“A música tornou-se a minha forma de pensar direito”, Mio
Entre metáforas de voo, memórias familiares e a procura por uma identidade própria, Mio apresenta o seu novo projeto como um verdadeiro ponto de viragem no percurso criativo. O EP “não há ninho, há céu” nasce de um processo íntimo e reflexivo, onde a ideia de sair da zona de conforto se cruza com a necessidade de honrar o passado e construir um caminho autónomo.
Por Sandra Pinto
Com o single de estreia “26º dia”, Mio traduz em música esse momento de transição — um salto simbólico que marca não só o início de uma nova fase artística, mas também uma afirmação pessoal. Nesta entrevista, a artista fala sobre as influências, os desafios e as histórias que moldaram este trabalho, revelando um projeto onde emoção, conceito e identidade caminham lado a lado.
“26º dia” surge associado à metáfora do ciclo de vida das andorinhas. Como nasceu essa imagem e de que forma ela estrutura todo o conceito do EP?
Fui-me apaixonando pelas andorinhas, não só pela carga emocional e o peso da tradição que trazem, mas também pelo sentimento de liberdade e por todos os simbolismos que elas transmitem. As andorinhas representam, a ideia de ir, mas ter sempre o mesmo lugar para onde voltar. A partir daí, a narrativa do EP foi crescendo e foi-se moldando à volta do conceito de sair do ninho e as andorinhas tornaram-se na melhor metáfora para o fazer.
O 26.º dia representa o momento em que as crias saem do ninho pela primeira vez. Em que medida essa ideia reflete o momento atual da tua vida e carreira?
“26º dia” é o meu single de lançamento, exatamente por ser o momento em que eu dou o salto e deixo o lugar considerado como mais seguro e mais à medida do que os outros queriam para mim e vou atrás do futuro que me faz sentido e daí sim, ser então o meu momento de salto.
Escolheste lançar a música na semana em que começa a primavera. Que significado simbólico tem essa ligação entre a estação e a canção?
Quando comecei a fechar o conceito do EP, ficou cada vez mais óbvio que a arte tinha de ser entregue como um todo e não apenas sobre a forma de canções. Todo este conceito de lançar no início da primavera o primeiro single e o EP sair no início da primavera do hemisfério sul, fez sentido para o conceito do EP, sendo que as andorinhas normalmente começam a aparecer na primavera e acaba por ser a altura em que as coisas começam a florescer e a brotar depois de algum tempo a desenvolverem-se sem estar à vista.
O EP será editado na primavera do hemisfério sul, prolongando esse ciclo noutra parte do mundo. Foi uma decisão pensada desde o início?
As datas do lançamento surgiram relativamente tarde no processo. O EP começou a ser criado há cerca de dois anos e meio e as datas acabaram por surgir naturalmente quando já existia um conceito montado. Não foi algo que tivesse pensado logo desde o início, mas quando surgiram, surgiram em conjunto. Primeiro a data do início da primavera em Portugal e depois fez sentido que o resto da obra saísse então no início de uma segunda primavera (hemisfério sul).
O título “não há ninho, há céu” sugere liberdade, mas também risco. O que queres transmitir com esta ideia?
O título pretende exatamente transmitir essa ideia de sair da zona de conforto para dar o salto e sair para o mundo, para o desconforto.
O título surgiu numa conversa com o meu namorado. Há um sítio perto da nossa casa, que para mim é o sítio das andorinhas, onde eu escrevi a introdução do EP e onde sinto muita leveza. Quando eu lhe estava a mostrar o sítio das andorinhas, ele perguntou-me onde é que era o ninho e eu respondi “não há ninho, há céu” e aí pensei ok.. se calhar vai ser este o nome do EP.
Sentes que este EP marca o verdadeiro início do teu percurso autoral?
Sim, este EP marca claramente o início do meu percurso autoral depois de um regresso e uma maturidade diferente da que tinha quando escrevi as minhas primeiras canções.
Comecei a escrever desde cedo e escrevi a minha primeira canção aos 16 anos. Entretanto a vida foi acontecendo, houve muitas experiências e muito trabalho pelo meio e fui-me encontrando novamente. Atualmente faz-me muito sentido lançar projetos com um conceito e é a minha forma preferida de criar. Toda esta descoberta aconteceu neste processo e com este EP.
Que emoções ou estados de espírito atravessam o disco como um todo?
O disco traz um sentimento de superação e de muito respeito pelo caminho que foi feito até eu existir e até conseguir chegar aqui. Fala muito dessa superação, deste desconforto e das lutas internas que surgiram.
Ao mesmo tempo, é também uma celebração do meu avô, a pessoa que iniciou este caminho e ainda das pessoas que se foram juntando ao longo do tempo. O disco fala muito de todo esse processo de perceber o que me inquietava, de onde é que isso vinha e de perceber se fazia sentido sair desse lugar e como é que eu o faria, honrando sempre o que já tinha existido para trás.
Falas de uma luta interna entre continuar o legado familiar ou seguir um caminho próprio. Como é que essa tensão influenciou a tua escrita?
Este EP, resulta de uma luta interna entre continuar o legado da minha família e seguir o meu próprio caminho. O meu avô foi a primeira geração da família que veio para Lisboa, ele cresceu em Requeixo, Aveiro e quando veio para Lisboa, foi duro. Veio sozinho com 14 anos e isso invariavelmente traz muito peso às próximas gerações e muita gratidão ao mesmo tempo, porque nada era possível se ele não tivesse começado o nosso caminho.
Esse historial de não ter nada garantido, as coisas custarem muito a conseguir e poderem já não existir no dia a seguir, acaba por marcar muito a minha maneira de viver e a forma como dou valor às coisas boas que acontecem. A minha escrita acaba por ser um reflexo de tudo isto.
De que forma a memória do teu avô acabou por influenciar a decisão de apostar na música?
Eu canto desde criança, os primeiros vídeos meus a cantar são de quando eu tinha dois anos e escrevi a minha primeira canção aos 16. Depois disso, na altura da faculdade, acabei por deixar que a música passasse a ser um plano B. Quando o meu avô faleceu e tendo dedicado uma vida ao trabalho na padaria, com todo o valor que esse esforço teve porque sem ele não estaria onde estou hoje, acabei por repensar muito no caminho que queria. Nessa altura e já depois de ter começado a trabalhar cedo (14 anos) senti que não era bem esse o caminho que eu queria para mim, ainda que parta da mesma base, eu não queria uma vida só dedicada ao trabalho em que abdicasse de fazer música.
A música tornou-se uma forma de “pensar direito”. O que queres dizer exatamente com isso?
A música tornou-se a minha forma de pensar direito. Eu penso muito e há inevitavelmente muitos pensamentos confusos a pairar. A música é a minha maneira de canalizar todos esses pensamentos e de encontrar respostas a muitos deles.
Como foi o processo de criação de “26º dia”? Começou pela letra, pela melodia ou pela ideia conceptual?
O “26º dia” começou pela letra. Eu costumo acompanhar as batalhas de Freestyle de rimas em Almada, e houve uma das edições em que eu cheguei a casa e não conseguia parar de escrever. Escrevi o verso praticamente todo desta canção, não conseguia parar de escrever e nem sabia bem o que é que estava a escrever, deixei só sair. No dia a seguir, depois de voltar a olhar para o texto surgiu o refrão. Por isso estou muito grata também à “Klandestina“ e à “Gigantes à Margem” por tudo o que fazem pela cultura.
Ao escrever esta canção sentiste que estavas a dar um salto real na tua vida artística?
Sim, esta canção foi a que mais reações suscitou nas atuações ao vivo, mesmo antes de estar no formato em que está hoje e quando ainda estava longe de estar lançada. Foi com esta canção que comecei a encontrar-me melhor e a perceber o que queria fazer a nível artístico. Este caminho, como eu disse há pouco, já vem de algum tempo (e de forma mais racional há dois anos e pouco), esta canção acabou por ser o
momento em que senti de forma mais clara que tinha encontrado a minha identidade e a minha forma de fazer música.
O encontro com Valete foi descrito como determinante. Que impacto teve no teu desenvolvimento artístico?
O encontro com o Valete, nem sei, não tenho bem palavras para descrever. O Valete fez com que este caminho fosse muito mais bonito, e fez com que eu conseguisse ter um tipo de suporte que moldou muito o projeto. Foi um caminho de muitas conversas das quais eu sou mesmo muito grata. Por isso sim, o impacto do Valete foi enorme, sem ele, este projeto não estaria como está hoje e sou mesmo muito grata por tudo e por nos termos cruzado.
Também trabalhaste com o produtor Luzingo. O que é que ele trouxe de novo ao som deste projeto?
Conheci o Luzinho também através da Horizontal 360 e quando o vi a atuar achei incrível, uma vibe insana e senti logo que era a pessoa que estava à procura para fazer este EP brilhar.
Quando o EP chegou ao Luzingo, ia estruturado em termos de conceito e em termos das canções que fariam sentido fazer parte, mas as canções ganharam outra vida com a presença dele e isso levou este projeto a outro nível.
A estrutura Horizontal 360 tornou-se uma espécie de casa criativa para ti. Como influenciou a identidade do EP?
A Horizontal 360 é uma casa para mim, foi um projeto que eu conheci quando estava a dar os primeiros passos e quando ainda não conhecia muita gente no mundo da música. A Horizontal influenciou muito a minha identidade por ter acelerado o processo de perder alguns medos, de me mostrar o espaço seguro que se formou e que fez com que a minha criatividade voasse e muitos medos ficassem pelo caminho. Encontrar um sítio onde a diferença é celebrada é raro e tive a sorte de o encontrar na Horizontal.
O teu percurso passou também pelo teatro. De que forma essa experiência influencia a forma como escreves ou interpretas as canções?
O teatro ajudou muito, não tanto na forma como escrevo, mas na liberdade para me exprimir. O videoclipe não era possível estar como está se não tivesse existido essa experiência no teatro, não só a parte de representar em grupo e num grupo incrível como aquele em que tive a sorte de entrar, mas também a experiência de estar em palco a vestir outras peles e passar por esse processo tão íntimo.
Essa experiência moldou muito a maneira como consigo canalizar a intensidade que já existe até ao momento em que ela chega ao público.
Que artistas ou referências ajudaram a moldar o universo sonoro de “não há ninho, há céu”?
O universo do “não há ninho, há céu” teve muitas influências do Valete, Papillon, e em termos de sonoridade tem também influências de J. Cole.
Se “26º dia” simboliza o momento de sair do ninho, que tipo de voo imaginas para o futuro do projeto Mio?
O tipo de voo que imagino para um futuro projeto é de certeza algo inesperado, que é o que é o me gera mais adrenalina. A ideia é sempre criar algo não óbvio, sair da zona de conforto, fazer algo que não soe a nada que já exista, misturar sonoridades não óbvias, fazer o inesperado. Acima de tudo fazer o que não é óbvio e o que não existe.
O que gostarias que as pessoas sentissem quando ouvirem esta canção pela primeira vez?
Quando as pessoas ouvirem o “26º dia” pela primeira vez, gostava muito que se sentissem compreendidas. Quero acreditar que quando algo nos acontece, há mais alguém a passar por isso. Gostava acima de tudo que se sentissem compreendidas e que quando precisarem de um espaço de esperança (mas fora de um mundo cor-de-rosa), saibam que podem ter nessa canção esse lugar de esperança e de lufada de ar fresco nos dias mais complicados também.
Depois deste primeiro salto, qual sentes que pode ser o próximo passo no teu caminho artístico?
Depois deste primeiro salto, o próximo passo é apresentar e viver muito este EP, que me trouxe tantas coisas tão bonitas. A curto prazo o objetivo é mesmo viver este EP, cantar muito por aí. A nível do caminho artístico em si, basicamente é isso, é fazer o não óbvio, fazer o que não existe e acho que esse vai ser sempre o próximo passo no meu caminho.