À conversa com Scott Matthew

Nasceu na Austrália, mas vive nos Estados Unidos da América. Escreve canções tristes, mas é uma pessoa feliz. Ficámos a conhecer um pouco melhor o seu trabalho depois da sua participação no último disco de Rodrigo Leão, “A Montanha Mágica”. Chama-se Scott Matthew e vem a Lisboa dar um concerto que acontece este sábado no Frágil.

Como aconteceu a tua colaboração com o Rodrigo Leão na música “Terrible Dawn”? Já conhecias o trabalho dele?
Fui abordado pelo Rodrigo para aceitar este desafio. Na altura estava um pouco familiarizado com o trabalho dele, em especial com as suas colaborações com outros cantores, nomedamente Beth Gibbons e Neil Hannon. Evidentemente que me senti muito honrado e verdadeiramente surpreendido com o facto de ele ter ouvido falar de mim. Fiquei ainda mais convencido de que era uma boa ideia assim que ouvi a canção. Identifiquei-me de imediato com a música.
Na verdade, envolvi-me facilmente com a música, apesar de sentir algum nervosismo ao cantá-la.

Nasceste na Austrália mas agora vives em Nova Iorque. Porque escolheste Nova Iorque?
A Austrália assemelhava-se a uma pequena cidade e eu sentia necessidade de me mudar para uma cidade maior com mais e diversificados locais, de maneira a crescer e a encontrar-me comigo próprio.
Na altura, estava também apaixonado por Nova Iorque, pelo que também essa foi uma boa motivação para me mudar.

Achas que o facto de teres nascido na Austrália influencia de alguma forma a tua música?
Muito provavelmente sim. A minha infância foi muito isolada pelo simples motivo que cresci no campo. Temas como a solidão são ainda hoje uma parte importante da minha escrita. Apesar de eu não pensar que ser australiano tenha alguma influência directa nesse facto.

Tens participado em inúmeras bandas sonoras. Gostas desse género de trabalho?
É verdade, apesar de eu nunca ter procurado esse género de trabalho, pois, tenho tido a sorte de o mesmo me ter vindo a ser oferecido. Só escrevi na totalidade uma banda sonora, para o filme “Shortbus“. Apesar de ter cantado em algumas bandas sonoras de desenhos animados japoneses nunca estive envolvido na sua escrita. Era basicamente um intérprete.

De dois em dois anos lanças um álbum novo…é esse o período de tempo que necessitas para escrever e criar?
Sim, posso afirmar que sim…mas também andar em tournée é muito desgastante requerendo muito tempo e energia depois de se lançar um álbum.
Por outro lado, hoje em dia é caro fazer álbuns e eu, simplesmente, não me podia dar ao luxo de estar constantemente em estúdio.

Onde vais buscar inspiração para escrever?
Todas as minhas canções são autobiográficas. Pode parecer que eu tenho uma vida realmente miserável e às vezes tenho, mas acredito realmente que todos nós temos esses sentimentos, mas apenas alguns escolheram ou têm a capacidade de expressá-los.
Mas, é uma velha tradição cantar ou escrever sobre a dor, a perda, o amor e o desamor… certamente não sou o primeiro.

Do que tens mais medo? Será de não seres capaz de voltar a escrever grandes canções?
Esse é, efectivamente, um dos meus maiores medos. Nunca tive formação musical e nunca trabalhei com base num sistema de composição. Na minha criação é tudo muito espontâneo e esporádico.
Não consigo perceber como é que faço… ainda hoje esse facto representa um mistério para mim mesmo. Ainda ouço as minhas músicas e, literalmente, não tenho a mínima ideia de como é que consegui escrevê-las!

Lançaste “There Is An Ocean That Divides And With My Longing I Can Charge It With A Voltage Thats So Violent To Cross It Could Mean Death” em 2009. Dois anos depois lanças “Gallantry’s Favorite Son”…quais as diferenças entre os dois trabalhos?
Penso que, sem estarmos perfeitamente conscientes disso, conseguimos no “Gallantry’s Favorite Son” atingir um melhor equilíbrio entre a luz e a escuridão. Até o próprio título do álbum é menos dramático. Por outro lado, a criação deste trabalho foi mais stressante, de tal forma que levei algum tempo a distanciar-me dele para, na verdade, o poder apreciar. Hoje estou muito orgulhoso do resultado final.

Burt Bacharach foi uma inspiração neste álbum, é um artista que admiras?
Sem dúvida! A canção “The Wonder Of Falling In Love” foi directamente inspirada pelo som de Burt Bacharach. Apesar de não estarmos, nem por sombras, perto da sua mestria na execução, fizemos o nosso melhor. Esta canção é muito importante para mim. Era importante ter uma música tão luminosa e divertida para cimentar ainda mais o equilíbrio entre a luz e a escuridão. Esta é uma canção de amor positiva!

Quando ouvimos “Gallantry’s Favorite Son” podemos sentir uma beleza comovente…estavas triste quando compuseste as canções? O estado de espírito é importante e influencia o nascimento de uma grande canção?
A verdade é que a inspiração parece acontecer quando um determinado estado de espiríto toma conta de mim! Escrever canções serve muitas vezes como uma válvula de escape para libertar tensões e pressões.
Encontro beleza na melancolia e na tristeza apesar de sempre ter desejado que as minha canções não fossem deprimentes. Que fossem mais um consolo ou algo positivo para os outros, como são para mim. Uma mão amiga.

…significa que a melancolia e um coração partido são “boas” inspirações para se conseguir escrever uma balada profunda?
Penso que ao longo dos anos tem sido provado que um coração partido é uma constante fonte de inspiração para se compor música maravilhosa. Música que pode tocar e falar às pessoas a um nível muito íntimo, dando-lhes uma hipótese para entender e compreender os sentimentos mais profundos, tantas vezes escondidos…
Música que pode inclusivamente servir de catalisador para se entrar em contacto com as emoções, trabalhando-as de forma a se arranjar espaço para as exprimir.
Apesar de muita gente admirar estas emoções na arte, na vida “real” não gostam mesmo nada delas!

És uma pessoa triste ou melancólica? Ou essa é apenas a tua maneira de estar na música?
Até posso ser, mas não sou certamente apenas isso. Tenho tendência para encontrar muito humor na vida e adoro sentir-me feliz e radiante.
Apesar de ser imediatamente arrastado para o lado mais negro e escuro quando se trata de escrever. Já desisti de tentar perceber porquê ou de analisar esse facto. Sou simplesmente assim. O meu lado romântico estará sempre presente.

Já estiveste alguma vez em Portugal?
Não, nunca estive em Portugal e estou muito entusiasmado em ir e de ter a oportunidade de tocar e de ficar a conhecer um pouco o país.

O que podemos esperar do concerto de Lisboa?
Vou estar a tocar sozinho, pelo que será um concerto bastante intimista. Vou tocar canções dos três últimos álbuns e vou acrescentar uma quantas versões ao alinhamento. Estas são para mim uma nova paixão, uma vez que neste momento estou a trabalhar num álbum de versões.

Por: Sandra Pinto

 

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