Alex D’Alva: “Amo esta oportunidade de criar, partilhar e permitir que diferentes universos se cruzem”
Alex D’Alva apresenta “LIVRE”, o single de arranque do seu EP homónimo, com edição prevista para 4 de fevereiro de 2026, marcando o regresso do artista aos lançamentos em nome próprio. Depois de uma década de trabalho com a banda D’Alva, este novo percurso a solo revela um projeto que transpira liberdade, comunidade e experimentação artística. Combinando eletrónica, pop e música de dança, o EP reflete experiências pessoais intensas, imersão na cena underground de Lisboa e colaborações com artistas de performance e dança que ampliaram a sua visão sobre corpo, movimento e narrativa.
Por Sandra Pinto
Mais do que um registo musical, “LIVRE” é um convite à conexão — entre pessoas, universos criativos e emoções. Ao longo desta entrevista, Alex D’Alva partilha o processo de criação do EP, a importância de parcerias com artistas como Rita Onofre, Orlanda Vasconcelos Guilande e Lola Maria, e a forma como a música se torna espaço de expressão, introspeção e liberdade. Um projeto que desafia a lógica do individualismo e celebra o encontro, a colaboração e a poesia do corpo em movimento.
Alex, LIVRE parte da ideia de que a música não é sobre competir, mas sim sobre conectar universos. Como surgiu essa filosofia e de que forma se reflete na canção?
Sinto que vivemos um tempo em que tudo nos empurra para um certo individualismo, onde até as dimensões mais pessoais acabam muitas vezes transformadas numa espécie de marca pessoal ou identidade social a ser exibida. Essa lógica competitiva, para mim, não traduz a verdadeira essência da criação artística. O que me move é a ideia de comunidade, de encontro, de colaboração como impulso para o nosso crescimento, tanto pessoal como coletivo.
“LIVRE” tornou-me mais consciente desse desejo de aproximar pessoas e de reforçar a música como lugar de ligação. O processo deste EP, está a tornar essa visão ainda mais clara, porque está a revelar-se um percurso profundamente colaborativo, algo que contrasta com a expectativa habitual em torno de um trabalho em nome próprio. Amo esta oportunidade de criar, partilhar e permitir que diferentes universos se cruzem.
O teu EP homónimo reúne sete temas inéditos que misturam eletrónica, dança e pop. Que experiências pessoais e de performance influenciaram este novo trabalho?
Este EP reúne muitas das vivências que marcaram os últimos anos da minha vida, especialmente o contacto mais próximo com a cena de clubbing underground de Lisboa. Passei a frequentá-la não só como DJ, mas também como ouvinte atento, alguém que observa e absorve aquilo que a música de dança tem de mais transformador. Eventos como a Digital Destiny ou a Dengo Club, e espaços como o Planeta Manas, tiveram um papel essencial na construção deste trabalho, porque mostraram-me novas perspectivas sobre ritmo, comunidade e intensidade.
Ao mesmo tempo, colaborar com o Teatro Praga e integrar projetos de performance art ligados ao trabalho da artista Grada Kilomba permitiu-me aprender muito com performers que usam o corpo e a voz como extensão da sua expressão artística. Essas experiências ampliaram o meu olhar sobre presença, movimento e narrativa, e acabaram por influenciar profundamente a forma como estou a construir o EP.
No videoclipe de LIVRE trabalhas com a performer Lola Maria. Como foi o processo de colaboração e de que forma a dança dela contribuiu para transmitir a mensagem da música?
Acompanho o percurso da Lola Maria há vários anos e sempre me impressionou a forma como ela transforma movimento em narrativa. Quando trabalhámos juntos numa campanha da Levi’s, em 2021, pude observar de perto a sua carismática expressividade, e a naturalidade com que ocupa o espaço. Ver a profundidade do seu gesto e a forma como a sua energia diante da câmara é simultaneamente intuitiva e rigorosa foi uma experiência que ficou comigo.
Ao mesmo tempo, o contacto com metodologias de performance ligados ao trabalho da Grada Kilomba fez-me aprofundar a compreensão de que cada corpo transporta uma história e que essa história se revela quando alguém se entrega ao movimento com verdade. A Lola é um exemplo muito claro disso. Para além da força que tem em cena, há nela uma humanidade muito luminosa no quotidiano, algo que sempre me inspirou.
A ideia que orientou o videoclipe nasceu antes mesmo da música estar concluída. Já imaginava uma peça visual que se aproximasse de uma micro-curta metragem, centrada na intimidade da Lola no seu próprio espaço, iluminada pela luz muito particular de Lisboa. O mais importante era que ela não estivesse a atuar para um público, nem a corresponder a uma expectativa de entretenimento. Interessava-me a imagem da Lola dançar para si, por puro prazer, a habitar o próprio corpo com liberdade.
Quando convidei a Rita Onofre para colaborar na escrita dos versos, procurámos palavras que estivessem à altura desse gesto íntimo.. Queríamos celebrar a Lola como artista, mas também essa capacidade rara que ela tem de, ao dançar para si, fazer-nos sentir que há espaço para todos respirarmos um pouco mais fundo.
A letra foi escrita em parceria com Rita Onofre e conta com a participação vocal de Orlanda Vasconcelos Guilande. Como foi integrar estas vozes e perspetivas na tua obra?
Acompanho o trabalho da Rita Onofre desde os tempos em que juntamente com Miguel Laureano (hoje conhecido como Choro) formavam os Sease, e desde então tenho nutrido uma grande admiração pelo seu percurso. Tenho tido a sorte de escrever com ela em diferentes momentos e há algo na sua sensibilidade que me dá sempre uma sensação de segurança criativa. A Rita tem essa habilidade de acolher vulnerabilidades e de olhar para o processo de escrita de forma ampla, generosa e intuitiva. Quando tinha apenas o refrão, quase como um mantra inicial, soube de imediato que era com ela que queria descobrir o resto da canção. Curiosamente, a sessão em estúdio foi muito mais sobre conversa e partilha de referências do que sobre escrever em si, e por isso quis manter a sua voz na faixa como uma espécie de memória sensorial desse encontro.
Em relação à Orlanda Vasconcelos Guilande, tive o privilégio de trabalhar com ela na performance “O Barco/The Boat”, da Grada Kilomba, onde o seu talento vocal era simplesmente arrebatador. A Orlanda tem uma amplitude vocal que transforma o espaço; há nela uma força espiritual e emocional que ressoa de forma muito poderosa e profunda. Como este EP dialoga com influências que vão desde a música eletrónica à herança gospel, senti que a sua voz seria essencial, sobretudo no desfecho da canção, onde ela assume um papel de solista. A sua interpretação confere ao tema uma dimensão que eu não conseguiria imaginar de outra forma.
A capa do EP apresenta uma imagem de Paulo Pascoal, evocando a fusão entre corpo, pensamento e liberdade. Qual é a importância desta simbologia para o conceito do EP?
O pilar central deste EP é a música de dança, e para mim a música de dança é inseparável da ideia de que o corpo também pensa. Ela abre espaço para que o movimento seja uma forma de raciocínio, de expressão e de liberdade. Lembro-me de vários espetáculos de bailado que vi recentemente, mas há uma imagem que nunca esqueci: no espetáculo “Meio no Meio” de Vítor Hugo Pontes, uma intérprete sénior observa a destreza e fluidez dos movimentos de uma bailarina mais jovem e comenta que, dentro de si, sente a mesma capacidade de os executar, mesmo que todo o auditório saiba que o corpo já não responde da mesma forma. Essa cena tornou-se para mim um símbolo poderoso do modo como o corpo guarda desejo, memória e pensamento, independentemente dos seus limites físicos.
A partir dessa reflexão, reconheci duas forças que alimentam este projeto. A primeira é o fascínio pelo gesto e pela narrativa que o corpo transporta no bailado. A segunda é a lógica da performance art dentro do Kilombismo, onde a história, a identidade e a presença de cada intérprete são fundamentais. A estas dimensões junta-se também uma certa saturação que sinto em relação à ideia de que a imagem promocional de um disco de matriz Pop deve centrar-se exclusivamente no artista. Este EP deu-me a oportunidade de inverter essa lógica e de valorizar artistas cujo corpo é o seu principal instrumento de criação. São artistas cujas trajetórias, sensibilidade e talento não só influenciam profundamente esta criação, como têm impacto real no meu quotidiano.
É neste ponto que Paulo Pascoal se torna a figura ideal para representar LIVRE. A sua presença artística, a sua inteligência corporal e a sua capacidade de transitar entre várias linguagens tornam-no uma síntese perfeita do espírito deste projeto. Ao longo dos anos, aprendi muito com as conversas que tivemos sobre arte, identidade, pertença e liberdade. É um artista multidisciplinar e multidimensional, e é uma verdadeira honra ter alguém com essa amplitude a dar corpo a este artwork.
Esta simbologia estende-se também ao teledisco, onde a protagonista não dança para entreter, nem interpreta um papel para o olhar externo. Ela dança para si própria, habitando o seu corpo com autonomia como acto de fruição. É nesse gesto íntimo, sincero e livre que se encontra a essência de LIVRE.
Depois de uma década de trabalho artístico com a banda D’Alva, este EP marca um percurso individual. Que desafios e descobertas surgiram neste processo de redescoberta identitária?
Enquanto desenvolvo este EP em nome próprio, os D’Alva encontram-se paralelamente em estúdio a criar um novo trabalho que habita um território sonoro diametralmente distante deste meu percurso a solo. Acredito que o resultado irá surpreender quem acompanha a banda, precisamente por se afastar de algumas das referências do nosso último álbum.
No plano individual, o maior desafio foi explorar a produção musical. Foi preciso transformar ideias que existiam apenas no campo da imaginação em algo concreto e tecnicamente sólido. Neste primeiro single, cheguei a prever produção adicional do Choro, com quem estou a colaborar noutras faixas do EP. Porém, ao ouvir o arranjo final, ele considerou que a composição já tinha encontrado a sua forma natural e avançou diretamente para mistura e masterização. Essa confiança, vinda de alguém tão experiente, foi simultaneamente uma validação e um novo impulso de responsabilidade.
Agora que tenho apresentações ao vivo marcadas, admito que sinto algum nervosismo. Em palco, sempre tive o apoio dos meus colegas de banda, cuja presença me oferecia estabilidade e uma sensação de casa. O espetáculo “Fazer Uma Canção”, do Teatro Praga, tem sido um espaço importante de experimentação para um formato mais solitário, mas mesmo depois de tantos palcos sinto-me aprendiz. As primeiras apresentações de LIVRE vão ser um território novo, onde terei de descobrir quem sou enquanto intérprete a solo e como este novo universo se manifesta ao vivo.
Em termos de sonoridade e narrativa, que mensagem esperas que o público leve consigo ao ouvir LIVRE e o restante EP?
Um dos motivos que me levou a escolher o nome LIRE para este EP é na realidade muito simples: desejo que cada pessoa o possa receber com total liberdade.
Quero que possam interpretá-lo sem amarras, apropriar-se dele da forma que fizer mais sentido às suas vidas e deixá-lo ressoar onde tiver de ressoar.
Vivemos um tempo em que o futuro da música e das artes é difícil de prever, e percebo cada vez mais que nada do que criamos deve ser tomado como garantido. A criatividade, a experimentação e a própria possibilidade de expressar quem somos são bens preciosos. Por isso, neste trabalho, quis celebrar exatamente essas dimensões.
O que me move a fazer música é a vontade de materializar o que nasce na imaginação: transformar sons interiores em algo audível, dar linguagem às emoções e construir pequenas paisagens sonoras que eu próprio gostaria de encontrar no meu dia a dia. Mas, para além disso, existe algo que sinto de forma muito forte: este EP é também uma oferenda. Uma dádiva humilde, mas sincera, para quem o quiser acolher.
Se por acaso estivermos num momento em que seja urgente reafirmar, com toda a força, que continuamos livres, este trabalho é o meu modesto contributo. É a minha maneira de dizer que ainda vale a pena criar, partilhar e acreditar no poder transformador da arte.
Fotografia promocional Alex D’Alva por Kat V