“À medida que lanço música, sinto cada vez mais que existem pessoas que se identificam com ela”, J.MYSTERY

Em entrevista exclusiva à LOOKmag, J.MYSTERY falou sobre a oportunidade de atuar como artista de abertura nos concertos de Father John Misty em Portugal. O músico, que mistura rock alternativo, pop eletrónica e sonoridades cinematográficas, descreve o convite como uma surpresa que rapidamente se transformou em entusiasmo e responsabilidade, num momento marcante da sua carreira.

Por Sandra Pinto

Ao longo da conversa, J.MYSTERY abordou a importância destes concertos para a sua trajetória, o processo criativo por detrás do single “Change” e a forma como cada espetáculo lhe permite estabelecer uma ligação direta com o público. Entre reflexão, emoção e ambição, o artista revela-se determinado a mostrar a sua identidade musical e a conquistar novos fãs dentro e fora de Portugal.

Como recebeste o convite para actuar nas primeiras partes dos concertos de Father John Misty em Portugal?
Foi uma surpresa. A minha agência ligou-me inicialmente a dizer que o nosso nome estava em cima da mesa, mas tentei não criar muitas expectativas. Era algo que queria bastante, por isso, quando ligaram novamente a confirmar que tinha sido escolhido, fiquei em êxtase.

O que representa para ti subir aos palcos do Sagres Campo Pequeno e do Coliseu do Porto nesta fase da tua carreira?
Estes convites vieram na altura certa. Estou numa fase em que sinto necessidade de subir a palco e mostrar a novos públicos quem é J.MYSTERY. A dimensão e a importância destas salas trazem uma responsabilidade acrescida, mas acima de tudo um enorme entusiasmo e
de certa forma, uma validação de que estou no caminho certo.

Sentiste que esta oportunidade marca um ponto de viragem no percurso de J.MYSTERY?
Não vejo isto como um ponto de viragem, mas mais como um marco, entre vários que já tive neste curto espaço de tempo. Temos feito um trabalho coerente e contínuo, e queremos agarrar cada oportunidade para mostrar um pouco mais.

“Change” parece abrir uma nova fase estética e emocional no teu projecto. O que mudou artisticamente em relação aos trabalhos anteriores?
À medida que vou lançando música, sinto cada vez mais que existem pessoas que se identificam com ela. Esse crescimento de ouvintes, que querem descobrir um pouco mais do meu universo, tem-me dado mais confiança. Essa confiança leva-me a querer explorar mais sonoramente e emocionalmente, entregar ainda mais de mim.

Referes que a música fala sobre indiferença, silêncio e responsabilidade colectiva. O que te levou a explorar esses temas neste momento?
Esta música nasceu muito daquilo que todos nós temos vindo a sentir, um mundo cada vez mais dividido, conflitos constantes, desigualdades, tanta informação e ao mesmo tempo, tanto silêncio. Senti que precisava de transformar essa inquietação em música. “Change” foi escrita nesse estado de reflexão. Não é uma música de revolta cega, é mais um apelo à consciência. Fala sobre o peso de sabermos o que está a acontecer à nossa volta e mesmo assim, muitas vezes escolhermos não agir. A canção transmite uma tensão constante entre inquietação e esperança.

O videoclip de “Change”, realizado por André Tentugal, reforça bastante a dimensão cinematográfica do teu universo visual. Qual é a importância da imagem no teu processo criativo?
É muito importante. Sempre tive essa consciência e essa vontade de expandir o universo J.MYSTERY para a imagem e para o vídeo. Cada música lançada traz uma carga emocional que não podia ficar apenas no áudio. Tudo ajuda a contar uma história e a reforçar a minha identidade enquanto artista.

Depois da nomeação de “Reverie” nos Prémios PLAY 2025, sentes que existe hoje uma maior atenção ao lado visual do teu trabalho?
Não propriamente, essa atenção ao lado visual sempre existiu e foi algo que nunca abdiquei. Sinto que esta nomeação foi mais uma confirmação de que estou no caminho certo e de que, apesar do mercado estar diferente, existem certos aspetos que não devem ser mudados.

Tens vindo a construir uma identidade muito própria entre o rock alternativo, a pop eletrónica e ambientes cinematográficos. Como defines atualmente o universo sonoro de J.MYSTERY?
É um universo muito próprio e de difícil categorização. Aliás, nem sei até que ponto gostaria de ter algo tão definido ou assumidamente ligado a um género. Sinto que, em cada música, consigo colocar um pouco daquilo que gosto e consumo, acabando por criar algo verdadeiramente meu.

O próximo EP parece apontar para uma abordagem mais exposta e emocional. Foi desafiante entrar nesse registo mais íntimo?
Conforme referi, sinto que a forma como as pessoas têm recebido a minha música torna esse processo de exposição emocional mais fácil. Naturalmente existem temas mais difíceis para mim, mas o que me dá confiança é acreditar que esses temas podem ser transversais a muita gente.

O teu trabalho já começou a ganhar destaque internacional em publicações como a Wonderland e a Clash Magazine. Como tens vivido essa crescente projeção fora de Portugal?
A internacionalização é um objetivo muito presente no meu projeto desde o início. À medida que vou vendo isso acontecer, dá-me ainda mais vontade e motivação para continuar a lançar música.

O que esperas que o público leve consigo depois de assistir aos concertos de abertura para Father John Misty?
Acima de tudo, espero que levem curiosidade para descobrir mais sobre este meu universo. Os concertos de abertura são diferentes de um concerto normal, e estamos a preparar algo precisamente com esse propósito, fazer com que as pessoas fiquem com o nome J.MYSTERY na cabeça e sintam vontade de explorar mais.

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