Angrajazz leva Gregory Porter à Terceira

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As primeiras décadas do século XX fixaram na Terceira estes ritmos que Miles Davis viria um dia a considerar o mote de revoluções. Na sua 17ª edição, o Angrajazz promete continuar a levar à ilha açoriana o que de melhor se faz no jazz actual. Gregory Porter, Lee Konitz, Ricardo Toscano e muitos outros desfilam pelo palco do já consagrado festival entre 1 e 3 de Outubro.

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Foi pela mão de americanos e ingleses que as ilhas açorianas conheceram o jazz. Muitas décadas depois, já o estilo fazia parte da terra, dos hábitos, das pessoas, surge o Angrajazz. Angra do Heroísmo, cidade que é património mundial, passa a acolher o acontecimento de jazz mais importante da Terceira.

«A programação do festival é feita, ano após ano, com a preocupação de divulgar o jazz nos Açores, apresentando projectos diferenciados e também diferentes tipos de formação», explica Miguel Cunha, da direcção do Angrajazz.

O resultado é um cartaz variado. Este ano, a abertura fica a cargo da Orquestra Angrajazz, que surge na linha desta resposta à necessidade cultural da ilha que também deu origem ao festival. «É muito motivador para os músicos que compõe a Orquestra, para os seus directores musicais e formadores (Claus Nymark e Pedro Moreira) e para a Associação Cultural Angrajazz ver reconhecido este projecto de formação, que teve início em 2002, e que já chegou a umas dezenas de músicos residentes na ilha Terceira», diz Miguel Cunha.

Em Agosto, a orquestra esteve em Lisboa num evento único quando se apresentou no Jardim do Arco do Cego, no âmbito do “Lisboa na Rua” (co-produção da EGEAC/Cultura em Lisboa e do Hot Clube de Portugal e integrado no ciclo “A Arte da Big Band – 5 Orquestras de Jazz”). O representante da organização descreve o concerto como «memorável», recordando uma assistência única, com cerca de 3000 pessoas. «Embora a orquestra já tivesse actuado em Lisboa noutras ocasiões, este foi certamente o concerto que mais visibilidade deu à mesma», acrescenta. A surpresa do público foi grande, diz Miguel Cunha, recordando aqueles que lhe perguntavam como é possível existir um grupo de tamanha qualidade, «no meio do Atlântico, sem qualquer escola de jazz».

A orquestra fez-se acompanha do saxofonista Ricardo Toscano, jovem promessa que o jazz nacional tem acompanhado com entusiasmo e atenção. É também ele que estará ao lado da Orquestra Angrajazz no dia 1 de Outubro, para abrir o festival.
Na mesma noite, sobe ao palco o René Urtreger Trio, o grupo do pianista francês que acompanhou durante a sua vida alguns dos nomes maiores: Miles Davis, Lester Young, Chet Baker, Buck Clayton.

O segundo dia é entregue ao baixista Jeff Denson, em modo trio (com Dan Zemelman ao piano e Jon Arkin na bateria), e ainda acompanhado pela lenda do saxofone alto Lee Konitz (com 87 anos!). Juntos em estúdio, gravaram em Julho passado aquela que deverá ser a base do concerto no Angrajazz. Segue-se o Sexteto de Jazz de Lisboa: Tomás Pimentel, Edgar Caramelo, Mário Laginha, Pedro Barreiros, Mário Barreiros e, a juntar-se aos históricos, Ricardo Toscano, que substitui Jorge Reis desde a sua morte.

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O encerramento do Angrajazz 2015 pertencerá à ensemble do pianista e compositor Tord Gustavsen e ao americano Gregory Porter. Conhecido do grande público, o cantor de “Hey Laura” vem do jazz mas conquistou um espaço notável na pop internacional (os irmãos Disclosure foram mesmo buscá-lo para as vozes de “Holding On”, single de 2015). Gregory Porter preenche os requisitos do Angrajazz (mostrar os melhores dos melhores) ao ter sido eleito Músico do Ano e Vocalista Masculino do Ano para os críticos da revista Downbeat, em 2014, e ainda Cantor Masculino do Ano para a Jazz Journalists Association. «Considerámos importante que ele marcasse presença, tal como já o fizeram outros dos melhores», explica Miguel Cunha.

Um festival no meio do Atlântico
Na verdade, já passaram pelo Angrajazz artistas como Herbie Hancock, Joe Lovano, Dave Holland, Benny Golson, Jim Hall, Charles Lloyd, Jason Moran, Kurt Elling, William Parker e Alexander Von Schlippenbach. Alguns dos maiores, descreve o responsável da organização.

A presença de alguns dos maiores nomes do jazz foi um dos trunfos para que o festival conseguisse criar e fidelizar um público. Para Miguel Cunha, esta «é uma das principais conquistas» do projecto, já o primeiro público do Angrajazz é o «dos Açores, em geral, e da ilha Terceira, em particular». Ao longo dos anos, começaram a chegar espectadores da Madeira e de Portugal Continental mas também estrangeiros – «não só de turistas que tomam conhecimento do festival já na ilha, como daqueles que se deslocam propositadamente para o evento», diz Miguel Cunha.

CARTAZ

Desenganem-se aqueles que pensam que este evento é só para conhecedores. O Angrajazz como um «festival assumidamente generalista». O seu objectivo é mostrar as várias correntes do jazz. Do «mais mainstream, ao mais vanguardista». Na sua 17ª edição, o festival é um marco entre os locais mas também entre os apreciadores do jazz. Os curiosos não ficam indiferentes. Aqui junta-se um público ecléctico a ouvir o que de melhor se faz no jazz português e internacional, num cenário único.

As riquezas naturais da Terceira são um factor de atracção para estes públicos. Afinal, é uma cidade património mundial, agraciada com paisagens únicas (das furnas às praias) e com uma gastronomia apetecível. A organização antevê que o festival possa tornar-se um projecto âncora do turismo cultural da região «desde que tenhamos sempre presente que, como em qualquer outro tipo de turismo, o turismo cultural só é benéfico e sustentável se a actividade cultural que lhe está na base for um reflexo dos interesses, gostos e preferências da população local», remata Miguel Cunha, com expectativas elevadas para o Angrajazz 2015.

Texto: Filipa Moreno

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