BONANÇA + TIAGO JESUS na Casa Capitão. Uma noite de trovas honestas e reflexões profundas

O cantor e compositor lisboeta bonança, apresentou-se na passada quinta-feira no Sótão da Casa Capitão, para apresentar o seu disco de estreia “só”. É o primeiro registo de longa duração de Ricardo Barroso, bem conhecido no mundo da música emergente nacional, onde, pela primeira vez, expõe o seu mundo interior sob a forma de canções no seu formato mais cru. 

Texto: David Pissarro
Fotos: Pedro Sebastião

bonança começou a ganhar forma em 2018, num quarto em Massamá, quando Ricardo Barroso decide tentar materializar as suas ideias musicais. Tendo a mensagem como alicerce, o projeto navega de forma despreocupada entre géneros como post-rock, bedroom pop, IDM e pop-punk, construindo uma identidade sonora íntima e mutável. Em 2020, estreia-se oficialmente com o EP, Mui Nobre Intenções, onde temas como “Há Demasiadas Marias” e “Ah, Desaparecer” revelam um universo emocional cru e honesto, afirmando-o como um nome a ter em conta na nova música portuguesa. No ano seguinte, “Oceanário” é selecionado para a coletânea Novos Talentos Fnac 2021, reconhecimento que se torna num importante ponto de viragem e plataforma de lançamento para o percurso do artista.

Este ano, mais especificamente a 9 de maio, bonança editou o álbum de estreia “só”, um disco que desconstrói o conceito tradicional de canção ao reduzir tudo ao essencial: voz e guitarra. Num registo despido e profundamente pessoal, o artista traz para a frente o seu lado mais frágil e honesto, sem artifícios nem distrações, onde a palavra tem o papel central e o silêncio se torna parte da sua linguagem musical.

A primeira parte da noite é entregue ao, também lisboeta, Tiago Jesus. Já bem conhecido pelo seu projeto JAVISOL, Tiago apresenta canções de dor, amor e reflexão, temas com os quais preenche todo o seu catálogo.

No Sótão da Casa Capitão, o ambiente é de ânsia pelo aguardado concerto de estreia de “só”, mas antes disso, é Tiago Jesus quem tem a primeira palavra. Reonhecido pelo seu projeto, JAVISOL e pelo seu percurso no Coro dos Anjos, Tiago, natural de Loures, tem duas características únicas que o destacam no panorama musical nacional: a sua voz é especial e a sua lírica honesta e universal.

Desde os primeiros acordes que ficou clara a identidade muito própria do músico. Em “Sozinho”, a sua voz impõe-se imediatamente — cheia, extensa, intensa — projetando um grau de emoção no ouvinte de uma forma visceral. Há ecos de Jeff Buckley, sobretudo na forma como estica as melodias e deixa o vibrato respirar, mas a influência portuguesa nunca desaparece. Pelo contrário Tiago canta como alguém que conhece tanto o peso da tradição fadista como a urgência do rock alternativo e, por isso, “Sozinho” surge precisamente como uma afirmação desse caminho próprio: uma canção sobre o seu passo e sobre o continuar sozinho, mas sempre em frente.

Logo depois, apresenta “Estou em Mim”, tema ainda por editar, escrito para JAVISOL, que promete tornar-se num dos momentos mais fortes do seu repertório. A letra, centrada na ideia de persistência e de sobrevivência emocional, revela uma escrita particularmente profunda e madura, que, sem dúvida, o irá acompanhar durante muito tempo.

Cada música parece carregar uma história inteira dentro de si. Em “Onde Andam Todos”, Tiago mergulha na solidão, na dúvida e na necessidade de dar tudo aos outros, perdendo até partes de si próprio, ao cantar sobre carregar o legado dos outros que tudo lhe deram. “Perco a conta ao que perdi por achar estar perdido enquanto eu sempre estive aqui”, canta, num dos versos mais marcantes da noite. Este tema, que dá nome ao EP criado em colaboração com o músico André Morais e lançado em 2020, reforçou essa dimensão íntima e vulnerável da sua escrita.

Apesar da densidade emocional, o concerto nunca caiu no dramatismo excessivo, pelo contrário, o humor foi uma constante. “Coisas Sérias”, surge numa nota declaradamente cómica, é uma canção que esconde uma reflexão amarga sobre a incapacidade de amar verdadeiramente, funcionando, simultaneamente, como uma reflexão acerca da escolha a quem se entrega. “Era bom gostar de quem gosta de mim”, canta, num perante o silêncio total da plateia. Esta capacidade de alternar entre ironia e confissão, mesmo nos momentos mais sérios, é uma das maiores forças de Tiago Jesus.

Outro dos momentos altos da sua apresentação chegou com “Língua das Ações”, talvez a música que melhor resume a sua visão artística. “Ninguém fala a língua das ações, só querem palavras e as palavras não dizem nada”, canta, numa crítica direta à superficialidade emocional contemporânea. A canção fala da dificuldade em transmitir aquilo que realmente se sente, da distância entre linguagem e sentir, e da procura, quase desesperada, pela transparência na experiência humana.

Mesmo quando entra em terrenos mais pesados, Tiago mantém a sala completamente presa. A interpretação de “CURA”, de JAVISOL, trouxe uma guitarra mais densa e uma energia rock mais agressiva, sem nunca perder a impressionante sensibilidade melódica da sua escrita. Pouco depois, “Aí o Medo” mergulhou o Sótão da Casa Capitão numa atmosfera mais negra e intrigante. O medo aparece aqui como figura metafórica, algo que anda “de porta em porta”, solto pelas ruas e pelas casas, numa reflexão que se sente crítica relativamente a sentimentos criados, propositadamente, para incutir o medo nas pessoas.

Mas foi talvez em “Em Nome do Ai” que Tiago Jesus revelou toda a dimensão política da sua música. Num dos temas mais rítmicos e sincopados da noite, criticou frontalmente o egoísmo, a falta de compaixão e o individualismo dos tempos atuais: “Eu só penso no meu umbigo até que a morte bata à porta”. A canção transforma-se numa reflexão amarga sobre a facilidade com que ignoramos o sofrimento dos outros até que a tragédia nos toque de uma forma direta.

Já na reta final, “Tudo o Que Eu Sei Dizer” voltou a mergulhar na intimidade emocional que atravessa toda a sua obra. “A desculpa não apaga a dor”, canta, enquanto a guitarra melancólica e mais complexa acompanha versos sobre tormento, culpa e fragilidade. Há uma honestidade brutal na música de Tiago Jesus — uma escrita que nunca procura parecer maior do que é, mas que é precisamente por isso que atinge uma força rara.

Ainda houve espaço para mais humor, para “A Corda Bamba”, também dos JAVISOL, e para um dos momentos mais viscerais do concerto: “Já Não Há Fogo na Montanha, Mas Ainda Cheira a Cinza”. A imagem da terra queimada e da floresta ardida transformou-se numa poderosa metáfora identitária: “Eu sou terra queimada, floresta que ardeu”.

O concerto terminou com “Parece Impossível”, deixando a sala em absoluto silêncio. Entre versos sobre escuridão, dor e perda de identidade, Tiago conduz a música até uma revelação final devastadora: “Parece impossível, mas fui eu.” Foi um fecho intenso para uma atuação que confirmou o enorme talento de um artista capaz de juntar tradição portuguesa, intensidade rock, consciência humana e vulnerabilidade emocional numa linguagem muito própria.

A sua apresentação não foi apenas uma primeira parte desta noite, foi um pilar emocional que, entre o rock, o fado e a canção de intervenção (cujo termo para o próprio é já gasto), confirmou aquilo que já começa a tornar-se evidente: Tiago Jesus é um dos novos trovadores mais importantes da música portuguesa.

Após um breve interregno, com o Sótão da Casa Capitão cheio, está na hora do tão aguardado concerto de estreia de “só”. Lançado uma semana antes, este registo que mostra outro lado de bonança; sem banda, apresenta-se sozinho com a guitarra, levando o ouvinte para o seu íntimo, na forma mais honesta e crua.

Num concerto que se moveu constantemente entre a fragilidade e a explosão, o músico em palco. Sozinho, voz e guitarra bastaram para encher a sala inteira — e talvez essa tenha sido a impressão mais forte da noite: a capacidade de transformar silêncio, hesitação e ansiedade em canções densas, emocionalmente cruas, mas cuidadosamente construídas.

Logo no primeiro tema, “contas”, ficou evidente uma escrita guitarrística muito desenvolvida, detalhada sem nunca soar excessiva. A guitarra de bonança não serve apenas de acompanhamento: é ela que conduz as canções, que cria tensão e que abre espaço para a voz respirar. E que voz. Há nela qualquer coisa de vulnerável e dramático, um timbre que faz lembrar Thom Yorke, sobretudo na forma como oscila entre o murmúrio e o desespero. Talvez o único elemento ausente seja uma certa leveza; mesmo nos momentos mais calmos, há sempre um peso emocional latente e que nunca cessa.

Entre músicas, bonança falou do medo de apresentar temas novos depois de seis anos a tocar praticamente as mesmas canções. Esse desconforto acabou por dar ainda mais força ao concerto: tínhamos a sensação de estar assistir a algo em transformação. “assim tão pouco” trouxe uma guitarra mais próxima do rock, igualmente trabalhada, num tema delicado e belo, canta “somos como as árvores que não sabem quando murchar”, resultando num clímax etéreo, enquanto “tão perto”, que fala sobre deixar morrer plantas no quarto e tentar incessantemente alcançar algo que nunca chega realmente, mergulhou a sala num ambiente quase shoegaze.

“O Corpo” foi um dos momentos mais fortes da noite. Nascida de um ataque de ansiedade — quando perdeu sensibilidade nos dedos e sentiu as mãos presas —, a canção transforma o corpo numa entidade emprestada, algo que tanto sustenta como trai. A ideia de que “estamos cá por empréstimo” atravessou toda a interpretação, pesada e íntima ao mesmo tempo que a sua voz viaja por toda a sua extensão, levando o ouvinte para uma reflexão profunda acerca da efemeridade e da fragilidade da vida.

Houve também espaço para uma cover – “Vinte Anos”, de Querubim, apresentada como música de um amigo, criada numa residência artística no Centro e Laboratório Artístico de Vermil. Entre ecos de indie rock e bedroom rock, bonança brincou com a facilidade de ter vinte anos e “meter água”, num dos raros momentos de, aparente, leveza do alinhamento.

Segue-se “sem título”, música que, segundo o próprio, não era suposto sair no álbum, mas que, no entanto, e após muita reflexão ganhou lugar dentro de “só”, como um tema que se aproxima de uma estética mais folk tradicional. Outras canções aprofundam o desconforto emocional que domina grande parte da sua escrita. “sigo o teu olhar”, que fala sobre relações tóxicas que deixam uma pessoa perdida, foi particularmente intensa para o público que assistia, com uma sonoridade mais lo-fi, lembrando uma reflexão noturna tardia, entre o burburinho de pensamentos que não param.

“Corrida”, escrita “às duas da manhã” como quase todas as outras, transformou frustrações quotidianas em catarse, num ambiente suspenso. E depois veio “Sanita”, talvez o tema mais brutal da noite quando uma guitarra pesada soa e bonança canta: “quem é que não chora na sanita?”. Entre gritos, desespero e ironia, esta música condensou o lado mais cru de bonança. “A vida é tão bonita” surge aqui menos como afirmação do que como tentativa desesperada de acreditar nela, num tema negro e sujo, elevado pela distorção na voz e pela harmonia que varia entre leveza e melancolia intensa.

Ao longo do concerto, o artista mostrou também uma enorme gratidão por finalmente poder tocar o seu primeiro álbum “a sério”. Sublinhou várias vezes que, apesar de o disco se chamar “só”, ele só existiu graças à ajuda dos amigos. Um agradecimento sincero e emocionalmente carregado — talvez porque toda a noite girou precisamente em torno dessa tensão entre a solidão e a necessidade dos outros.

“só”, a música que dá título ao álbum, marcou outro dos pontos altos. Falando da entrada no teatro no 10.º ano e da forma como isso mudou a sua vida, o músico apresentou uma canção de guitarra simples mas pesada, sustentada por versos incapazes de falar diretamente sobre amor: “Até que curto de ti e da tua companhia / nunca senti amor / não te sei falar de amor”. A honestidade desarmante da letra acabou por resumir bem o concerto inteiro, onde essa verdade ressoa com todos os ouvintes e se liga a eles de uma forma tão genuína pela sua pureza.

Nos momentos finais, a intensidade subiu ainda mais. A “canção de não intervenção”, sobre a impossibilidade de escrever músicas de intervenção e numa reflexão acerca de crescer, acelerou o ritmo antes de “Pensei” encerrar o alinhamento de forma explosiva. Inspirada numa manhã depois de sair do Lux Frágil para ir correr, a música cresce entre guitarras mais próximas do indie rock tradicional e uma descarga emocional total. “Pensei em matar-me enquanto corria / pensei em tudo enquanto corria” foi cantado aos gritos, numa entrega física impressionante. O último verso — “não preciso de tudo, só de gente com quem entender-me” — soou quase como conclusão inevitável da noite.

Ainda houve tempo para recuperar com “Há Demasiadas Marias”, a primeira música oficial de bonança, cantado a plenos pulmões por toda a audiência e “Oceanário”, entrando a sala num delírio total com o já clássico do seu catálogo, com o qual foi selecionado para integrar a coletânea dos Prémios Novos Talentos Fnac 2021, bonança levou o Sótão da Casa Capitão a um último momento de loucura, antes do fecho de um concerto profundamente humano, imperfeito e intenso. Mais do que apresentar novas canções, bonança pareceu testar em palco a possibilidade de continuar a existir dentro delas, tal como o ultrapassar de uma barreira que finalmente foi deixada para trás. “só” é um álbum intenso, repleto de palavras duras e reflexões honestas, que se irão conectar a qualquer ouvinte pela genuinidade das suas intenções e da sua qualidade musical. É, sem dúvida, um álbum que irá fazer parte do reportório indie português.

É inevitável referir que esta foi uma noite inesperadamente cheia de pessoas no Sótão da Casa Capitão, intensa e repleta de verdade, onde o facto de ambos os artistas se apresentarem apenas com as suas guitarras não limitou as interpretações, antes pelo contrário. Deixou-os no seu ambiente mais natural elevando a sua música pela autenticidade e realismo das suas reflexões acerca da vida, centrando o público, não no aspeto “espetáculo” do concerto, mas sim no conteúdo de cada linha da guitarra e de cada verso cantado, num constante ato de coragem. Bravo bonança e bravo Tiago Jesus.

TIAGO JESUS

BONANÇA

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