Batushka na República da Música: incenso, sangue e guitarras na missa negra que “abençoou” Lisboa
Lisboa foi recentemente palco de uma experiência musical profundamente ritualística, rara nos palcos europeus: os verdadeiros Batushka, liderados por Krzysztof Drabikowski, trouxeram à República da Música, em Lisboa, uma missa negra envolta em incenso, iconografia ortodoxa e o peso esmagador do black metal eslavo.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro
Desde o primeiro momento, estava claro que o público não assistiria a um simples concerto, tratava-se de uma liturgia sonora, onde o palco se transformou num altar profano. As luzes mantiveram-se baixas, tingidas de vermelho sangue. No centro, um caixão. Ao lado um ícone iluminado por velas e turíbulos em constante movimento deixavam no ar o cheiro intenso a incenso. Os músicos surgiram encapuçados, trajando longos mantos clericais. Nenhuma palavra foi dita. Apenas o silêncio reverente antecedeu o primeiro acorde.
A abertura veio com um dos cânticos de “Panihida” (2019), o álbum lançado por Drabikowski após a cisão controversa da banda. Conhecido por ser o fundador, compositor e produtor original dos Batushka, Drabikowski idealizou o projeto em 2015 com o ambicioso objetivo de fundir black metal com música litúrgica ortodoxa eslava. O resultado foi “Litourgiya”, considerado um marco no metal contemporâneo, aclamado tanto pela crítica como pelos fãs pela sua originalidade e atmosfera ritualística.
Durante mais de uma hora, o tempo pareceu suspenso. A plateia manteve-se em (quase) absoluto respeito, absorvida pela intensidade da performance. As composições, cantadas em eslavo eclesiástico antigo, soaram como hinos soturnos, com vocais guturais e coros corais ecoando como preces negras em direção ao abismo. Não houve interações com o público, apenas gestos sacros, cruzes erguidas, bênçãos obscuras.
Krzysztof Drabikowski permaneceu discreto no centro do palco, mas a sua presença era inequívoca. Músico multifacetado e ex-integrante da banda Hermh, é reconhecido não apenas pela destreza com as guitarras, mas também pela produção meticulosa que dá forma ao universo sonoro de Batushka. Desde a polémica separação em 2018, que resultou em duas bandas a tocar sob o mesmo nome, Drabikowski manteve a fidelidade à visão artística original, mantendo o foco na espiritualidade ortodoxa como metáfora para o sofrimento humano e a transcendência através do som.
O ritual culminou com “Yekteniya VIII: Spaseniye”, talvez a faixa mais emblemática da banda, um encerramento que mais pareceu uma despedida solene. Ao fim, os músicos desapareceram da mesma forma como entraram, em silêncio, envoltos em fumo e sombras.
Para quem esteve presente, ficou a sensação de ter participado de algo para além de um concerto: um ritual estético e sonoro, que une fé, arte e rebelião. Não é exagero dizer que os Batushka de Drabikowski proporcionaram uma das apresentações mais singulares e espiritualmente intensas que passaram por Lisboa nos últimos anos: um verdadeiro culto, celebrado por quem o criou.
Antes, na escuridão da noite lisboeta, os portugueses Okkultist subiram ao palco com a força de quem não pede licença para existir. Com raízes profundas na cena underground lusitana e um som que equilibra a brutalidade do death metal com uma estética ritualística marcadamente obscura, a banda provou, uma vez mais, por que é considerada uma das maiores promessas do metal extremo nacional. Logo nos primeiros instantes, o ambiente do recinto foi engolido por uma atmosfera densa e cerimonial. As guitarras ergueram uma muralha de riffs afiados, enquanto a secção rítmica criou o terreno sísmico sobre o qual a vocalista Beatriz Mariano impôs a sua presença feroz. A sua voz, rasgada, gutural, emergiu como um chamamento ao abismo, alternando entre violência e domínio com uma naturalidade assustadora.
A performance não se limitou à técnica, foi emocional, visceral e intensa. O público estava unido pela tensão crescente que a banda construiu com cada tema. Okkultist não se limitaram a tocar música: invocaram estados de espírito, encenaram tragédias espirituais, rasgaram o véu da estética para revelar algo cru, sujo e ao mesmo tempo elegante.
Num concerto marcado pela fusão entre a brutalidade do black metal e a riqueza da música tradicional portuguesa, os Gnosis, oriundos de Setúbal, levaram o público numa viagem sonora intensa e única. Com riffs agressivos e passagens melódicas que evocam as raízes culturais lusas, o grupo conseguiu criar uma atmosfera envolvente, onde o peso do metal se mistura com a alma da música ancestral.
As letras e o conceito da banda, inspirados na sabedoria esotérica e no misticismo, refletiram-se numa performance carregada de energia e significado, que deu corpo ao nome “Gnosis”: o conhecimento espiritual. O concerto não foi apenas um espetáculo musical, mas uma verdadeira experiência sensorial, onde o passado e o presente se encontraram em riffs, melodias e uma aura ritualística que só o black metal com identidade genuinamente portuguesa pode oferecer.
Batushka
Okkultist
Gnosis