“A minha composição vem, em grande parte, de um diálogo comigo mesmo”, Francisco Fontes

Com o novo álbum Capotar, Francisco Fontes propõe uma viagem marcada pela ideia de perda de controlo, vulnerabilidade e contemplação do quotidiano. Entre atmosferas íntimas e uma escrita profundamente pessoal, o disco constrói uma narrativa que parte de um ambiente mais sombrio e evolui gradualmente para uma sensação de leveza e esperança.

Por Sandra Pinto

Nesta entrevista, o artista explora o processo criativo por detrás do álbum, as suas influências musicais e a forma como transforma experiências e observações do dia a dia em canções de forte carga emocional, preparando também o regresso aos palcos com uma digressão nacional.

O título Capotar reflete “a perda de controlo súbita”. Pode explicar-nos como esta ideia se traduz nas músicas do álbum?
A ideia da perda de controlo no disco manifesta-se através de alguns sentimentos que nem sempre conseguimos controlar, sejam eles a solidão ou a saudade e que nos fazem deambular um pouco. Está também presente em alguns cenários mais bizarros ou cómicos descritos nas canções, provenientes desse deambular.

O disco é descrito como íntimo, delicado e aconchegante. Foi uma intenção consciente criar esta atmosfera ou surgiu naturalmente durante a composição?
Esta atmosfera surge naturalmente sempre que escrevo canções e posteriormente é enfatizada na fase de produção. Penso que seja a melhor forma que encontro para expressar aquilo que escrevo, apesar de também conhecer outras formas de o fazer, é a forma onde me sinto confortável.

O álbum começa com uma noite sombria e termina com a “Primavera”. Pode contar-nos sobre esta narrativa e a escolha da ordem das faixas?
O início do disco apresenta um ambiente mais noturno e sombrio, mas ao longo das faixas caminha para uma narrativa mais leve e associada a um certo otimismo. A faixa “Primavera” inicia esse lado menos sombrio do disco, simboliza uma fase com mais cor e mais segurança.

Como se sente a explorar temas de vulnerabilidade e reflexão pessoal em comparação com o seu disco de estreia, Cosmopolita?
O meu disco de estreia já foi bastante pessoal mesmo que não tenha sido tanto como este. É sempre desafiante mostrar essa vulnerabilidade, mas aprendi a saber lidar com isso ao longo do tempo. A minha composição vem, em grande parte, de um diálogo comigo mesmo, o que faz com que tudo seja muito pessoal.

Todas as letras são da sua autoria e têm um tom poético muito sensível. Qual é o seu processo de escrita? Começa sempre pela letra ou pela melodia?
Não tenho geralmente um processo definido, gosto de escrever quando preciso ou sinto que é a altura indicada. Grande parte das vezes começo por compor o instrumental e mais tarde surge a letra mas já tem acontecido o contrário também.

O álbum combina influências de música pop independente portuguesa com folk e alternativo anglo-saxónico. Quais foram as referências musicais mais determinantes para Capotar?
Capotar tem muitas influências e penso que reflete a vasta discografia de música pop independente que ouço diariamente. Na dificuldade em nomear todos os artistas que podem ter influenciado este trabalho, há um que nunca deixo de fora, que é o cantautor canadiano Andy Shauf.

Os singles “Susto” e “Copiloto” representam bem o espírito do álbum? Porquê?
Sim, ‘Susto’ representa o lado mais sombrio do disco e ‘Copiloto’ representa um lado mais otimista.

O que procura transmitir ao ouvinte com a sensação de “morosidade contemplativa” que caracteriza o disco?
Está relacionado com pararmos um pouco para observar o que está à nossa volta. Este disco é para ser ouvido mas também imaginado, há sempre uma história, uma personagem ou uma ação.

O concerto de apresentação em Lisboa, na Casa Capitão, é também o arranque de uma digressão nacional. Como vai ser a experiência de apresentar o álbum ao vivo?
Acho que será ótima. Estou muito empolgado para apresentar o disco e voltar a tocar com banda. Deixa-me sempre muito curioso os sítios onde cada trabalho novo me leva.

De que forma a presença de Miguel Marôco, Pedro Branco, Tomás Simões e João Carriço acrescenta novas cores ao som do disco?
São todos músicos incríveis que admiro e fazem todo o sentido na formação da banda. Todos eles têm outros projetos dos quais tenho muito gosto em ouvir e até usar como inspiração para o meu trabalho.

Há alguma música de Capotar que se destaque em palco, ou que tenha um efeito especial quando interpretada ao vivo?
Em concertos com banda diria a ‘Susto’ e em concertos a solo a ‘Capotar’.

É um disco muito observador do mundo à sua volta. Que importância tem para si a observação do quotidiano na composição?
Tem imensa importância. Aprecio muito a observação do quotidiano e tento incluir isso nas canções. Acho que é das minhas maiores fontes de inspiração, procurar os detalhes naquilo que estamos habituados a ver.

Que mensagens ou sentimentos espera que as pessoas levem depois de ouvir Capotar?
Prefiro não definir e deixar que cada um sinta aquilo que sente quando ouve este disco e qualquer trabalho meu. Acho que cada um se deve encontrar nestas histórias que tento contar, é uma das coisas engraçadas de lançar música, ver a interpretação de cada um que por vezes consegue ser tão diferente de pessoa para pessoa.

Quais são os próximos passos depois da digressão? Já pensa em novas composições ou projetos paralelos?
Sem querer divulgar muito, sim, há umas ideias com começam a aparecer para novos trabalhos. Nunca deixo de compor, apenas componho menos em alturas de lançamentos. Mas é sempre um processo lento, no meu caso.

 

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