“An Evening With Machine Head” foi tudo e muito mais na noite que ninguém vai esquecer
Fotos: Luís Pissarro
Os Machine Head — veteranos do heavy metal norte-americano nascidos em 1991, em Oakland, Califórnia — continuam a impor respeito como uma das forças mais consistentes e explosivas do género a nível mundial. Três décadas depois, a banda liderada por Robb Flynn mantém intacta a sua identidade: agressividade, intensidade e uma ligação visceral ao palco.
Formados por Flynn após a sua passagem pelos Vio-lence, os Machine Head rapidamente deixaram marca na cena metal internacional. Mesmo com as inevitáveis mudanças de formação ao longo dos anos, a espinha dorsal criativa nunca vacilou: Flynn é o eixo em torno do qual tudo gira, garantindo uma assinatura sonora inconfundível. Musicalmente, o grupo construiu o seu império na interseção entre o thrash e o groove metal, mas nunca ficou preso a fórmulas. Ao longo da discografia, foram abrindo espaço a elementos modernos, atmosferas mais densas e abordagens mais emotivas. O resultado é um som que alterna entre o soco direto e a catarse emocional — sempre com riffs esmagadores e uma entrega vocal carregada de tensão. O impacto começou logo com Burn My Eyes (1994), hoje considerado um verdadeiro clássico dos anos 90 e peça fundamental na afirmação global da banda. Mais tarde, álbuns como The Blackening (2007), Unto the Locust (2011) e Of Kingdom and Crown (2022) consolidaram não só a sua relevância, como também a capacidade de reinvenção sem perder brutalidade.
Hoje, os Machine Head são frequentemente apontados como pilares da New Wave of American Heavy Metal, sustentando uma base de fãs fiel e uma reputação construída à base de suor, palcos incendiados e consistência rara no universo do metal. Foi precisamente essa reputação que ganhou forma no LAV – Lisboa ao Vivo, onde a banda entregou um concerto extenso, dinâmico e emocionalmente carregado. A abertura surpreendeu com “Bohemian Rhapsody” (Queen), um momento quase irónico de tensão antes da tempestade inevitável. A explosão chegou logo de seguida com “In Comes the Flood” e “Imperium”, estabelecendo o tom: pesado, urgente e implacável. “Ten Ton Hammer” trouxe o peso clássico, enquanto temas mais recentes como “CHØKE ØN THE ASHES ØF YØUR HATE” provaram que a veia criativa continua bem viva. O alinhamento navegou entre eras com natural fluidez — de “Now We Die” e “Crashing Around You” a “The Blood, the Sweat, the Tears” — equilibrando agressividade e melodia com precisão cirúrgica. Momentos mais introspectivos como “Is There Anybody Out There?” trouxeram respiração emocional sem quebrar a intensidade.
Na fase mais recente, “UNHALLØWED”, “This Is the End” e “SLAUGHTER THE MARTYR” mostraram uma banda em plena forma criativa, enquanto clássicos como “Old” e “Game Over” relembraram a força bruta do catálogo. Houve ainda espaço para contrastes inesperados: “Locust” e “ØUTSIDER” lado a lado com momentos mais delicados como as versões acústicas de “Circle the Drain” e “Darkness Within”, criando um raro equilíbrio entre fúria e contemplação. Na reta final, a energia voltou a subir em flecha com “Catharsis”, “Bulldozer” e “From This Day”, culminando num encerramento absolutamente explosivo com “Davidian” e “Halo” — dois hinos que transformaram a sala numa celebração coletiva do metal em estado puro.
No LAV, os Machine Head não só confirmaram o estatuto: reafirmaram-no com autoridade. Brutais, emotivos e implacavelmente eficazes, continuam a ser uma das poucas bandas capazes de unir peso, melodia e intensidade emocional num só murro sonoro.