A negritude dos Process of Guilt encheu a noite onde tiveram a companhia dos Wells Valley e dos Murro

Numa noite fria de novembro, o RCA Club abriu as portas a um concerto intenso onde as três bandas que integravam o cartaz levaram a plateia (cada qual com o seu som) até hemisférios distintos onde a negritude se passeia como rainha dos seres.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

O concerto triplo teve inicio com os Murro. Texturas musicais complexas, eletrizantes e impactantes são acompanhadas da voz de Hugo Cão. Grave, insatisfeita e contestatária, é ela o meio de transporte certo para que chegue até nós a mensagem das letras, quase sempre criticas da sociedade onde vivemos. Os Murro mostram que, com a voz, a guitarra e a bateria, é possível exorcizar demónios, medos, traumas e injustiças, botando para fora as entranhas do que mais nos atormenta. De punho e dentes cerrados, os Murro conseguem captar a atenção da plateia, fazendo com que cada um dos que a integram leve um murro em cheio que os obrigue a pensar que talvez seja preciso quebrar amarras rumo àquilo que desejamos ser em detrimento daquilo que esperam que sejamos. Belo Murro na mesa!

Wells Valley surgem da mais negra das noites onde a bruma esconde as suas caras apresentando apenas a silhueta dos seus corpos. O terceiro álbum do trio, «Achamoth», teve edição da Lavadome Productions, e dele foram retirados dois temas para esta apresentação ao vivo. André Hencleeday, no baixo, Filipe Correia, na guitarra e voz, e Pedro Mau, na bateria, são os magos deste trio e vanguarda/pós-metal nascido em Lisboa em 2011. Praticantes de um som onde a escuridão, irremediavelmente sombria e constantemente arpejada, impera, o angustiante movimento musical da banda fala para nós que ali estamos em frente a ela com uma voz sobrenatural, atormentada e abismal. As várias camadas podres da guitarra zumbem e assobiam assediando os nossos ouvidos, enquanto que o som claro e sempre cuidadosamente definido do baixo reflete uma sincronização cuidadosamente elaborada para que exista (de alguma forma) uma união. Toda a atmosfera do concerto impacta quem marca presença na sala de concertos lisboeta, sendo que tal muito contribui o preciso som da bateria e os ofegantes vocais. Uma experiência total que ficámos com vontade de repetir.

Seja onde for, um concerto dos Process of Guilt tem o selo de garantia associado, e neste regresso a Lisboa tal não foi diferente. Apesar de já ter sido lançado há um ano, a verdade é que «Slaves Beneath The Sun» mantém a “frescura” dos primeiros dias. Cientes disso mesmo, os músicos puxam, e bem, pelos temas fazendo-os vibrar como se os tocassem pela primeira vez. Vindos de Évora mas sediados na capital portuguesa, os Process of Guilt vivem de uma tríade de ideias: intensidade, entrega e peso. A conjugação de cada uma destas divindades nas quantidades certas aporta para que cada apresentação ao vivo seja algo único. Ao longos dos anos em que os acompanhamos (desde uma memorável primeira edição do já desaparecido e saudoso Reverence Valada) que temos tido o privilégio de perceber o quanto têm vindo a crescer, não só ao nível do som dos temas mas também na apresentação dos respetivos ao vivo. Há hoje uma maturidade nos Process of Guilt que faz deles uma das melhores bandas do underground nacional.

Murro

Wells Valley

Process of Guilt

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