“As ligações que criamos com as canções é algo muito especial”, Matilde na Lua

“5kg”, de Matilde na Lua, parte de uma ideia aparentemente simples — o peso invisível de crescer — mas rapidamente se transforma numa reflexão mais ampla sobre ansiedade, pertença e a pressão silenciosa da vida adulta. Ao longo da entrevista, a artista revisita o processo de criação da canção, escrita ao longo de vários anos e atravessada pela própria evolução pessoal, desde o início dos 20 até à aproximação dos 30.

Por Sandra Pinto

Entre a incerteza do futuro, a velocidade do quotidiano e a dificuldade em abrandar num mundo cada vez mais exigente, “5kg” surge como um exercício de tradução emocional em forma de pop intimista. Um tema que cruza experiência individual e leitura geracional, e que encontra na música um espaço de alívio, compreensão e partilha.

“5kg” nasce como uma reflexão sobre o peso simbólico de crescer. Em que momento percebeste que essa seria a ideia central da canção?
Acho que quando escrevi a linha “Um sábio diz que os 20 são assim”, que era algo que ouvia muito as pessoas dizer na altura, coisas como “isso é normal, faz parte de ter 20 anos” ou “isso são preocupações da idade”. A canção surgiu muito naturalmente, num estado de fluxo, até
essa parte. Escrevi muito rápido e só parei aí, quando senti que havia uma conclusão no raciocínio.

Começaste a escrever este tema no início dos teus 20 anos e só o terminaste agora. Como é que essa passagem do tempo mudou o significado da música para ti?
Na altura estava literalmente a tentar perceber que trabalho procurar e estava um pouco ansiosa com o futuro, então havia alguma ansiedade e incerteza quando comecei a escrever. O refrão e o resto da canção surgiram já depois da primeira sessão de estúdio com o miguele, e nessa altura já estava mais a meio dos meus 20 anos, numa fase mais de encontrar soluções para aliviar esse peso e valorizar as pessoas e as pequenas coisas da vida que melhoram o nosso dia a dia, não pensar tanto no futuro. Hoje, quando lanço, já quase nos 30, acho a canção super divertida e neste momento ouço para aliviar algum peso e necessidade de controlo que possa sentir em relação ao futuro, descontrai-me.

O título funciona como metáfora para um peso invisível que carregamos. Esses “5kg” são algo pessoal, coletivo ou uma mistura dos dois?
Uma mistura dos dois. Tenho os meus objetivos e planos pessoais que por vezes são colocados numa timeline mental que causam esse peso, mas também coletivo porque o que me tenho apercebido é que de uma forma ou de outra todos carregamos algum peso invisível, é algo que vejo mais pessoas a falar e também surge muitas vezes em conversas com o meu círculo de amigos mais próximo.

Sentes que essa sensação de pressão e insuficiência que descreves na música é algo geracional?
Eu acho que sim. De certeza que noutras gerações houve outros pesos também, mas sinto que a velocidade e os estímulos da vida hoje em dia criam um ambiente muito propício a essa constante sensação de pressão e insuficiência. Sinto que é mais difícil lidar com momentos de espera, de tédio, de calma. Parar para pensar ou simplesmente para estar e aproveitar é visto ou sentido como perder tempo. Estamos constantemente à procura de ser produtivos e há uma pressa muito grande em fazer as coisas, como se estivéssemos sempre a correr contra o
tempo. Mesmo na música vemos isso, é tudo muito rápido, até o tempo de apreciação. O interesse generalizado é algo muito volátil hoje em dia e se nós procurarmos ir atrás dele, estaremos sempre aquém do nosso potencial. Construir o nosso caminho acaba por parecer um bocadinho ir contra a corrente em momentos, porque a maior parte das vezes é mais demorado e muito mais gradual.

A canção fala de uma procura constante por respostas. Em que medida essa procura ainda está presente na tua vida hoje?
Não sinto hoje em dia que seja tão constante, mas acho que a procura por respostas estará presente a nossa vida toda, visto que nunca teremos de facto a resposta para tudo. Ou seja, hoje levo isso com naturalidade, não sei o que estarei a fazer daqui a 5 ou 10 anos, então procuro mais saber o que quero fazer agora.

A letra cruza imagens muito diretas com uma dimensão mais abstrata. Como trabalhas esse equilíbrio entre o concreto e o emocional na tua escrita?
Adoro esta pergunta. Acho que esse equilíbrio faz parte do processo que eu chamo de “traduzir emoções para canções”. O emocional vem muito de sensações que nós temos, o que o nosso corpo nos transmite, e o concreto traz a associação a algo visual, acho que ajuda a criar uma
sensação de compreensão com o que sentimos. Normalmente começo pela emoção e tento “encaixar” numa situação ou numa metáfora, tenho uma sensação de peças de puzzle nos momentos em que faço essas ligações.

Frases como “ninguém vê os quilos que me atrasam” sugerem uma dor silenciosa. Foi importante para ti dar voz a esse tipo de invisibilidade?
Foi importante e acho que aqui toca muito na parte do coletivo, em encontrar empatia tanto para nós, como para os outros. Todos nós temos algum peso invisível que influencia os nossos passos e as nossas perspectivas e há alturas em que lidamos pior ou melhor com isso. Não quer dizer que tudo seja justificável por isso, mas quer dizer que nós vemos a vida através das lentes do nosso peso, e as outras pessoas vêm através do peso delas. Perceber isso pode ajudar-nos a comunicar melhor uns com os outros e também aliviar a constante necessidade de comparação e pressão.

“5kg” mantém o universo do pop emocional que já te caracteriza. O que procuras preservar dentro dessa identidade sonora?
Acho que o pop tem bastante elasticidade, há muitas variantes e abordagens hoje em dia e isso entusiasma-me. Ao mesmo tempo, é orelhudo e tentar criar melodias e harmonias por cima de tanta letra é um desafio engraçado. Para mim, é dar alguma leveza às emoções fortes.

A produção do miguele cria um espaço mais contido, onde a voz assume o centro. Como foi trabalhar essa contenção em vez de uma abordagem mais expansiva?
Foi curioso porque foi muito natural e acho que surgiu também do facto de eu querer dizer muita coisa e da sensibilidade musical do miguele. Quando cheguei à primeira sessão, tinha escrito o primeiro verso e uma ideia para o refrão. O miguele tinha um arranjo de guitarras e acho que alguma percussão ou pelo menos ideia de ritmo, nessa primeira sessão trabalhámos muito na base da música e quando foi para terminar a letra e a melodia, eu já tinha escrito imenso.
Por exemplo, tive bastante dificuldade em encontrar o refrão para esta canção. Quando surgiu, surgiu, mas até surgir ainda levou bastante tempo. Isto para dizer que normalmente recorro a técnicas de escrita para me desbloquear e uma das mais faladas é o equilíbrio da letra entre as várias partes da canção (verso vs refrão, etc). Nesta canção não sentia que estava a funcionar, o que resultou na canção ter imensa letra, tanto no refrão como nos versos, como até no outro.
Depois, o miguele foi encontrando o equilíbrio na produção e nos arranjos dos vários instrumentos para ajudar a contar a história, brincando com as várias dinâmicas, linhas de guitarra e também algumas harmonias de voz mais criativas que acabaram por dialogar com tudo, criando espaço para a letra ser ouvida. Então o desafio foi mesmo permitir que a mensagem fosse passada e que os vários elementos envolventes contribuíssem para isso, tendo na mesma o seu papel e identidade musical.

Sentes que este tipo de produção mais minimalista ajuda a amplificar a mensagem da canção?
Acho que nestes casos em que há muita letra e a letra diz muita coisa é essencial. A produção acaba por se tornar um diálogo entre os vários instrumentos e elementos, tornando a mensagem mais clara. As dinâmicas e sonoridades vão caminhando juntas, dando mais ou menos espaço em diferentes momentos da canção, acabando por contribuir para o mesmo.

Este single surge depois de “Amar Assim” e marca uma nova fase no teu percurso. O que mudou entre estes dois momentos?
Na verdade a “Amar Assim” foi essencial para preparar terreno para este momento. Depois de muitos anos a procurar a melhor forma de partilhar a minha música com o mundo, a “Amar Assim” assinalou um retorno a mim mesma, de uma forma mais madura, autêntica e acima de tudo com mais direção, focada na composição que é o que eu mais amo e sinto que traduz muito bem a maneira como crio música. No fundo, a ligação que tenho com a música é algo muito pessoal e foi fundamental perceber de que forma conseguiria preservar essa ligação,
partilhando um pouco com o mundo. A “5kg” sai quase como uma homenagem a esta fase, que foi essencial para que hoje em dia a partilha das minhas canções seja mais intencional e ao mesmo tempo desapegada.

Vens de uma primeira fase em inglês e agora assumes uma escrita mais em português. O que te levou a essa mudança linguística e emocional?
Eu na verdade sempre escrevi nas duas línguas, mas sou apaixonada pelo português, acho uma língua muito rica e muito profunda, poética de uma forma muito natural. Quando estudei em Londres escrevia mais em inglês porque fazia muitos exercícios de escrita e já pensava muito em inglês, mas sempre soube que eventualmente iria querer começar a lançar canções em português. O emocional acho que vem muito da profundidade do português e da cultura que sempre fui consumindo na nossa língua, permite-me encontrar formas mais específicas de traduzir as emoções.

Sentes que escrever em português te aproxima mais da tua própria verdade artística?
Sim, sem dúvida. Sempre consumi muito música portuguesa, desde muito pequena. E sou muito fascinada pela cultura da própria língua, nas inúmeras formas que temos de transmitir a mesma coisa, quer seja pelo nosso próprio vocabulário oficial, como pelas frases típicas de cada canto do nosso país ou até da comunicação entre famílias e amigos.

“5kg” fala também de urgência e de uma certa corrida constante. Como é que tens aprendido a desacelerar — se é que tens?
Tenho e é algo que a que eu dou muita atenção. Acho que a forma que me tem ajudado mais é a obrigar-me a criar tempos vazios na minha semana e isso vai desde dias inteiros, a uns minutos antes de sair de casa ou depois de ter uma reunião. Ao mesmo tempo, trabalhar o conceito de urgência e prioridade, encontrar o meu equilíbrio e a minha escala do que é realmente importante para mim e em que momentos.

A ideia de pertença atravessa o tema de forma subtil. Sentes que esse é um dos grandes desafios da vida adulta?
Acho que faz um pouco parte da condição humana querer sentir que pertencemos a algo, e no meio do sobressalto da vida adulta tendemos a esquecer de nutrir esse sentimento, por isso talvez sintamos mais em falta e tenhamos mais necessidade de procurar espaços e pessoas
que o provocam. Na canção acho que a referência a este sentimento é muito refletido no segundo verso, especialmente quando digo “preenchem salas e / dão voz à alma sã”, que, para mim, representa alguma luz e a calma que vamos construindo no meio das preocupações e
incertezas desta primeira década (e acredito que na vida). Vamos encontrando o que nos faz sentir mais perto de nós próprios, nutrindo essas ligações e, consequentemente, criando um sentimento de pertença connosco.

Enquanto cantora e compositora, o que procuras hoje quando sentas para escrever: resposta, alívio ou apenas compreensão?
Depende das vezes, mas acho que o alívio é o mais comum na maneira como escrevo. Eu sinto mesmo fisicamente quando uma canção está terminada e, de igual forma, quando não está. É como se a canção já existisse e eu estivesse a trazê-la para o mundo, o tal processo que chamo de “tradução de emoções”. Ao mesmo tempo, também há vezes que adoro simplesmente fazer exercícios de escrita e brincar um bocadinho com a língua portuguesa ou o casamento com as melodias.

O que significa para ti transformar uma experiência tão pessoal numa canção que pode ser sentida por outros?
Acho muito bonito mesmo, as ligações que criamos com canções é algo muito especial. A música ganha uma dimensão incrível, passa a fazer parte de várias histórias e ganha uma vida própria.

O que gostarias que alguém levasse consigo depois de ouvir “5kg”?
Gostaria que ficassem bem dispostos e que a canção ajudasse de alguma forma a encontrarem leveza nos seus 5kg, nem que seja por um bocadinho! Que o facto de estarmos todos a navegar pressões e incertezas possa trazer alguma sensação de conforto e ao mesmo tempo empatia.

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