausto sobem ao único palco onde lhes falta tocar, na cidade de Lisboa. O Coliseu vai transformar-se em momento de festa, que já se diz ser de consagração. Afinal, bastaram apenas seis anos para que os cinco Faustos passassem de miúdos acabados de sair do liceu a profissionais dedicados à música. Francisco Ferreira, homem das teclas, revisitou connosco o percurso dos Capitão Fausto.

A história começa quando a banda decide bater à porta da Música no Coração para apresentar um projecto de álbum. “Tivemos imensa sorte de eles gostarem daquilo e quererem dar-nos um empurrão”, relembra Francisco Ferreira, neste fim de tarde, onde nos encontramos na Biarritz de Alvalade. (Não muito longe daqui fica o estúdio que os Capitão Fausto construíram nos últimos tempos, como morada fixa da banda.)

O empurrão chegou logo através de dois concertos na primeira edição do Mexefest, primeiro em Lisboa e depois no Porto. Seguiu-se o Super Bock Super Rock, num fim de tarde, no Meco, que ainda se recorda como um momento especial. Para a banda, foi marcante passar do público para o palco principal.

Com Gazela (2011) publicado, já andavam a tocar pelo país. Levavam também uns instrumentais, que viriam a fazer parte de Pesar o Sol (2014). O segundo disco galgou o risco que todas as bandas correm no follow up de um primeiro trabalho bem sucedido. Pesar o Sol coincidiu com a mudança de editoras, com a independente Chifre a dar lugar à Sony. Um nome sonante que deixava antever grande aposta (e expectativa) na banda.

“Deixem os outros falar…” [“Maneiras Más”]
Se Gazela era a adolescência, Pesar o Sol foi a descoberta da identidade. O teclista dos Capitão Fausto concorda. O primeiro disco era “frenético” e os Faustos dessa época eram “mais explosivos”. Corriam para músicas enérgicas.

“Depois ficámos um bocado mais introspectivos”, relata Francisco Ferreira. O segundo álbum teve momentos de busca dos “sons mais adequados para cada instrumento e para cada música”. “Acalmámos”, diz sobre a banda.

Depois da afirmação da personalidade, veio a maturidade. Tornaram-se metódicos. Hoje partilham vários calendários no telemóvel, para alinhar tarefas da banda, do estúdio, ensaios…

Houve um momento definidor deste rumo. Em abril de 2015, os Capitão Fausto atiraram-se ao repertório de Syd Barrett numa Black Balloon. A homenagem ao mítico músico dos Pink Floyd revelou-se um exigente exercício de estudo de canções complexas, como “Arnold Layne”. Combinou-se uma rotina e um método de trabalho, para que fosse possível domar as músicas num curto espaço de tempo. “Foi muito intenso”, lembra Francisco Ferreira, antes de reconhecer o “imenso gozo quando o concerto correu mesmo bem”.

O método de trabalho ficou. A influência musical de Syd Barrett também, mas de forma mais subliminar, revelando-se em aspectos como os arranjos das músicas.

No caminho para a idade adulta, perderam “algumas das qualidades que as pessoas têm quando são mais novas”: “ingenuidade”, “imensa energia” e “motivação natural para ir fazer coisas”. Nestes seis anos – que assim descritos parecem mais do que uma curta vida – os Capitão Fausto cresceram. “Tomámos nota das nossas falhas”, diz Francisco Ferreira. “Continuam as mesmas, mas agora temos mais soluções” para elas. Simplificando: “continuamos muito distraídos e taralhocos, mas temos mais maneiras de lidar com isso”.

“Já não tens idade, baby.” [“Alvalade chama por mim”]
Para trás ficaram os tempos em que foram “muito jovens e muito estúpidos”, diz hoje Francisco Ferreira, com algum arrependimento, quando conta daquela vez em que partiram “um camarim todo”. “Ficámos muito arrependidos no dia seguinte”, quando alguém teve de voltar ao local para devolver a chave da sala. “Foi um momento mau, mas muito divertido.”

Os Capitão Fausto, que afirmavam a rebeldia, pacificaram no segundo trabalho. Com Pesar o Sol, tornaram-se até bucólicos: não de forma premeditada nem depreciativa, mas como alguém que passa a querer coisas diferentes da vida. É exactamente essa evolução natural das coisas que Francisco Ferreira descreve como catalisador da evolução do som da banda.

“Fartámo-nos um bocado de barulho e de coisas barulhentas”, diz, antes de concluir o óbvio. “Se calhar, estamos a ficar um bocadinho mais velhinhos”.

“A mocidade para nós chegou ao fim…” [“Alvalade chama por mim”]
“Isso é tudo reflexo da nossa vida. Nós, na verdade, estamos a tentar assentar. Criámos também uma casa aqui em Alvalade, como uma pequena família nossa, a nossa editora e os nossos amigos, as nossas bandas…” Para Francisco Ferreira, estão “mais relaxados”. E todos partilham a chegada a essa fase da vida. Porque, como relata, têm percorrido o caminho de Capitão Fausto sempre juntos. “E esses sentimentos, sentimo-los em conjunto”.

A sintonia mantém-se na hora de fazer música. O processo criativo é, de resto, muito democrático, como mostrou o documentário “Pontas Soltas”, de Ricardo Oliveira (responsável pelos vídeos da banda). Estreado este mês, o documentário acompanhou a composição das músicas de Capitão Fausto Têm os Dias Contados, terceiro álbum, no cenário campestre de retiro musical que os Faustos escolheram para o criar.

“Pontas Soltas” anda à volta de um ideia emprestada da Física Quântica, onde existe um elemento que tem relações de forças dentro de si, sem nunca explodir. A analogia serve para o processo criativo que, para Francisco Ferreira, é o verdadeiro objecto deste filme, enquanto a banda só ocupa o lugar do protagonista. Mas a ideia cabe também na descrição que o músico faz, porque, como diz, os Capitão Fausto, são amigos antes de serem uma banda.

Pela explicação se compreende que a criação de vários projectos paralelos aos Capitão Fausto não foi motivada pela vontade de tocar com outras pessoas (mas pela simples necessidade de experimentar criar música diferente). De resto, nem podia ser assim, dado que Modernos, BISPO e El Salvador acabam por reunir só músicos de Capitão Fausto. A escolha explica-se porque são “os melhores músicos que conhecemos”, diz Francisco Ferreira, enquanto se ri com verdade.

Também por isso foi em torno dos projectos paralelos dos Capitão Fausto que criaram a sua própria editora. Ainda que ela só tenha nascido com esse título quando se juntou outra banda, fora do universo dos Faustos. Trata-se dos Ganso, que deverão ser a primeira banda que será editada pela Cuca Monga.

Percebendo que os Capitão Fausto já são procurados por novas bandas, a pergunta impõe-se: definiram um estilo, influenciaram uma geração? Francisco Ferreira é modesto na resposta, recusando uma marca grande na música que se anda a fazer, até porque a carreira dos Capitão Fausto ainda não é assim tão longa. Mas reconhece que podem ter tido o papel de motivar novos projectos, porque agora partilha palcos com pessoas que antes via nas filas da frente dos seus concertos.

“Perceber que aos 26 não posso mais empatar…” [“Morro na praia”]
Até ao Coliseu, os Capitão Fausto vão lançar o videoclip do tema “Tem de Ser”. Sem desvendar grandes informações, Francisco Ferreira promete uma grande produção, a reinvenção de um clássico do cinema. E o motivo para se apresentar de unhas pintadas de preto. “Não é para o estilo”.

Entretanto, vão dedicar-se aos ensaios. Prometem um concerto como nunca antes fizeram. Desde logo, porque vão ter em palco um conjunto de músicos que lhes permitirá estarem mais descansados. É que, durante este ano, a banda tem andado a tocar o terceiro disco desdobrando-se entre todos os instrumentos que dele fazem parte. Acabaram por juntar muitas tarefas numa mesma música.

Desta vez, vão ser acompanhados por Luís Montenegro (Salto) e David Pires (Os Pontos Negros), além de guitarras, sopros, percussão e ainda o contrabaixo de Pedro Wallenstein (pai de Tomás). No que ao alinhamento diz respeito, há espaço para músicas dos dois primeiros discos e para tocar o terceiro na íntegra.

Só não há espaço para grandes ansiedades. É certo que nunca fizeram um concerto como este e o palco do Coliseu representa consagração e responsabilidade. Mas, para os Faustos, aparece como mais um momento natural do caminho que têm seguido. É, de resto, a melhor forma de descrever o percurso desta banda: uma evolução natural. Passaram pelos festivais e, de disco em disco, foram fazendo música cada vez mais adulta.

Apareceram com grande entusiasmo na nossa música e acabaram por reclamar o seu lugar, de mansinho. Com propriedade e sem grande convulsão. Agora, dizem-se mais velhos. (E não estamos todos?) Na pacatez da idade adulta, querem fazer mais música, porque é disso que gostam. Talvez tocar lá fora, também.

“Tem de ser, eu faço só o que vim cá fazer.” “Tem de ser.”

Texto: Filipa Moreno

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