À conversa com Walter Benjamin

Escritor de canções com nome de filósofo alemão, Walter Benjamin tem morada londrina, mas raízes em Lisboa. Quis o destino que viesse ao mundo no mesmo dia que Bob Dylan. Desconhecemos se tal facto lhe talhou o futuro, o qual se prevê cheio de boa música…como a que agora nos dá com o novo trabalho “The Imaginary Life of Rosemary and Me”.

Como surgiu o teu interesse pela música?
Acho que foi quando descobri uma cassete dos Beach Boys perdida pela casa. Eu gostava tanto dela que a minha mãe me comprou o primeiro CD que tive, os Beach Boys ao vivo em Londres. Devia ter uns 6 anos e também comecei a estudar música clássica na mesma altura. A música sempre esteve presente em casa dos meus pais…

Antes de te lançares em nome próprio passaste por vários projectos…
É verdade, pelos Jesus, the Misunderstood e Goodbye Toulouse. E toquei com mais uma mão cheia de gente, sempre adorei tocar em bandas e com outras pessoas.

Em que te inspiras para escrever?
Em tudo. Tanto nas coisas reais como nas inventadas… Também fui buscar muitas influências à música, filmes e alguns livros.

Se tivesses que rotular o género de música que fazes qual seria o rótulo? Indie-folk parece-te bem?
Talvez nesta fase… Mas neste disco há pop, bossa nova, e até metais estilo Motown. Espero que o próximo disco seja muito diferente deste e assim por diante. Para depois não poder haver nenhum rótulo!

Vais lançar no mercado o teu segundo álbum. O que separa este do anterior “The National Crisis”?
Acima de tudo a experiência e alguma maturidade. Mas não demasiada maturidade, gosto da inocência na música. O The National Crisis foi gravado no meu quarto com umas colunas de aparelhagem Hi-Fi e este já foi gravado num estúdio. Apesar de tudo, e pensando bem, foi acabado no quarto também. Mas agora já sei mais uns truques.

Como decorreram as gravações do álbum?
Foram intensas. Mas já tenho saudades das noites que passámos em Lisboa entre amigos a tocar estas canções. Começávamos a gravar às 3 da tarde e saíamos às 6 da manhã. Nem sei como é que ainda conduzíamos sem adormecer…

Ouvindo “The Imaginary Life of Rosemary and Me” chegamos ao fim com a noção de encadeamento, como se cada música fosse um capitulo de uma história. Foi tua intenção fazer o disco como se de um livro se tratasse?
Completamente! É uma narrativa contínua e quando o começamos a gravar as coisas ficaram logo bem claras em relação à ordem das músicas. O João Paulo Feliciano ajudou muito nesse campo. Tudo neste disco está encadeado e mesmo a capa reflecte bem isso. É quase um disco conceptual…

Dirias que cada canção não vive sem as outras?
Para mim não vivem, eu trabalhei mesmo para este disco ser um álbum e não apenas canções perdidas. Mas acho que também podem bem ser ouvidas fora do contexto, é a magia da música pop. Gosto da ideia das canções pop de 2 minutos. Acho que vem da minha paixão pelos Beach Boys!

No disco passeias entre um pouco de soul, um pop algo psicadélico, um toque de tropicalismo e a folk, não te intimida misturar, baralhar e voltar a dar?
Essa é a natureza da minha música. Não gosto de repetir as coisas. Apesar de ser um disco coerente a nível da narrativa e musicalmente, adoro o caos e a surpresa.

Quando cantas sussurras, dirias que és um cantor sensual?
(Esta pergunta fez-me rir bem alto) Não faço ideia! Nunca pensei nisso nesses termos! Acho que comecei a cantar assim por ter medo de cantar. Quando era pequeno era obrigado a estar no coro pela escola onde estudava música e fingia que cantava.

Contaste com a colaboração de alguns amigos no disco, tanto nas vozes como ao nível instrumental, conta-nos um pouco sobre isso.
Não há nada melhor do que estar rodeado de amigos talentosos e que têm prazer em fazer música. Tive a minha incrível secção rítmica de sempre, o João Correia e o Nuno Lucas (dos Julie & the Carjackers). Mas também a Márcia e a Francisca Cortesão (Minta) nas vozes. O João Paulo Feliciano a tocar Hammond, o Bruno Pernadas numas guitarras e mais gente que se foi juntando como o Mário Feliciano, o Jakob Bazora, o Nick Mills ou o Duncan Brown. Sou uma pessoa cheia de sorte!

As colaborações com outros músicos são uma constante na tua vida profissional, escolhes ou escolhem-te?
Acho que é um bocado as duas coisas. Depende da situação, às vezes acontece naturalmente. Eu não conhecia a Márcia antes dela me convidar para trabalhar no álbum dela e agora, passado este tempo todo, a coisa mais natural do mundo foi ela passar pelo estúdio, espalhar magia, sair com um sorriso e deixar-nos a todos de boca aberta.

Também és produtor…o que te agrada mais, estar atrás ou à frente das máquinas? 
As duas coisas. Herdei do meu pai a paixão pelas máquinas e pelos objectos. Ele comprou-me o meu primeiro gravador de 4 pistas quando eu tinha 12 anos e desde aí nunca mais parei de gravar canções. Mas também adoro estar em cima de um palco a tocar. Alternar é a melhor maneira de nunca me aborrecer!

Há quanto tempo estás em Londres?
Há dois anos e meio… Parece mais…

Porquê Londres e não Paris, Amesterdão…
Porque Londres tem uma cena musical e uma história ímpar no que toca a estúdios de gravação, bandas e ideias. Adoro o som britânico. E também porque vim estudar.

Estando habitualmente fora de Portugal como vês a cena musical nacional?
Vejo que está a crescer, está de boa saúde e recomenda-se. É só pena a economia estar tão mal e ninguém aproveitar para agitar as coisas a sério. É óptimo o cantar em português estar na moda porque se têm feito coisas mesmo boas. E é bom haver outras bandas que cantam na língua que lhes apetece para haver montes de coisas diferentes.

Nasceste no mesmo dia que Bob Dylan… está ele entre as tuas influências?
Uma das maiores. Foi ele que me fez perceber que se podem escrever canções fundamentais com três acordes.

Quem é a Rosemary?
É a personagem principal do meu disco.


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