Aborted no RCA Club: intensa cirurgia sónica de death metal

Lisboa recebeu a força destrutiva doa Aborted, um dos nomes mais respeitados do death metal europeu. Com mais de duas décadas de carnificina sonora, o grupo liderado por Sven de Caluwé trouxe ao público português um espetáculo visceral e tecnicamente impressionante, confirmando por que continua a ser uma referência mundial no género.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

O concerto trouxe ao RCA Club um público diverso, composto por veteranos e jovens headbangers, que juntos se mostraram imparáveis. Afiada como uma lâmina cirúrgica, o concerto constituiu uma verdadeira torrente de blast beats milimétricos, riffs cortantes e guturais monstruosos. Da parte do público a resposta não poderia ter sido melhor: com mosh pits intensos e constantes headbangs, especialmente nos momentos mais técnicos e brutais.

Sven de Caluwé é um mestre de cerimónias brutal (entrevista aqui). Carismático à sua maneira sombria, conduziu o espetáculo com precisão e energia. A banda, demonstrou entrosamento perfeito, mantendo o equilíbrio entre brutalidade e complexidade técnica — uma marca da identidade do Aborted. Se alguma vez houve alguma dúvida de que Sven é uma lenda na cena do metal extremo, este concerto arrasou. A sua presença de palco imponente e vocais monstruosos levaram a plateia ao frenesi, provando mais uma vez por que os Aborted continuam a ser uma das forças mais consistentes da cena.

O público lisboeta correspondeu com entusiasmo, criando um ambiente de comunhão extrema. Não faltaram circle pits, gritos de guerra e gestos de reverência entre músicas. Muitos saíram visivelmente impactados, com a sensação de terem presenciado algo catártico e memorável. O concerto dos Aborted em Lisboa foi uma verdadeira celebração do death metal moderno. Implacáveis, técnicos e intensos, os belgas provaram mais uma vez por que continuam no topo do género, mantendo-se relevantes sem perder identidade. Para quem esteve presente, foi mais do que um concerto: foi um ritual sonoro de devastação meticulosa.

As Crypta apresentaram-se com a formação atual composta por Fernanda Lira (baixo e vocal), Luana Dametto (bateria) e Tainá Bergamaschi (guitarra rítmica). A banda trouxe na bagagem o aclamado álbum “Shades of Sorrow”, lançado em agosto de 2023, que consolidou sua posição na cena death metal mundial. Durante a atuação das brasileiras,  Fernanda Lira interagiu intensamente com o público, criando uma atmosfera de conexão e energia, ao mesmo tempo que comandava o palco com seus guturais e linhas de baixo estrondosas.

O quarteto californiano The Zenith Passage provou ser uma força intrigante no tech death metal moderno. Músicas complexas que ao vivo mostram uma transição entre a ferocidade rumo a uma passagem grooveada e alguns leads de guitarra melódicos. Os temas do norte-americanos funcionam muito bem ao vivo, destacando-se numa paleta em perfeito crescimento ao longo do concerto. Ao misturar passagens agressivas com jornadas elevadas, influenciadas pelo rock progressivo, a música dos The Zenith Passage revelou-se deveras cativante.

Organectomy é uma banda neozelandesa de slam com uma afinidade avassaladora por tudo que é brutal. Desde a sua formação em 2010, o coletivo de músicos entrega continuamente riffs grooveados, vocais impressionantes e blast beats. Após um breve momento para limpar a garganta, somos imediatamente atingidos por um tsunami devastador de som esmagador. É uma experiência poderosa e sobrenatural, como se o próprio cosmos estivesse sendo esmagado dentro dos nossos ouvidos. Organectomy prospera onde muitas falharam, sendo que cada tema que integrou o alinhamento ostenta um arsenal insano de armas do metal extremo.

Aborted

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 Crypta

The Zenith Passage

Organectomy

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