“A memória precisa de circular, chegar às novas gerações e ser discutida. Só assim continua viva”, Filipe Tavares (Azores Burning Summer)
Entre o som do Atlântico e a identidade de um território que se quer vivido, pensado e partilhado, o Azores Burning Summer regressa à Praia dos Moinhos com uma proposta que ultrapassa largamente o formato tradicional de festival. À frente deste projeto está Filipe Tavares, diretor do evento, que tem vindo a consolidar uma visão onde música, comunidade, sustentabilidade e memória se cruzam numa experiência profundamente enraizada nos Açores.
Por Sandra Pinto
Em entrevista, explica como a edição de 2026 reforça essa identidade, propondo uma viagem cultural entre geografias atlânticas e afirmando o festival como um espaço de encontro, reflexão e pertença.
O Azores Burning Summer regressa à Praia dos Moinhos com uma programação que cruza música, ambiente e comunidade — como é que o festival define hoje a sua identidade?
Hoje, o Azores Burning Summer é muito mais do que um festival de música. É uma experiência cultural, ambiental e comunitária que nasce de uma ligação profunda à Praia dos Moinhos. A música continua a ser o nosso principal ponto de encontro e um instrumento promotor da felicidade, mas tudo acontece em relação com a paisagem, a memória e as pessoas. Procuramos manter uma escala humana, próxima e responsável. Queremos que cada pessoa possa dançar, descobrir, respirar e sentir que pertence, por alguns dias, a uma comunidade criada naquele lugar.
O cartaz de 2026 propõe uma viagem atlântica entre Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau, Brasil e Portugal — que narrativa está por trás desta curadoria musical?
Partimos do Atlântico como espaço de encontro, circulação e transformação. Não construímos o cartaz a partir de nacionalidades, mas das afinidades entre músicas que transportam memória, identidade e contemporaneidade.
Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau, Brasil e Portugal formam uma geografia afetiva onde as tradições viajam, encontram as cidades e ganham novas linguagens. Mais do que usar a lusofonia como uma etiqueta, queremos mostrar a sua diversidade. É uma viagem por várias culturas sem sair da Praia dos Moinhos, unindo aquilo que o Atlântico separa e aproxima.
De que forma artistas como Lura, Paulo Flores, Tabanka Djaz ou Zé Ibarra representam essa ideia de encontro entre ilhas, cidades e culturas?
Cada um destes artistas transporta uma relação diferente entre raiz e movimento. Lura traz Cabo Verde e uma carreira de três décadas aberta ao mundo. Paulo Flores representa a força do semba angolano, da palavra e da memória urbana de Luanda. Os Tabanka Djaz afirmam o gumbé como expressão essencial da identidade da Guiné-Bissau. Zé Ibarra acrescenta a canção brasileira contemporânea e a sensibilidade de uma nova geração. Juntos, mostram que a lusofonia não é uma realidade uniforme. É feita de ilhas, cidades, viagens, encontros e diferenças. É essa pluralidade que queremos celebrar.
O festival acontece num território muito específico como a costa norte de São Miguel — como é que a paisagem influencia a experiência do evento?
A paisagem influencia tudo. A Praia dos Moinhos não é apenas o cenário do festival; é a sua origem, a sua inspiração e também o seu limite.
O anfiteatro natural do Parque dos Moinhos, o mar, o verde, a luz e a proximidade da comunidade influenciam os horários, os palcos, a circulação, o som e a própria escala do evento. Não podemos impor um festival àquele lugar. Temos de o escutar e respeitar. Quem nos visita não vem apenas assistir a concertos. Vem viver uma paisagem. E a música, naquele contexto, ganha uma dimensão muito especial.
Para além da música, o Azores Burning Summer integra cinema, saúde comunitária, leitura e educação ambiental — qual é o papel desta programação alargada na missão do festival?
Esta programação faz parte do coração do festival. A música abre a porta, mas o encontro pode continuar através do cinema, dos livros, da saúde e da educação ambiental. São áreas que nos permitem chegar a diferentes públicos, estimular a curiosidade e prolongar a presença do festival para além dos dias de concertos. Queremos celebrar, mas também cuidar, formar novos públicos e criar momentos que deixem alguma coisa na comunidade.
Um festival pode promover felicidade e, ao mesmo tempo, ajudar-nos a pensar de forma mais consciente sobre o território e sobre a maneira como vivemos em conjunto.
O projeto Cinema da Autonomia percorre várias freguesias da Ribeira Grande — como é que o festival se torna também um instrumento de memória e identidade açoriana?
O festival torna-se um instrumento de memória quando leva a programação até às pessoas. O Cinema da Autonomia assinala os 50 anos da Autonomia dos Açores através da exibição gratuita de “A Viagem Autonómica” em oito freguesias da Ribeira Grande. O filme percorre as nove ilhas e recupera figuras, documentos e momentos essenciais da construção da Autonomia. Mas, acima de tudo, abre espaço para refletirmos sobre o que nos une enquanto arquipélago e sobre o que significa hoje ser açoriano. A memória precisa de circular, chegar às novas gerações e ser discutida. Só assim continua viva.
O programa VIVE liga saúde, bem-estar e comunidade — que importância tem trazer estas temáticas para dentro de um festival de música?
Um festival é, antes de tudo, um encontro de pessoas. Se queremos falar de comunidade e sustentabilidade, temos também de falar de saúde, prevenção, bem-estar e cuidado.
O VIVE aproxima estas temáticas do quotidiano num ambiente positivo, informal e de proximidade. A música cria abertura e disponibilidade, e essa energia pode ser aproveitada para partilhar conhecimento e estimular hábitos mais saudáveis. Para nós, sustentabilidade não é apenas cuidar do ambiente. É também cuidar das pessoas e da qualidade das relações que construímos.
A iniciativa Letras n’Areia leva a leitura para a praia — como surgiu esta ideia de cruzar literatura, família e espaço público?
O Letras n’Areia nasce da vontade de unir pessoas em torno do gosto pelos livros e de criar espaço para um pensamento crítico sobre temas que fazem parte da nossa realidade. A estreia acontece no dia 29 de julho, às 18h00, na esplanada “Os Moinhos”, numa parceria com a Livraria Solmar. Serão apresentados “O surfista mais velho do Atlântico”, de Pedro Arruda, e “Viajantes nos Açores — o olhar estrangeiro sobre as ilhas desde o século XVI”, de Maria das Mercês Pacheco, apresentado pelo seu filho, Rui Pedro de Albergaria Almeida.
Seguir-se-á uma conversa com Pedro Arruda, Rui Pedro de Albergaria Almeida e Luís Rodrigues, moderada por José Carlos Frias, da Livraria Solmar. A partir dos dois livros, queremos refletir sobre o mar, o turismo e os diferentes olhares construídos sobre os Açores. A praia oferece um contexto descontraído e próximo para juntar leitores, autores, jovens e famílias. Mais do que apresentar livros, queremos criar um verdadeiro momento de encontro, diálogo e partilha.
O Cinema na Praia transforma a Praia dos Moinhos numa sala de cinema ao ar livre — que impacto tem este tipo de programação na relação das pessoas com o espaço?
O Cinema na Praia permite olhar de outra forma para um lugar que julgávamos conhecer. Durante quatro noites, a Praia dos Moinhos transforma-se numa sala de cinema ao ar livre, onde o mar e a paisagem também fazem parte da experiência.
Existe ainda uma particularidade que dá unidade à programação: todos os filmes foram realizados em ilhas do Atlântico. Juntamos três das quatro regiões que compõem a Macaronésia — Açores, Canárias e Cabo Verde — através de histórias sobre identidade, memória, criação e resistência.
Ver estes filmes em conjunto, junto ao mar, cria novas relações com o espaço e novas memórias sobre a praia. O território deixa de ser apenas cenário e passa a fazer parte da narrativa.
O Moinhos Revival trabalha a memória coletiva e a homenagem a figuras ligadas ao festival — como é que a dimensão afetiva entra na identidade do Azores Burning Summer?
A dimensão afetiva está na origem do Azores Burning Summer. O festival nasceu da vontade de celebrar a Praia dos Moinhos, as suas pessoas e as memórias ligadas àquele lugar.
O Moinhos Revival não é apenas um exercício de nostalgia. É uma forma de reconhecer quem ajudou a construir esta história e de manter vivas as relações que deram identidade ao projeto. Um festival não se faz apenas de cartazes e estruturas. Faz-se de pessoas, amizades, regressos e memórias. Reconhecer essa dimensão ajuda-nos a crescer sem esquecer de onde viemos.
O festival inclui também Eco Market e Expo de veículos elétricos — como se equilibra celebração cultural com sustentabilidade e transição ecológica?
Equilibra-se integrando a sustentabilidade na experiência do público, de forma concreta e acessível. No Eco Market são apresentados e promovidos produtos ecológicos, aproximando as pessoas de projetos e soluções mais responsáveis.
A exposição de veículos elétricos integra um projeto mais amplo de promoção da mobilidade elétrica. Os veículos apresentados são também utilizados no shuttle gratuito que liga os parques de estacionamento à praia e ao recinto do festival. Isto permite que uma grande parte do público não se limite a observar a tecnologia, mas tenha efetivamente a experiência de viajar num veículo elétrico.
Acreditamos que experimentar é mais eficaz do que ouvir apenas um discurso. A cultura pode aproximar as pessoas da transição ecológica de uma forma positiva, prática e natural.
No fundo, que visão de território, comunidade e futuro é que o Azores Burning Summer quer afirmar com a edição de 2026?
Queremos afirmar os Açores não apenas como paisagem, mas também como território de criação, pensamento, memória e cultura contemporânea.
Imaginamos uma comunidade plural, onde moradores, público local, comunidades imigrantes, residentes estrangeiros, visitantes e artistas partilham o mesmo espaço com proximidade e respeito. O futuro do festival não passa por crescer a qualquer custo. Passa por aprofundar o impacto, formar novos públicos e preservar uma escala compatível com a Praia dos Moinhos. Queremos continuar a aproximar pessoas através da música, cuidar do lugar que nos acolhe e criar memórias felizes com futuro.