CANALZERO + MORDO MIA + HEROÍNA no B.Leza. Uma viagem pelos diferentes mundos do underground

Na passada quinta-feira, o B.Leza transformou-se num espaço de estranheza controlada, onde a fusão de mundos musicais e estéticos tomou conta do leme. Desde o rock experimental dos Mordo Mia ao pop-rock extravagante de canalzero passando pelo o mathcore/post-hardcore epilético dos Heroína, esta foi uma noite para todos os gostos dentro da música underground lisboeta.

Texto: David Pissarro
Fotos: Pedro Sebastião

A primeira apresentação da noite ficou a cargo de Mordo Mia, uma das bandas mais intrigantes a emergir do underground lisboeta. Composta por Ana Eduarda (violino), António Pinto (baixo), Bernardo Pereira (bateria), João Roque (voz e letras) e Simão Bárcia (guitarra), apresentaram uma atuação profundamente narrativa, dissonante e imprevisível — um espetáculo onde rock experimental, no-wave, jazz contemporâneo e psicodelismo coexistiram numa construção quase teatral. Ainda antes da banda surgir plenamente, já o ambiente se desenhava através de noise suspenso, delays intermináveis e pratos cuidadosamente marcados para puxar o público para dentro daquele universo estranho. Quando o piano finalmente entrou, tudo ganhou forma: uma introdução dramática, voz lançada em toda a força num tom crescente e quase desesperado, violino e guitarra em tremolos contínuos enquanto a bateria crescia lentamente até à primeira explosão, percebendo-se a dimensão emocional do concerto.
A voz de João Roque lembra inevitavelmente Geordie Greep (black midi) ou Mike Patton (Mr.Bungle) na forma mais teatral e exageradamente expressiva como ocupa o espaço. Mas os Mordo Mia nunca soam como simples derivação. Há ecos de post-rock no instrumental, uma sensibilidade progressiva muito própria e uma necessidade constante de desconstruir qualquer estrutura demasiado previsível, muito ao estilo de grupos como Swans na sua atitude perante a estrutura, ou melhor, a desconstrução desta.
Entre músicas, o tom muda abruptamente. “Obrigada, muito obrigada”, diz-se com uma ironia quase absurda antes de um tema onde aparecem sombras evidentes de Mr. Bungle, “Olympia, 1863” – mudanças bruscas de dinâmica, psicodelia desconfortável, um baixo muito pesado pelas mãos de António Pinto e secções que parecem constantemente à beira do colapso.

Um dos momentos mais fortes da noite chegou com uma negra introdução de piano a solo que rapidamente evoluiu para um tema progressivo e profundamente teatral. Em “Noz_s”, a veia post-hardcore tornou-se mais evidente, mas sempre contaminada pelo experimentalismo da banda. Piano e violino pairavam sobre um instrumental esmagador enquanto frases banais — “Todas as noites, antes de me deitar, depois de lavar os dentes” — eram transformadas em algo quase perturbador através da entrega vocal, numa canção acerca de expectativa emocional falhada – esperar algo mágico ou transcendente e encontrar apenas ausência. Entre berros, screeches e momentos de silêncio absoluto, os Mordo Mia criaram uma atmosfera negra, estranha e desconfortável. A teatralidade foi talvez o elemento mais impressionante de toda a atuação. Cada música parecia contar uma história completa, construída lentamente através de ritmos sincopados, pausas abruptas e explosões de distorção. Num dos temas mais pesados da noite “EB -2, -3”, as guitarras fragmentadas e uma voz gritada abriram espaço para um solo noise caótico de Simão Barcia, seguido por uma secção inesperadamente delicada onde baixo, violino em pizzicato e guitarra elétrica construíram uma harmonia lenta antes do colapso final. Liricamente muito intenso, o tema “Chumbo Côncavo”, “EB -2, -3”, do seu registo de 2025,  descreve uma memória traumática de adolescência, cheia de humor desconfortável, vergonha social e uma violência latente, que ressoa com o público de uma forma muito íntima.

A meio do concerto, a banda mergulhou ainda mais fundo no seu lado experimental. “ASMR”, um tema iniciado por uma linha melódica de sintetizador que fica na cabeça durante todo o concerto, transformou-se numa viagem entre jazz contemporâneo, math-rock e spoken word, onde versos sobre obsessão digital, intimidade parassocial e escapismo online são declamados por cima de um motivo rítmico que permanece até ao seu fim, numa música que tanto avança como se mantém exatamente no mesmo lugar. Tudo nos Mordo Mia parece funcionar em torno da construção narrativa: as músicas raramente vivem de refrões ou fórmulas tradicionais, mas antes de tensão, textura e transformação constante. Mesmo os momentos mais agressivos mantiveram essa lógica cénica. Num tema, marcado por gritos e storytelling, repetiam-se frases sobre uma parede de noise frontal e desconfortável. Noutro, os pratos da bateria marcavam obsessivamente todos os tempos enquanto baixo e voz surgiam num recitativo carregado de vibrato, como se cada canção fosse, simultaneamente, concerto e peça de teatro avant-garde.

O encerramento trouxe um dos momentos mais melódicos da noite. Em “Traz-Os-Monstros” violino e guitarra em uníssono abriram caminho para um tema mais calmo e “comicamente folk”, onde a voz numa entoação grave e emocional fala sobre uma herança cultural portuguesa carregada de violência, ignorância e vergonha, exemplificado pelo título da canção. Pegando em símbolos da tradição portuguesa, neste último tema do seu segundo disco, há uma crítica social latente e uma desconstrução de figuras de autoridade, uma exposição de dúvidas e inseguranças que estão subjacentes à tradição e a ideia de seguir comportamentos sem sequer refletir acerca deles. Os Mordo Mia não são uma banda fácil. E talvez seja precisamente isso que os torna tão fascinantes. No B.Leza deram um concerto desafiante, teatral e ambicioso — uma experiência mais próxima de uma viagem sonora desconfortável do que de um concerto de rock tradicional. Num underground português que começa a abrir espaço para propostas cada vez mais arriscadas, os Mordo Mia têm vindo a afirmar-se como uma das vozes mais singulares e imprevisíveis da nova música experimental nacional.

Depois do intervalo, mudou-se de estilo e de estética: a sala estava pronta a receber canalzero, alter ego de Bernardo Ramos, músico e produtor lisboeta que colabora com nomes como Ana Lua Caiano, Vaiapraia, Chinaskee e bbb hairdryer. Em palco faz-se acompanhar por bonança, Pedro Antunes e Bruna de Moura. O grupo chega com a confiança descontraída de quem percebe exatamente o tipo de caos pop que quer criar — entre ironia, refrões explosivos e uma estética assumidamente plástica, exagerada e contemporânea. A abertura definiu logo o tom da noite. “Plástico”, último single lançado em 2025, surgiu quase como um manifesto, com Bernardo a entrar em palco de robe vestido como uma espécie de personagem saída de um late night decadente ou de um universo entre meme e popstar falhado. O público percebeu rapidamente que o concerto ia viver tanto da música como do espetáculo.

Ao longo da performance, os canalzero mostraram uma capacidade rara de navegar entre estilos sem perder a sua identidade. As novas músicas, como “Os Teus Dentes” apontam para uma direção mais punk rock e direta, embora continuem atravessadas por guitarras noise, interlúdios inesperados e um humor auto consciente que nunca deixa o concerto cair em sentimentalismos fáceis. “Somos os canalzero”, gritou-se em palco quase como uma afirmação de identidade perante uma sala já completamente conquistada. “Babsi”, numa referência à personagem do livro de Christiane F. apresentada como «literatura infantojuvenil», confirmou-se como um dos grandes momentos da atuação. Mais pop, mais melódica, sustentada por um baixo fortíssimo, a música revelou aquilo que faz a banda funcionar tão bem ao vivo: sabem escrever refrões acessíveis sem perder estranheza. O autotune, longe de soar artificial, aparece totalmente integrado na linguagem da banda, quase como extensão emocional das letras. E por trás de toda a ironia, há músicos extremamente dotados e de grande qualidade.

As letras vivem constantemente nesse equilíbrio entre humor e desencanto geracional. Em “Paranoias de Criança”, frases como “A minha vida é tão complicada” ou “Já falaram com o chefe?” surgem carregadas de sarcasmo, acompanhadas por arranjos que misturam pop-rock tradicional com detalhes inesperados — batidas com groove de surf rock, guitarras distorcidas e harmonias quase dream-pop. A certa altura, Bernardo interrompe a música: “Parem, parem, o que é que eu estou para aqui a dizer”, arrancando gargalhadas instantâneas da sala, mantendo a narrativa deste tema. Depois veio “Sou uma Batata”, talvez o momento mais absurdo e simultaneamente mais eficaz do concerto. Uma música que transforma humor Gen Z, numa referência à cultura meme portuguesa, em pop-rock contagiante, começando com uma guitarra distorcida marcante antes de cair num solo clássico quase exageradamente emocional. Tudo parece funcionar num limbo entre piada interna e uma canção genuinamente boa.

Entre músicas, os discursos ajudam a construir o universo da banda. “Malta, cuidado com a internet e o lixo”, diz-se em palco antes da apresentação de um novo single, o último antes do lançamento do álbum. Há sempre uma camada cómica, mas nunca vazia. Quando os canalzero endurecem o som, também o fazem com convicção. “Tá bem, okay” trouxe um baixo carregado de fuzz, uma bateria frenética que lembra drum’n’bass tocada por Pedro Antunes e uma energia muito mais pesada do que o público talvez esperasse. Bernardo dança pelo palco com um boneco insuflável de plástico enquanto a música explode atrás dele — uma imagem ridícula, caótica e estranhamente perfeita para definir a identidade do grupo. Nos momentos finais, a banda encontrou o seu lado mais emocional. Em “Mazelas” uma introdução pesada deu lugar a versos lentos e sonhadores, harmonias vocais suspensas e um refrão gigantesco — “Nunca vais saber o que eu sinto!” — cantado a plenos pulmões por praticamente toda a sala. Foi aí que ficou claro que os canalzero já ultrapassaram o estatuto de simples curiosidade underground: há uma ligação real entre banda e público.

O encerramento trouxe ainda “Popstar”, talvez o resumo ideal do projeto. Um tema com energia explosiva, algures entre Vampire Weekend e uma portugalidade assumidamente suburbana, onde Bernardo Ramos se afirma como uma espécie de anti-popstar para uma geração criada entre memes, ansiedade digital e cultura de internet. Os canalzero ainda parecem uma banda em mutação constante, mas talvez seja precisamente isso que os torna tão interessantes. Entre humor absurdo, pop emocional, noise, punk e sarcasmo, deram no B.Leza um concerto caótico, divertido e surpreendentemente eficaz — a confirmação de que começam a ocupar um lugar muito próprio dentro da música emergente.

Para acabar a noite, vieram os Heroína, grupo que já se tornou importante no underground lisboeta e que pouca ou nenhuma informação tem online, exceto algumas notas biográficas que mais de sátira têm que informativo. No entanto, sem grandes informações, têm já uma base de fãs que os seguem pelas várias salas onde têm passado, como a Galeria Zé dos Bois, Casa Capitão, BOTA, e que mantém a sua fidelidade. São formados por Francisco Silva, conhecido como “Jarda” (Máquina de Fumo), Miguel Abras (Putas Bêbedas, Caveira), Vasco Galvão e Martim Fernandes (Reia Cibele). A sua apresentação começou com noise e feedbacks das guitarras, numa tentativa de chamar o público para a sua versão da noite. Apesar de um início tímido por parte da audiência, logo após o primeiro tema sentiu-se uma enchente na sala e uma crescente energia que a acompanhava. Desde os primeiros segundos, ficou claro que não havia espaço para introduções confortáveis. Noise absoluto. Um arranque vazio, quase desconfortável, antes da explosão total. O baixo surge esmagador, rápido, nervoso, a empurrar as músicas para uma espiral de descontrolo onde a bateria parecia funcionar como um ataque contínuo, hiper marcada entre riffs desconstruídos, explosões experimentais e mudanças abruptas de direção.

Ao vivo, os Heroína vivem desse balanço constante entre mathcore e post-hardcore, numa tensão constante entre caos técnico e violência emocional. Há ecos claros de Fugazi nos momentos mais angulares e rítmicos, mas também sombras evidentes de Daughters na forma como desmontam cada canção até sobrar apenas ruído, nervo e agressividade. Blast beats, screamo, grindcore e noise coexistem sem nunca parecerem exercícios de estilo. Tudo soa urgente e honesto. O vocalista recusa constantemente a distância entre palco e público. Mergulha várias vezes na multidão, stagedives sucessivos que transformam o concerto numa massa coletiva de suor, empurrões e euforia. O público responde da única forma possível: caos absoluto. Não há pretensão nem pose artística calculada — apenas entrega total. Houve também espaço para ironia e pequenas provocações. A certa altura, uma dedicatória “às donas” antecedeu mais uma avalanche de grindcore e ruído ensurdecedor, num concerto onde até os momentos mais calmos funcionavam apenas como preparação para a próxima explosão. Uma introdução mais lenta acabava inevitavelmente esmagada por breakdowns violentíssimos, riffs metalizados e uma bateria impiedosa que parecia nunca perder intensidade.

O mais impressionante nos Heroína é precisamente essa capacidade de transformar desconstrução em impacto físico. As músicas raramente seguem estruturas previsíveis; são ataques epiléticos de som, tremolos de baixo incessantes, paredes de feedback e mudanças bruscas que deixam a sala constantemente em desequilíbrio. Ainda assim, no meio da desordem, existe intenção, dinâmica e uma identidade própria. Num circuito onde muitas bandas prometem mais do que entregam, os Heroína fazem exatamente o contrário. Sem grandes manias ou pretensiosismos, deram um concerto brutal, intenso e genuinamente surpreendente. Uma camada contínua de ruído e energia crua que confirmou aquilo que já se começa a ouvir nos cantos mais barulhentos do underground português: esta banda de Lisboa está rapidamente a tornar-se impossível de ignorar e por isso, pode-se dizer que o B.Leza recebeu uma das descargas mais caóticas e intensas que o underground português tem produzido nos últimos tempos. Os Heroína provaram, perante uma sala que começou tímida mas qure rapidamente encheu, porque começam a ganhar estatuto de culto entre os circuitos mais extremos da música pesada nacional.

Foi uma noite repleta de experimentação, humor e energia que contagiou todo o público de uma forma constante, podendo dizer-se que a imprevisibilidade da junção destes três grupos musicais tão distintos alcançou um objetivo muito claro – através de uma viagem sonora, mostrar ao ouvinte a variedade de música e de criações que se fazem no underground lisboeta e que provam o quão eclético é este mundo. Foram três grandes concertos que fizeram a sala do B.Leza vibrar com energia jovem e num ambiente que se sentiu profundamente familiar.

Mordo Mia

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canalzero

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Heroína

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