À conversa com Manuel Fúria

Conhecemo-lo da banda os Golpes, a qual teve o seu fim no ido ano de 2011. Agora assina em nome próprio, Manuel Fúria, tendo sido o responsável por uma das (boas) novidades da música nacional dos últimos tempos, o álbum “Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo”.

Não vou perguntar qual o motivo, mas foi complicado ver os Golpes terem um fim na altura exata em que estavam a conseguir um maior impacto junto do público?
Complicado sim, mas necessário.

O que distingue o Manuel Fúria a solo do Manuel Fúria d’Os Golpes?
A narrativa e a direção que as canções apontam é muito semelhante. A grande diferença é formal: passar de um rígido, rijo quarteto roque clássico (guitarras, bateria e baixo) para uma atmosfera mais curvilínea, feminina, ondulante, que os violinos, o oboé, o acordeão, o sintetizador, os metais, o bandolim, as guitarras de doze cordas permitem.

Apresentas o álbum “Manuel Contempla os Lírios do Campo” como a segunda parte de um tríptico inaugurado em 2008 com o trabalho “Manuel Fúria apresenta as Aventuras do Homem Arranha”. O que distingue e separa os dois trabalhos?
Numa primeira aproximação é a forma. “Manuel Fúria apresenta as Aventuras do Homem Arranha” é um disco rude, roufenho, gravado segundo os critérios da Flor Caveira que mais interessa, dois amigos (o Tiago que era Guillul e eu) a fazerem experiências com arcos de violino em guitarras, segundas vozes sussurradas para um 4 pistas e outras coisas que tais. “Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo” procura captar um som grandioso, os Náufragos a tocarem num teatro (no caso, o Belém Clube). Depois as próprias ambições, o primeiro é um pequeno disco de amigos para amigos e se possível para toda a gente do mundo todo, o segundo é um disco de amigos e cúmplices para toda a gente do mundo todo.

Mas, de alguma forma como partes de um mesmo todo (o tríptico) alguma forte ligação tem de existir entre ambos, certo? Qual é esse cordão umbilical que os une?
A substância. Existe uma continuidade narrativa dentro das duas gravações. O primeiro aborda a desadequação face a um lugar novo, grande, confuso, o segundo é a rotura com esse sentimento de desadequação e a violenta procura de um lugar de paz. Vejamos “Os Verdes Anos” do Paulo Rocha: O Homem Arranha tem a ver com o Júlio em Lisboa, os Lírios do Campo começam no plano final do filme, o Júlio cercado por automóveis no cruzamento da Estados Unidos da América com a Avenida de Roma. É uma maneira de tentar explicar o que se passa dentro destes discos.

Para quando a terceira parte do tríptico?
Para quando Deus quiser.

Voltando ao teu mais recente registo de originais notamos uma acentuada portugalidade. A que público se dirige este conjunto de canções?
A toda a gente do mundo todo.

É Portugal e o seu povo um bom motivo de inspiração para criares?
É o país onde sou parido, no qual cresço e me construo; onde estou enraizado. Não pretendo fugir disso, muito pelo contrário procuro um encontro, uma conciliação ou reconciliação com o nosso património coletivo. Seja ela tranquila ou agressiva.

Ao ouvirmos cada canção do disco sobressai o cuidado dos arranjos…A perfeição é importante para ti?
É importante a fidelidade às intenções fundadoras de cada trabalho em que me empenho. Neste caso os arranjos a pender para o grandioso, melodramático, romântico, foram um dos motivos iniciais para esta empresa. Mais do que perfeição é uma questão de não dispersar, o que pode ser difícil durante a produção de um disco de longa duração.

Depois os instrumentos, muitos, diferentes e interessantes. O que te levou a esta escolha?
A vontade de um som grandioso. A vontade de oferecer às canções caminhos à altura da dimensão do mundo que trago comigo.

O campo e a ruralidade fascinam-te?
Sim. As minhas origens estão no campo (Viseu e Moreira de Cónegos) e, mesmo que não estivessem, sempre me senti próximo da “Cidade e as Serras” ou das “Viagens na Minha Terra”. Depois, cresci conhecendo Portugal longe das cidades, o Gerês, o Marão, o Alentejo, as Beiras… e Portugal é lindo e nunca mais acaba.

A dicotomia campo versus cidade está presente nos teus discos. Achas que o campo é ou poderá ser uma espécie de paraíso perdido que urge reencontrar?
Não sei se é um paraíso perdido (não imagino que no Paraíso exista uma espingarda em cada casa), mas que urge reencontrar, sim, urge.

O facto de seres de Santo Tirso, cidade localizada no Vale do Ave influenciou a tua forma de fazer música? (isto se nos lembrarmos que esta região é das que mais sofre em épocas de crises económica e financeira como a que vivemos hoje…)
Influenciou sim, mas não no aspeto das crises. Paradoxalmente é a bonança e o novo riquismo de meados dos anos 80 e 90 que mais marcam. Santo Tirso, como muitas cidades do Vale do Ave está encravada em si própria, descaracterizada pelo progresso desenfreado que se traduz numa confeção em cada duas casas, tratores com camiões a tentarem ultrapassar, pavilhões industriais ao lado de um campo com vacas a pastar, quintas destruídas para construir edifícios muito, muito feios. Isso pesa muito e proporciona esta vontade pelas coisas totais, a rejeição do compromisso ou do meio termo, em última análise a aniquilação dos brandos costumes.

Chateia-te ver músicos portugueses a cantar noutras línguas?
Chateia-me o desenraizamento.

Nunca pensaste arriscar cantar em inglês?
Não…

Por curiosidade, concordas com o acordo ortográfico?
Também não, é uma coisa disparatada e mais um sinal da tendência portuguesa para se vergar perante outros países, aparentemente, mais poderosos. Mais do que disparatado é triste.

A tua vida musical começou com Os Golpes?
A minha vida musical começa com as bandas de adolescência em Santo Tirso. Depois, em Lisboa, formei o núcleo que daria origem aos Golpes. Ainda antes de qualquer edição da banda editei as tais Aventuras do Homem Arranha. Por isso, para ser rigoroso não começa com os Golpes mas torna-se real com eles.

Acreditas em Deus. Nunca colocaste essa fé em causa?
Não é lá muito original, mas sim, coloquei. Tive uma educação católica, fruto da minha Mãe e do colégio onde estudei. Essa fé infantil desaparece na adolescência. A cabeça cheia de ideias marxistas, muita leitura acerca do pensamento humano, um verdadeiro fascínio pela filosofia arredaram a ideia de Deus para canto e praticamente desapareceu qualquer vestígio de fé. Mais maduro converti-me de modo adulto, consciente, total.

Hoje a religiosidade representa uma parte importante da tua vida?
É a base da pirâmide. O princípio, o meio, o fim e o que vem depois do fim.

Voltando ao “Manuel Contempla os Lírios do Campo” como escolheste os músicos que colaboram contigo?
Tenho o privilégio de ter amigos talentosos. Uma boa parte da malta que colabora neste disco vem de universos que ultrapassam a cena musical. Depois também há os que conheci no contexto da música e com os quais tenho algumas afinidades, sonoras e não só. Foi também importante a pinta própria de cada um.

Confesso que sou fã desde a primeira visualização do vídeo da música “Que Haja Festa Não Sei Onde”. Onde vai ser a próxima festa ao som de Manuel Fúria?
“Não sei onde”…

Por Sandra Pinto

http://www.facebook.com/omanuelfuria?fref=ts

Mais sobre Manuel Fúria https://lookmag.pt/blog/manuel-furia-contempla-os-lirios-do-campo/

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