À conversa com Rodrigo Maranhão

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Vem a Portugal dia 09 de Outubro para dar um concerto no Santiago Alquimista. Apaixonado por Lisboa, Rodrigo Maranhão vem apresentar o seu mais recente trabalho discográfico, “Itinerário”, onde contou com a participação de António Zambujo. Falámos com ele 24 horas antes do concerto em jeito de antevisão.

Como caracterizas a alma carioca? samba, batucada, carnaval são essenciais para os cariocas?
Sim, toda cidade precisa valorizar sua cultura e suas tradições. É difícil imaginar o Rio sem carnaval e futebol. São pontos de união entre todos os cariocas, de todas as camadas sociais. Mas quem não gosta de samba e de futebol também vai achar seu espaço. Mas o carioca gosta de rua, de botequim, de cerveja e de conversa fiada.

Do basquete para a música. Existe alguma semelhança entre ambas as artes?
No basquete aprendi que se treinasse muito jogava bem. Na música é a mesma coisa. Não é possível jogar e tocar bem sem entrega. Outra coisa importante é o espírito lúdico. Jogava por prazer. O jogo é um tipo de brincadeira. A música também.

Descobres o violão aos 15 anos. O que mais te encantou no instrumento?
Poder me expressar. O violão leva-te numa viagem interna muito poderosa. Mas ao mesmo tempo também te coloca no Mundo. Ajuda-me a dizer o que penso e não sei falar. A palavra cantada tem outro poder.

Dai teres deixado o desporto dois anos depois para abraçares a música de corpo inteiro…
Sim, era um jogador promissor. Com 16 anos já era profissional. Jogava nas equipas de infando, juvenil e também nos profissionais. Achava que seria atleta para sempre. Mas a música veio de forma avassaladora. Era um universo completamente novo e atraente. E mergulhei de cabeça.

O que é que a música te dá de tão especial e que faz feliz?
A música junta as pessoas. A música permite-te colocar para fora sentimentos. Bons ou ruins, ela funciona como válvula de escape. Permite-te dividir sua tristeza e principalmente sua alegria. Não se pode ser feliz sozinho.

Como foi andar na faculdade naquela altura quando por lá passaram nomes que viriam a ter a sua importância no universo musical brasileiro?
Gostava mais dos intervalos e das conversas no pátio da faculdade que da maioria das aulas. Lá encontrei minha turma. Vi que fazia parte de algo muito maior. Fui muito influenciado e acho que também influenciei muita gente. Essa troca é o melhor. É onde está a magia do processo musical.

Rodrigo Maranhão: música feita sentimento, paixão e entrega

Tens muitas das tuas canções gravadas e cantadas por outas vozes. Quanto escreves e compões já sabes para a voz de quem o estás a fazer?
Hoje consigo entender melhor os intérpretes. Mas é difícil de acertar. Alguns já conheço bem, mas nunca é 100% de acerto. E é preciso saber que é raro achar a dose certa, a melodia certa. Se é que existe algo certo em música. O mais comum é o erro. Mas as vezes o que não vale para um cabe como uma luva em outro. Então as músicas acabam achando sua voz.

Como dizes com alguma graça são quase sempre vozes femininas…
Tirando o Zambujo (risos)…

Maria Rita, Roberta Sá ou Fernanda Abreu além de terem vozes bastante diferentes, têm uma forma igualmente distinta de estar na música. Essa variedade é algo que procuras? Vem ela enriquecer ainda mais as tuas composições?
Gosto da diversidade. Sou nascido e criado no Rio de Janeiro, que recebe gente do Brasil e do mundo inteiro. Temos o samba e o Choro, mas temos muito mais. Não consigo colocar camisa de força nas canções, nem quero.

Gravas de 4 em 4 anos. Algum motivo especial para isso ou simplesmente acontece?
Tenho um bloco de carnaval que me dá muito trabalho. Envolve muita gente e já faz parte do calendário cultural da cidade. Isso explica, em parte, a demora entre um disco e outro. Mas sou naturalmente lento. Se alguém me liga pedindo uma coisa urgente eu nem começo a fazer. Preciso de tempo. O tempo é um grande mestre. As vezes penso que o mundo é que está acelerado (risos).

Compões todos os dias?
Não. Preciso do mote. Preciso da vontade. Compor é um processo doloroso. Se estou no meio de uma canção fico disperso, procurando as palavras. Não dá para viver nesse estado o ano inteiro. Mas quando sento para trabalhar sou capaz de fazer cinco músicas numa semana.

Ganhaste um Grammy em 2006 com “Caminho das águas” cantado por Maria Rita. O que significou para ti este prémio em especial e todos os que tens vindo a receber ao longo da tua carreira?
Foi muito importante. Reconhecimento é bom. Acreditar muito nele não. Mas ser reconhecido no teu meio te dá confiança para seguir na estrada. E o prémio veio com uma canção simples. Achei muito legal. Precisamos resgatar uma certa simplicidade. Dar mais valor às pequenas coisas da vida. Hoje traçamos muitas metas e esquecemos do resto. Estou interessado no resto.

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Vens a Portugal apresentar “Itinerário”, o teu terceiro e disco mais recente. Como foi fazer este álbum?
Foi um retorno aos tempos de faculdade de música. O trabalho à frente do Bangalafumenga as vezes afasta-me da música. Não quando estou tocando, batucando ou cantando lá. Nessas horas estou muito bem. Mas ter que administrar o crescimento do bloco naquela época estava difícil. Então deu saudade de tocar violão, juntar amigos, fazer os arranjos, escrever, apagar, sentir o cheiro da música chegando e abençoando. Saudade do tempo que não esperava nada da música. Só ela me interessava. Hoje tento estar o mais próximo dela que for possível. Até porque tenho que pegar meus filhos na escola, acompanhar suas andanças, namorar minha mulher, cuidar da Manteiga (a nossa cadela), estar com os amigos, tomar um banho de cachoeira, tomar partido político na vida, torcer pelo Flamengo, comer na dona Maria… E achar poesia e música em tudo isso. A minha música mora nesses lugares. “Itinerário” é isso. É esse trajeto. São esses lugares por onde passo e repasso.

Como nasceu e o que significa o nome do disco?
É o nome de uma música que fiz, e que conta o trajeto da van que ia da Gávea até o Rio das Pedras.

Foste buscar um nome grande da música portuguesa, o António Zambujo que canta “Madrugada”. Porquê ele e como é que essa parceria aconteceu?
É uma parceria que começou num jantar seguido de música na casa de amigos. Mas na verdade começou para mim no dia que ouvi a música que ele fazia. Imediatamente veio a vontade de ouvir algo meu naquela voz. Tem muito Portugal, mas é muito Brasil. Não sei explicar. O melhor foi ter tido a sorte de o encontrar meses depois aqui em Portugal, e de hoje ser meu grande amigo.

Dividiram concertos no Rio de janeiro em 2012. Foi um balanço positivo?
Foi maravilhoso. Foram noites inesquecíveis para mim.

Onde vais buscar a tua sonoridade? Quem e o que te inspira quando compões e quando escreves?
Gosto da cultura popular. Gosto da rua. Para sobreviver fazendo música na rua tem que ser bom. Você não tem ninguém apoiando-te além de sua música. E para um género musical sobreviver na rua, à margem das gravadoras, precisa ser algo muito forte e necessário. Então gosto dessas coisas. Tento fazer algo semelhante do meu jeito.

Já conheces Lisboa?
Sim. Amo

O que esperas deste concerto e o que é que o público vai poder assistir?
O público vai poder assistir a dois monstros da música brasileira. Vão me acompanhar nesse concerto em Portugal os grandes Marcos Suzano (percussão) e Marcello Gonçalves (violão de 7 cordas). Vou tocar violão e, por exigência do Marcello, vou tocar muito cavaquinho. Temos um passado em comum nas rodas de samba que deram origem ao Banga. Vamos tocar alguns sambas de forma bem tradicional, com cavaquinho, violão de 7 e pandeiro. Vou cantar as canções que ficaram marcadas para mim na voz de outros intérpretes como “Caminho das águas” e “Recado” (Maria Rita), “Samba de um Minuto” (Roberta Sá), “Maré” e “Madrugada” (António Zambujo) e músicas dos meus três CD (“Bordado”, “Passageiro” e “Itinerário”). Espero me divertir no palco onde estarei muito bem acompanhado, e aproveitar para mostrar minha música numa terra tão querida.

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Por: Sandra Pinto

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