“Acreditamos a 100% que o riso é um superpoder do ser humano para poder ultrapassar as adversidades da vida”
A noite é o ponto de partida dos Mono Clones. É nela que aparecem os encontros, os excessos, as relações que começam e acabam antes do amanhecer e as decisões que, à luz do dia, talvez parecessem menos razoáveis. A banda chama à sua música “Late Night Rock” e transforma esse universo em canções onde o sarcasmo anda lado a lado com a vulnerabilidade. Com Damn the Day, Seize the Night, o primeiro álbum, os Mono Clones juntam temas que foram sendo lançados como singles desde 2022 e dão-lhes uma nova leitura em conjunto. Pelo caminho, falam de noites mal dormidas, álcool, amor, tecnologia, Inteligência Artificial, concertos e da vontade de recuperar uma forma mais directa de estar com os outros.
Por Sandra Pinto
Nesta conversa com a LOOK mag, falamos sobre a origem do álbum, o processo de composição, as histórias por detrás das canções e aquilo que acontece quando a noite acaba e começa o dia.
“Damn the Day, Seize the Night” é o vosso primeiro álbum. Em que momento perceberam que as histórias e experiências da noite tinham material suficiente para construir um disco inteiro?
Este álbum foi sendo construído de maneira old school… foram saindo singles nas plataformas digitais desde 2022, curiosamente todos sobre a noite e as suas narrativas, encontros, desencontros… quando começamos a enviar os singles para as rádios e começamos a ter bastante aceitação nas playlists achámos boa ideia escrever mais uns quantos temas, juntar com os singles antigos e lançar este álbum, um pouco como dantes se fazia, quando os álbuns eram no fundo uma compilação de singles.
Chamam à vossa música “Late Night Rock”. Se tivessem de explicar este conceito a alguém que nunca ouviu Mono Clones, o que é que acontece na vossa música depois da meia-noite?
Todos os temas falam de historias que se nascem no crepúsculo e morrem na alvorada, e que em termos musicais se prestam a ser ouvidos em longas viagens de carro noturnas…no fundo imaginamos sempre os nossos temas a ser apresentados pelo António Sérgio, naqueles programas de radio pela noite dentro. É curioso que tenha sido a sua ultima morada como radialista que mais tem apostado em nós! Fica aqui o nosso agradecimento à Radar por isso!
O título do álbum transforma o “carpe diem” em “Carpe Noctem”. O que é que a noite vos permite dizer, fazer ou sentir que o dia parece esconder?
Carpe Noctem seria um título perfeito, que nós quisemos dizer de uma forma um pouco mais subversiva – Damn the day, seize the night! A noite é para a maioria das pessoas o espaço temporal para a diversão, porque a maioria de nós trabalha de dia, então a noite acaba por trazer consigo a folia, o excesso, o escape, o prazer, o amor, e depois vem o dia, e como diria o poeta destrói a noite, leva-nos de volta à monotonia da rotina, até ser noite de novo.
O disco fala de paixão, álcool, insegurança, relações falhadas, sarcasmo e decisões questionáveis. Quanto existe de experiência pessoal nas histórias que contam?
Muito pouco em termos absolutos, mas há sempre uma interpretação pessoal e uma curadoria nas histórias que escolhemos contar e na maneira como o fazemos que deriva da nossa experiência pessoal. Não é por acaso que as personagens das nossas canções nunca são machistas, misóginos, nunca se levam muito a sério, são sarcásticos consigo próprios antes de serem com os outros, porque no fundo é isso que nós somos, estamos permanentemente a escarnecer uns dos outros, adoramos picar-nos, mas sempre num espirito “bon enfant”, letras sem sarcasmo são para nós insossas, porque é isso que nós somos na vida real.
O álbum é descrito como “um grito, uma confissão”. Qual foi a parte mais difícil de transformar em canção?
Um grito metafórico, a querer relembrar às pessoas como eram – e no nosso entender deveriam voltar a ser – os tempos em que as pessoas saíam, conviviam, se conheciam sem ser por interposto ecrã, por interposta aplicação ou site internet. A canção que fala sobre isso mais diretamente é “Analog Freak”, mas ao confessar a nossa adoração pela noite e as suas histórias na integralidade do álbum acabamos por fazer esse grito de apelo implicitamente em todas as outras canções.
A banda foi formada com amigos de longa data e a partir daí os temas ganharam uma nova interpretação, com a contribuição de todos os outros Clones.
Bruno Le Roc assina todas as músicas e letras. Como funciona depois o processo de transformar essas histórias individuais numa identidade coletiva dos Mono Clones?
O nome da banda vem do período inicial, em que o Bruno escrevia e gravava todos os temas sozinho (fase que começou durante a pandemia), tocando todos os instrumentos, produzindo, misturando, masterizando, no fundo sendo mono mas tendo que clonar-se para realizar todas essas funções. A banda foi formada com amigos de longa data e a partir daí os temas ganharam uma nova interpretação, com a contribuição de todos os outros Clones. Muito do que tocamos ao vivo é diferente das versões gravadas, porque nos ensaios o processo de abordar cada tema é profundamente democrático e sem dogmas, tudo é passível de ser re-imaginado!
Existe uma tensão interessante entre humor e vulnerabilidade nas vossas canções. É mais fácil falar de coisas dolorosas quando conseguimos primeiro rir delas?
Sem dúvida! Acreditamos a cem por cento que o riso é um super-poder do ser humano para poder ultrapassar as adversidades da vida. Muitos dos outros animais não sofrem tanto por não serem conscientes da sua finitude, nem dos seus fracassos, por isso o riso não lhes faz falta nem sentido, mas a nós faz! E a vulnerabilidade também é muito subestimada, sobretudo pela parte masculina da humanidade. Musicalmente poucos tratam isso de forma tão deliciosamente sarcástica como os The Cure, no “Boys don’t cry”. Os nossos heróis são vulneráveis e são os primeiros a rir deles próprios, ganhando com isso o direito ao sarcasmo.
“Like I do” parte de uma relação onde duas pessoas parecem procurar coisas completamente diferentes. O que vos interessava explorar nessa oposição entre química emocional e expectativas materiais?
No fundo é uma maneira divertida de dizer que o materialismo nunca consegue alcançar os calcanhares de uma verdadeira conexão emocional, expondo uma história em que a pessoa materialista não consegue, por mais bens materiais que colecione, alcançar a felicidade
simples do amor que deixou para trás. Champanhe, jatos privados e limusines aparecem em “Like I do” quase como caricatura de uma determinada ideia de sucesso. Quanto há de crítica social por detrás da ironia da música? No fundo mais não somos do que uns “La Fontaines” do rock.
Os nossos heróis são vulneráveis e são os primeiros a rir deles próprios, ganhando com isso o direito ao sarcasmo.
“Analog Freak” parece particularmente importante para perceber a vossa visão do presente, sobretudo quando defendem relações presenciais e contacto sem intermediação. O que vos incomoda na forma como nos relacionamos atualmente?
Totalmente! Esse tema, como dissemos anteriormente, é o que mais espelha esse nosso desconforto, o que nos incomoda é ver que muitas pessoas preferem consumir coisas que são exponencialmente mais intensas presencialmente pela via tecnológica. Falando especificamente da música, nada consegue substituir os decibéis de um concerto, a interação física e sonora com os membros do público ao nosso lado. Sair para ir a um concerto é infinitamente mais intenso do que ouvir os temas no Spotify, ou assistir ao concerto no Youtube. Bandas que não são exatamente a nossa praia em estilo musical podem fazer-nos passar um grande momento ao vivo, porque lá está, a presença, os decibéis, o público a cantar os temas, etc, tornam tudo mais intenso!
No álbum existe também uma crítica muito direta à Inteligência Artificial e à ideia de música como simples som de fundo. O que significa para vocês defender a imperfeição num momento em que a tecnologia consegue produzir música cada vez mais facilmente?
Se deixarmos a Inteligência Artificial criar toda a musica ela vai acabar por ser toda uma espécie de “passe-partout”, desenhada para agradar ao máximo número de pessoas, e com esse objectivo a IA vai compilar uma série de fórmulas de sucesso testadas em todos os temas de maior sucesso num determinado momento para obter o maior impacto possível. Tudo o que sai do Suno e afins mais não é do que isso, uma espécie de best pratices do momento, esperar do Suno boa música é como esperar grandes especialidades culinárias da Bimby!
“Nothing Good Happens After Drunk A.M.” entra naquele território universal das decisões tomadas de madrugada que parecem fazer sentido naquele momento. Qual é a história por detrás desta música?
Quem nunca esteve numa festa em casa de um ou uma ex com a secreta esperança que ficando para último na hora de partir consegue reatar a relação? É essa a trama desta história, o problema é que esse barco já deixou o porto e quanto mais tarde fica, e quanto mais se bebe, mais essa esperança se torna desespero, e aí surgem as tais decisões questionáveis!
Há canções como “Not of This World” e “How Low Is Too Low?” que abandonam um pouco o sarcasmo e entram num território mais introspectivo. Sentem necessidade de equilibrar a diversão da noite com aquilo que ela também pode revelar sobre nós?
“Not of this world” é uma falsa canção mais séria ou por outras palavras, o sarcasmos está ainda mais refinado. Ou então está tão obvio que nem parece sarcasmo (risos). Pretende quase ser um manual de frases de engate tão lamechas que ninguém deveria nunca utilizar, mas que após a existência deste tema pode dizer meio a brincar escudando-se num simples “já diz a canção”.
“How Low is Too Low” é de facto a mais sombria, e também a mais introspectiva de todas as canções do álbum, e talvez a única que vem efectivamente de factos reais. Às vezes o espelho consegue ser o nosso juiz mais impiedoso quando não estamos bem connosco próprios ninguém sabe no fundo quão fundo é o poço.
Musicalmente, citam Arctic Monkeys, The Strokes, The Doors e The Last Shadow Puppets. O que procuram retirar dessas referências sem cair numa simples reprodução do som de outras bandas?
The Doors é a primeira grande paixão musical do Bruno, e isso marca toda a sua escrita. Dá para perceber que as letras são muito importantes para nós, e isso talvez venha dessa primeira influência. O Alex Turner tem esse cuidado em tudo o que escreve, nota-se que nenhuma letra é ao acaso, seja em que projeto for em que ele participe. Os Strokes também, aquelas letras parecem muito négligés, mas são uma forma genial de descrever coisas mundanas. Acho que as influências são mais nesse sentido, porque musicalmente acho que não estamos tão perto de nenhum deles. Gostamos de usar progressões harmónicas que são em grande parte influenciadas pelo facto de o Bruno tocar com uma afinação de guitarra não convencional, que faz com que alguns acordes típicos da afinação comum sejam mais difíceis de fazer e outros menos comuns sejam mais fáceis. Ele toca em D-A-D-F-A-D, para os guitarristas mais curiosos…
As guitarras com reverb e a alternância entre momentos mais lentos e outros mais acelerados ajudam a criar uma sensação quase cinematográfica. Quando compõem, pensam primeiro na história, na atmosfera ou na música?
Primeiro pensamos num titulo que seja quase um slogan e que espelhe a mensagem da canção, depois escrevemos uma história que justifique esse título. Por exemplo, “Nothing good happens after drunk a.m.” começou por aí mesmo, um título, esse poderia ser o título de varias histórias: alguém que conduz e é apanhado com álcool, uma briga de bêbedos na rua da Oura. Optámos pela tal história que já explicámos, da reconquista de um ou uma ex que só o álcool torna concebível, só que não! O facto que termos esse som cinematográfico tem a ver com o facto de haver esse lado story-teller no nosso universo. E nada como o toque retro do reverb para dar esse toque tipo Dead Combo!
Primeiro pensamos num titulo que seja quase um slogan e que espelhe a mensagem da canção, depois escrevemos uma história que justifique esse título.
O que muda quando estas canções passam do disco para o palco? A noite que existe nas gravações é a mesma que encontramos num concerto dos Mono Clones?
Muda muita coisa, porque nos ensaios os temas são re-imaginados sem tabus. O “Not of This World” ao vivo começa com a guitarra do David a solo, porque no primeiro ensaio desse tema ele estava a confirmar se eram aqueles os acordes e nós achámos que ficam melhor assim do que a versão gravada. Muitos dos finais têm reprises do tema que não existem na gravação, ou acordes malucos que também não existem. A noite está sempre lá, porque os temas têm essa temática.
Tiveram já oportunidade de tocar fora de Portugal e preparam uma atuação em Manchester. O que têm descoberto sobre a forma como a música da banda é recebida por públicos diferentes?
No Spotify for Artists temos estatísticas que mostram que nos dez países onde temos mais ouvintes mensais estão os Estados Unidos, Reino Unido, Canada e Austrália, quatro dos maiores países anglófonos. Isso é uma espécie de validação que nos deixa muito orgulhosos, porque as letras são em inglês e serem apreciadas por nativos é muito saboroso. O Bruno costumava tocar a solo os temas em mini concertos na Inglaterra e na Bélgica – foi daí que surgiram os convites para voltar como banda – e muitas vezes em Inglaterra vinham ter com ele a elogiar a qualidade das letras. A Bélgica foi a nossa estreia internacional, num festival em que acabámos a convidar dois membros da organização,
também eles grandes músicos, a virem a palco connosco numa espécie de jam apoteótica, um a tocar guitarra e outro harmónica num tema nosso mais bluesy (The Devil on my Tail) e no Roadhouse Blues, dos The Doors!
Depois deste primeiro longa-duração, o que gostariam que alguém dissesse sobre os Mono Clones depois de vos ouvir ao vivo ou terminar o álbum?
Que por nossa causa passaram a saída da autoestrada, por estarem a cantar enquanto guiavam ou que as nossas músicas davam uma boa banda sonora de um filme do Tarantino (risos). Ou depois de um concerto que curtiram muito as letras e cantaram os refrões a plenos pulmões (na tal ótica dos refrões barra slogan que são fáceis de memorizar…).
Se “Damn the Day, Seize the Night” é o retrato das horas entre a meia-noite e o amanhecer, o que acontece aos Mono Clones quando nasce o dia?
O mesmo que à nossa “Vampire Lover”: de manhã viramos pó e somos varridos para as nossas profissões de nerds (risos).