“Bom ou mau, não importa. Se o amor estiver lá, a glória será eterna, sempre”, Belaflor
Com AUTOS DE AMOR & GLÓRIA, Belaflor apresenta um trabalho cuidadosamente moldado ao longo de dois anos, onde a criação se torna um exercício de libertação e expressão pessoal. Entre paredes de som densas, distorções profundas e atmosferas que evocam tanto a espiritualidade como memórias da infância transmontana, o álbum explora temas de amor, glória, fé e aceitação após experiências de violência e rigidez religiosa. Inspirado por referências internacionais como Sunn O))), Earth, The Body e Swans, mas profundamente enraizado na experiência pessoal do autor, o disco constrói-se como uma viagem sensorial e emocional, equilibrando drone, pós-rock e doom.
Por Sandra Pinto
Nesta entrevista, Belaflor fala sobre o processo de composição, a influência da iconografia cristã, a criação das texturas sonoras e visuais, e o impacto que espera que AUTOS DE AMOR & GLÓRIA tenha sobre quem o ouve.
AUTOS DE AMOR & GLÓRIA foi trabalhado durante dois anos. Como surgiu a ideia inicial para este disco e o que querias transmitir com ele?
As ideias começaram a partir de um processo de necessidade de criação – no sentido em que precisava, urgentemente, de poder criar e expressar algo que já tinha reprimido durante muitos anos, seja por vergonha ou por complacência. Começou a partir de um dia que decidi investir numa guitarra e em material novo, e a partir daí foi começar a compor e a construir à volta dos alicerces que tinha já em mente. E o que quero transmitir com ele é o sentimento de liberdade depois de perder as correias da vergonha.
O álbum é inspirado em bandas como Sunn O))), Earth, Löbo, The Body, Swans e Locrian. De que maneira esses artistas influenciaram o teu som e abordagem composicional?
Dentro dos género mais extremos da música, aqueles que me tocaram mais foram sempre os que envolvem distorção, passos lentos e paredes de som densas. As minhas bandas favoritas, como Sunn O))), fazem muito mais do que compor música, criam espaços físicos onde se sente tudo o que está a ser tocado – desde as cordas a vibrar na guitarra à eletricidade a passar pelos cabos ao ar a vibrar por causa das colunas – e conseguir moldar isso a uma experiência quase espiritual sempre foi algo que admirei muito. Essa abordagem ao material e à composição sempre me inspirou muito, e é algo que eu uso como ponto de referência. No caso de artistas como The Body e Swans já não será tanto o aspeto sonoro, mas talvez o aspeto linguístico e iconográfico da música. No caso dos portugueses Löbo é mesmo porque saber que uma banda fazia a música que eu gostava de ouvir e queria fazer quando era adolescente foi mesmo muito importante para mim. E os trabalhos mais recentes dos mesmos são puramente lindíssimos, e é uma inspiração constante.
Falas em explorar a iconografia cristã e a tua experiência pessoal com a religião. De que forma essas ideias se refletem nas faixas do disco?
Eu sou transmontano, de uma aldeia no extremo norte Português, onde as imagens sacras são imagens que se envolvem diariamente com as pessoas. Claro que isto é uma experiência partilhada com todas as outras pessoas, mas na minha experiência pessoal, sempre senti que não conseguia escapar desses mesmos espaços, porque essas imagens e ícones estão em literalmente todo o lado. Fazem parte das nossas celebrações, das nossas casas, são prendas que são dadas, tudo mesmo. Mesmo ao me mudar para Coimbra, onde estudei e me estabeleci como adulto, não consegui escapar dessas mesmas imagens. Confesso que me são traumáticas. Mas ao mesmo tempo elas também me são confortantes. Quando exploro ideias como uma eucaristia, ou os sinos da capela onde fui batizado, faço-o na perspetiva de perdão e reconstrução dessa relação abusiva que tinha e tenho com as mesmas, e com a instituição religiosa que é a Igreja Católica. Em relação à religião especificamente, será outra questão que ainda estou a explorar pessoalmente.
O disco é dividido em duas partes com ideias sonoras distintas. Qual foi a intenção por trás dessa divisão e como é que isso impacta a experiência do ouvinte?
Inicialmente o disco iria ter apenas duas faixas. Cada faixa seguia escalas e tonalidades específicas como enquadramento musical (a nível da teoria musical) para o som que estava a construir, mas quando comecei a estruturar melhor as frases musicais, percebi que seria mais correto dividir essas duas faixas e construir “partes”, quase como se fossem atos numa peça de teatro, porque isso me iria libertar mais para poder extender ou encurtar essas frases à medida que eu quisesse. Tentei pegar nessas partes e tentar descrever as mesmas de uma maneira que me fizesse sentido, e cheguei às ideias de amor e glória, e como elas aparecem para mim e para o outro, seja a nível puramente linguístico, estético ou sacro. E assim ficou a estrutura final. Não há uma intenção de impactar a experiência do ouvinte, mas sim mais de concretizar a minha experiência ao criar essas partes. Talvez a ideia seja que o ouvinte pense nas palavras amor e glória e que as tente perceber com o fundo sonoro que estou a criar.
A distorção dos amplificadores e a criação de espaço e reverberação são centrais no álbum. De que maneira desenvolves essas texturas sonoras?
Quando aprendi sobre efeitos sonoros, principalmente o reverb, uma das primeiras descrições que li foi que “é o que se houve quando se toca dentro de uma igreja”. Isso sempre foi uma descrição e uma ideia que me impactou desde os tempos em que estava a aprender a tocar guitarra. A história dos géneros musicais que eu gosto, como o drone, o doom, vem muito da relação que os músicos tem diretamente com o material que usam – levar os mesmos ao extremo, adaptando o que fazem à medida do que é preciso, e adicionar ou retirar material como se fossem pedras num muro. Stephen O’Malley (dos Sunn O))) ) descreve a sua maneira de compor musica como a relação do todo, desde a ponta dos seus dedos, através da guitarra, dos cabos, da eletricidade até ao amplificador, e isso é algo que me inspira imenso. Estas texturas não são novas nem pioneiras, mas são texturas que eu sinto que são espaços belíssimos de criação. Então eu tentei desenvolver as mesmas com o material musical que possuo, que tenho acesso, e continuei a partir daí.
A tua música combina drone, pós-rock e doom. Como consegues equilibrar essas influências para criar algo pessoal e coeso?
É complicado de explicar como é que faço esse equilíbrio – e se sequer existe um – mas acho que a maneira mais fácil de explicar o processo é pegar essencialmente no que se pode descrever como o que é cada um e tentar ir construindo sons que incluam tudo. Para todos os efeitos, são apenas palavras simples que descrevem as técnicas e métodos que uso para compor, e como eu consegui as usar naquele momento. Se é coeso, não sei. Para mim é coeso no sentido em que me é natural, mas como tudo, é algo que continuo a praticar para aperfeiçoar.
Algumas faixas parecem evocar imagens ou paisagens mentais. De que forma essas imagens guiam o processo de composição?
O meu processo de composição é, essencialmente, ir construindo os riffs, adicionar ou retirar efeitos, e após chegar a algo que sinto concreto é refletir no que é que vejo na minha cabeça quando oiço o que compus e no que é que sinto pessoalmente quando toco o que compus. Dada a minha experiência pessoal com diferentes coisas, essas imagens acabam por ser quase como guias estéticos sobre o que fazer a seguir – que dimensão quero que o som tenha? Onde é que gostaria de estar a tocar isto? – e faço o que conseguir para chegar a essa resposta. Gosto de pensar que o som de Belaflor é também visual, mas isso é o que eu gosto de pensar. O ouvinte pode (e deve) ter qualquer outra leitura daquilo que estou a fazer e a compor.
A performance e o impacto físico do som são importantes. Como aconselhas a que se ouça o disco para transmitir a experiência completa que imaginaste?
O disco deve ser ouvido bem alto, da mesma forma como foi composto, da mesma forma como foi gravado.
O álbum também reflete as paisagens transmontanas onde nasceste. Até que ponto o ambiente e a memória do norte de Portugal influenciam a tua música?
Influenciam da mesma forma que as imagens religiosas a influenciam, como mencionei à pouco. Os sinos, os ecos, as festividades, e aquilo que eu vivi, vivo, experienciei, experiencio na minha terra são algumas das influências basilares de muito do que estou a fazer criativamente agora. Eu acho que tudo se interliga. Trás-os-Montes é um reino maravilhoso, e tenho muito orgulho e amor pela terra que me criou. Mas muito desse orgulho e amor é também não esquecer o sofrimento que senti nesses lados, e não o querer esconder ou apagar da minha experiência vivida. Essa influência que a terra e a memória da mesma tem na minha música não é suposto ser documental ou antropológica, é suposto ser pessoal e próxima.
Como foi trabalhar com André Figueiredo e Paralelepípedo Sónico na gravação e apoio técnico?
Devo muito ao André e à Paralelepípedo Sónico pelo apoio todo nestes anos. Aliás, devo imenso ao André por ter sido uma das pessoas que mais me puxou a continuar a criar e a querer disponibilizar o seu pouco tempo livre a querer gravar e a trabalhar este disco. Ele e o Rafael Borges foram instrumentais durante os meses em que se concretizou o alinhamento do disco, nos primeiros concertos que dei com o mesmo, e no durante e pós-gravação e lançamento dele. O facto de já sermos amigos, fãs uns dos outros, e já termos trabalhado (e tocado!) juntos em outros contextos também ajuda. É nesse espírito que sempre quis fazer música, no espírito de entreajuda. E quiçá um dia haverá um trabalho colaborativo entre Fjords (a banda de André e Rafael) e Belaflor… mas isso será outra discussão.
O design gráfico e a iconografia foram elaborados com a ajuda da Maria Carrilho. Visualmente é o que tinhas imaginado para complementar a narrativa sonora do álbum?
Só para clarificar, muito do design gráfico e iconografia utilizada foi feita por mim com o apoio e aconselhamento da Maria, dada a sua formação enquanto designer (e como fã do trabalho dela – e como amigo dela também). Foi a Maria que fez o logo da banda, e que me ensinou algumas das técnicas que usei para construir a imagem gráfica do mesmo. No que toca à relação do design com a narrativa sonora, eu peguei em elementos pessoais como uma foto da minha primeira comunhão e em elementos iconográficos como rosas, grafismo religioso (principalmente no feminino) e tentei fazer com que ele fosse representativo também desta ideia de glória e amor que explorei no disco. A Maria ajudou a concretizar essas ideias com a sua experiência e aconcelhamento. Aliás, ela tem ajudado desde o inicio do projecto com esse aspeto visual de Belaflor.
O disco fala de amor e aceitação mesmo após experiências de violência e rigidez religiosa. Até que ponto esse tema moldou o desenvolvimento emocional da música?
Muitas das ideias e frases musicais do disco foram criadas após a morte e funeral do meu pai. Foi após ter passado por esse momento que percebi o quão violenta a performance religiosa é, para além daquilo que eu já conhecia (seja pessoal ou historicamente). Mas ao mesmo tempo também percebi o quão dependente algumas pessoas são dessas próprias coisas. E do quão dependente eu era também dessas imagens, mesmo tendo-me afastado desses espaços para fins de segurança própria (e posicionamento político também). Já há anos que tinha percebido que a minha resistência e revolta a essas experiência não é por causa de fé, mas sim por causa de quem a usa e lhe retira a beleza. Então decidi tomar essas imagens e textos para mim próprio e não deixar que uma instituição sangrenta como a Igreja Católica é as deturpe mais na minha cabeça. Essa violência e rigidez não veio da fé mas sim das pessoas. Talvez eu seja uma pessoa de fé, talvez não – mas sei bem que se houver alguma coisa para além disto aqui na terra, não será sequer parecido ao que me fizeram e fazem sentir. Amor e glória é compreender isso, adorar isso, e libertar-me disso.
Olhando para AUTOS DE AMOR & GLÓRIA como um todo, que mensagem ou sentimento esperas que o ouvinte leve consigo após ouvir o álbum?
Que nós podemos curar. Que existe um processo de cura, seja qual ele for. Que há uma maneira de lutar contra a vergonha e a inação e criar, sem medos, e com honestidade. Bom ou mau, não importa. Se o amor estiver lá, a glória será eterna, sempre. Nós somos muito mais do que as correntes que nos meteram no pescoço. E depois de tudo, haverá sempre amor.