“A minha arte veio inicialmente como uma forma de expressar essa minha “escuridão””, Ninah Dourado
Eu sempre falei sobre identidade e transformação, mas “Real Valor” é um passo mais consciente. É menos sobre provar algo e mais sobre aceitar. Aceitar de onde eu vim, a minha trajetória como imigrante, a mistura de referências que eu carrego como lusobrasileira.
E principalmente aceitar que eu não preciso ser perfeita pra ter valor. Essa música nasce quando eu paro de tentar me encaixar e começo a me reconhecer mais inteira. O tema nasce de um processo de paz e autodescoberta.
Como foi esse caminho até chegares a um lugar de maior aceitação pessoal?
Não foi linear. Foi difícil, desconfortável, me perdi, me encontrei, me perdi de novo. E acredito que ainda vai ser assim. A diferença é que hoje eu caio e levanto mais rápido. Não caio nas mesmas armadilhas, me escondo menos e confio mais em mim. E nem sinto que cheguei num lugar final de aceitação, pra mim, achar o meu real valor é um processo constante. O que mudou foi entender melhor as direções que eu quero seguir. Hoje eu vejo que é menos sobre um resultado e mais sobre o caminho. Eu descobri que, pra mim, liberdade é poder ser quem eu sou e que a felicidade começa aí.
A canção fala sobre integrar luz e sombra, algo muitas vezes evitado. Em que momento percebeste que essa integração seria central na tua mensagem artística?
A minha arte veio inicialmente como uma forma de expressar essa minha “escuridão”. Foi o espaço onde eu consegui expressar partes minhas que eu não tinha coragem de mostrar, principalmente como mulher. A sensualidade, por exemplo, sempre foi algo muito reprimido, quase como um tabu, e a música foi o lugar onde eu consegui recuperar isso em mim. No início, era mais fácil acessar esse lado intenso, mais provocador, até como uma forma de libertação. Mas, com o tempo, eu percebi que estava me identificando só com isso e esquecendo outras partes minhas, a leveza, a doçura, a minha essência mais sensível. Foi aí que virou uma chave: eu não queria trocar uma limitação por outra. Hoje, o que me move é integrar esses dois lados. A minha luz e a minha sombra não competem, elas se completam. E é dessa integração que nasce a minha verdade artística.
Sentes que, enquanto mulher no universo musical, existe uma pressão maior para separar ou “polir” essas diferentes dimensões da identidade?
Com certeza, e não só no universo musical. Existe uma pressão constante sobre a mulher, em qualquer área, para se polir, se ajustar, se tornar mais “aceitável”. A sensação de nunca estar suficiente, como se a gente sempre pudesse e precisasse ser mais, entregar mais, ocupar menos espaço ou ocupar de forma mais “correta”. É muito contraditório e aprisionador. Na música não poderia ser diferente. Existe uma aceitação maior da mulher num lugar mais doce, mais suave. Mas quando ela ocupa um espaço mais provocador ou mais intenso, isso ainda incomoda. E, no fundo, nada parece suficiente. Se é doce demais, é fraca. Se é intensa demais, é “demais”. Se mostra muito, é julgada. Se mostra pouco, também. Mas isso não acontece só com mulheres. Qualquer pessoa que se expressa a partir do feminino, incluindo pessoas da comunidade LGBTQIA+, enfrenta esse mesmo tipo de resistência. Não é à toa que ainda precisamos de uma categoria feminina pra que mulheres tenham um espaço nas premiações. O feminino ainda é visto como algo menor, menos universal.
“Real Valor” funciona também como um convite dirigido a outras mulheres. Que tipo de resposta ou identificação esperas despertar em quem ouve?
Eu espero que as pessoas que me ouvem, especialmente as mulheres, se libertem das partes delas que existem só para agradar os outros. Que tenham coragem de olhar para as próprias falhas, inseguranças e contradições sem se diminuir por isso. Porque é exatamente isso que nos torna humanos e únicos. Mas eu não falo só com mulheres. Eu falo com qualquer pessoa que tenha coragem de ser humana de verdade, sem se diminuir para caber.
Do ponto de vista sonoro, o tema cruza pop, trap e R&B, com elementos mais orgânicos como piano e guitarra. Como encontraste este equilíbrio entre o urbano e o emocional?
Eu tenho estudado música e me aproximado muito da linguagem do soul, que me influenciou bastante nessa fase. Hoje, estando mais presente nas escolhas de produção e com mais consciência musical, eu busco justamente esse equilíbrio: não apagar o meu lado urbano, mas também não deixar de trazer uma camada mais orgânica e humana. Eu gosto dessa mistura entre o sintético e o natural, entre o impacto do trap e a sensibilidade do piano e da guitarra. Depois de experimentar bastante, percebi que essa fusão não só fazia sentido pra mim, como também criava um som muito verdadeiro de ouvir.
Sentiste que esta nova abordagem sonora representa também uma evolução da tua identidade musical?
Com certeza. Eu estou sempre em processo de evolução, mas o que muda agora é o nível de consciência. No início, eu compunha de forma muito intuitiva, sem necessariamente entender todas as referências e escolhas que estavam ali dentro. Hoje, eu continuo a trabalhar de forma intuitiva, mas com mais intenção e mais clareza sobre o que quero comunicar. Eu passei a olhar para tudo o que já faço com mais profundidade, entendendo melhor as minhas influências e como elas se traduzem no meu som. Por isso, eu vejo essa fase como mais consciente e mais integrada, não é uma mudança de direção, é um refinamento da minha identidade.
O tema revela uma escrita mais madura e consciente. De que forma a tua forma de compor tem mudado ao longo do tempo?
A minha composição reflete diretamente quem eu sou em cada fase da vida. E hoje eu sinto que estou numa fase mais adulta, então naturalmente a minha escrita também se torna mais consciente. Desde os 18 anos eu já tinha uma vontade muito clara de criar músicas com propósito, que não fossem só expressão, mas também mensagem. O que mudou agora é a clareza. Eu tenho uma direção mais definida sobre o que quero comunicar e sobre o impacto que quero gerar nas pessoas, nas mulheres, nas crianças e em quem se identifica com a minha música. Antes, eu era muitas vezes lida só pelo lado da intensidade e da provocação. Hoje, eu quero ampliar essa percepção. Quero que também exista espaço para verem a minha leveza, a minha calma, a minha humanidade. Porque eu não sou só uma coisa, eu sou múltipla, e é exatamente isso que eu quero que a minha arte reflita.
O videoclipe trabalha a dualidade entre o solar e o lunar. Como surgiu este conceito visual e o que representa para ti?
Eu tenho uma ligação muito forte com a natureza e também com a astrologia. O sol e a lua sempre estiveram muito presentes na minha forma de criar, eu componho tanto em momentos de sol, de energia, quanto em momentos mais introspectivos, à luz da lua. Para mim, esses dois elementos representam uma dualidade muito humana: a luz e a escuridão, a expansão e a introspecção, a energia do dia e o silêncio da noite. O conceito do videoclipe nasce exatamente daí, dessa ideia de que não somos uma coisa só.
Somos feitos de contrastes, e é nessa contradição que a identidade se constrói.
De que forma o vídeo ajuda a expandir ou aprofundar a mensagem da música?
O vídeo ajuda a tornar visível aquilo que a música já sugere emocionalmente. “Real Valor” fala de integração, de luz e sombra, de contradições internas, e o audiovisual permite materializar isso de uma forma mais simbólica.
Vens do Rio de Janeiro e estás radicada em Portugal desde os 18 anos. Como é que esta vivência entre geografias influencia a tua música e identidade artística?
Essa vivência me ensinou, acima de tudo, que “casa” não é um lugar fixo. Eu sinto que criei uma casa dentro de mim, que é a a arte. A arte virou a minha forma de viver e de eu habitar a mim mesma. Não deixei de ser brasileira, muito pelo contrário, foi estando fora que eu entendi ainda mais a minha identidade, a minha cultura e o meu afeto pelo Brasil. Ao mesmo tempo, viver em Portugal me trouxe liberdade, segurança, outras referências e abertura para outras formas de estar no mundo. Isso me fez mais adaptável e mais curiosa em relação a outras culturas. A minha arte reflete exatamente isso: essa mistura, essa adaptação constante e essa sensação de não pertencer totalmente a um único lugar, mas sim a si mesmo. Tem uma frase do José Saramago que diz que é preciso sair da ilha para enxergar a ilha, e isso traduz muito a minha experiência morando em Portugal.
Sentes que essa mistura cultural é hoje uma das tuas maiores forças criativas?
Com certeza. Eu acho que essa sensação de não me encaixar totalmente em um só lugar acaba sendo exatamente o que alimenta a minha música. É dessa curiosidade que vem a minha criatividade. Em vez de tentar me adequar a uma identidade fixa, eu encontrei força em explorar essa diferença, em olhar para o que em mim não é padrão, não é óbvio. Eu na verdade sou lusobrasileira, tenho descendência próxima em Portugal, mas eu cresci no Brasil e sempre vou carregar ele para a minha música: o calor, a energia, a expressividade. Por outro lado, eu não quero ser limitada por isso, adoro aprender novas sonoridades e formas de expressão para misturar linguagens. Acima de qualquer bandeira eu quero representar um ser humano que busca viver com verdade.
Tens explorado géneros como pop, trap, funk brasileiro e bossa nova. Como defines hoje o teu som ou ainda estás em constante construção?
A minha identidade está sempre em construção. Durante muito tempo tentei me encaixar em um género específico, mas isso acabou virando uma pressão desnecessária, cheguei até a ter essas “crises” de tentar entender qual era o meu som. Hoje eu entendo que a minha música não nasce de um género, nasce de uma intenção. A minha direção artística está ligada à verdade, à liberdade e à afirmação de identidade. E é isso que guia tudo o que eu faço. Os estilos acabam sendo ferramentas, pop, trap, funk, bossa nova, soul, todos podem coexistir quando fazem sentido para a mensagem. Por isso, hoje eu me identifico mais com o pop no sentido amplo: não como uma caixa, mas como um espaço de liberdade onde tudo pode caber.
Em Lisboa tens vindo a afirmar-te no circuito urbano e já abriste concertos para nomes relevantes da cena. Como tens vivido esse crescimento?
Eu sou muito pé no chão com esse tipo de coisa. Eu não me iludo com qualquer espaço e nem acredito que vai ser fácil viver da música. Estou há 3 anos lançando música, fazendo shows, conhecendo pessoas, e nada disso foi imediato ou “de um dia para o outro”, foi construção, presença e consistência. Errando ou acertando, com medo ou não, eu sempre dei o meu máximo em cada oportunidade porque amo de verdade o que faço. Cada passo me fez confiar mais no meu projeto e entender melhor o tipo de artista que eu quero ser a longo prazo. Eu ainda quero muito mais, mas hoje eu tenho mais consciência de que isso se constrói com constância, e não com pressa.
O single “Fantasiah” teve um impacto relevante nas plataformas. Sentiste que esse lançamento abriu portas ou expectativas para esta nova fase?
Sim, fiquei muito feliz com o impacto de Fantasiah nas pessoas, mas principalmente porque foi uma virada de chave pra mim. Eu acho muito potente ver a música movimentar pessoas, criar dança, comunidade, energia. Isso me encanta. Mas, ao mesmo tempo, eu também senti a necessidade de ser mais clara sobre o que está por trás disso. Porque não é só sobre a estética ou sobre a energia, existe uma mensagem ali. “Fantasiah” tem essa contradição mesmo: é movimento, é leveza, é provocação, mas também tem intenção. E isso me fez entender algo importante: eu gosto de ver as pessoas dançando, vivendo aquilo, mas eu também quero que elas entendam o que estão vivendo. É por isso que “Real Valor” vem como um contraponto. Porque não é só de fantasia que a gente vive, a gente também vive do real.
“Real Valor” fala de identidade, transformação e aceitação. Em que medida estas ideias refletem também o teu momento de vida atual fora da música?
Eu tenho estado num processo muito forte de integração de partes minhas que antes eu via como separadas. Eu sou formada em Marketing e Ciências da Comunicação, e durante muito tempo existia uma espécie de conflito interno, como se a Nina artista não pudesse coexistir com a Nina profissional. Hoje eu entendo que não só podem coexistir, como uma alimenta a outra. A minha visão de comunicação e de mercado fortalece a minha arte, e a minha sensibilidade artística também transforma a forma como eu penso estrategicamente. Eu percebi que isso não é uma contradição, é uma vantagem. Claro que são poucos lugares no mundo corporativo que enxergam assim principalmente quando a minha mensagem foge do padrão esperado de uma mulher. No âmbito mais pessoal eu tenho me aproximado de questões mais profundas da minha história, da minha infância e da minha família, olhando para partes minhas que antes eu evitava encarar. Esse processo me fez me sentir mais inteira. Até a forma como eu entendo as minhas origens, incluindo a minha ligação com Portugal e com a minha ancestralidade, faz parte dessa construção de identidade mais completa. No fim, “Real Valor” nasce exatamente daí: da consciência de que eu não preciso escolher entre versões de mim, eu sou todas elas.
O que significa para ti afirmar o teu “real valor” enquanto artista hoje, neste ponto da tua carreira?
Enquanto artista, isso significa parar de tentar me encaixar em expectativas externas e começar a sustentar a minha própria verdade com consistência.
O que gostavas que o público levasse consigo depois de ouvir esta música e ver este novo capítulo da tua identidade artística?
Eu gostaria que o público saísse com uma sensação de leveza, mas também de presença, como se se reconhecesse um pouco mais em si mesmo depois de ouvir a música. Hoje fala-se muito sobre a música estar industrializada, distante, automática. Por isso, o que eu tento trazer é o contrário disso: intenção, verdade e humanidade. Se as pessoas sentirem que ainda existem artistas a criar a partir de um lugar real, já fico feliz. Mas, mais do que isso, eu espero que elas também se sintam mais conectadas com as próprias emoções e com a própria verdade.