À conversa com João Vaz Silva

De Coimbra a Lisboa. Da rádio ao agenciamento de bandas. Fomos descobrir um pouco mais sobre João Vaz Silva, um agente provocador que dá cartas no universo da música nacional.

Por: Sandra Pinto

Conta-nos um pouco do teu percurso.
Um curso de jornalismo na Universidade de Coimbra, uma intensa actividade paralela ao serviço da Rádio Universidade de Coimbra e do Jornal Universitário A Cabra são os pontos altos do meu percurso estudantil. Mas ainda tive uma breve passagem pelo Centro de Estudos Cinematográficos e pelo Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra. Em parceria com a Cátia Faísco, fundei a associação juvenil Prensa – Grupo de Teatro & Afins. Seguiu-se a vida real como responsável de comunicação da FNAC Coimbra desde a sua abertura em 2006 até 2012 e a minha vinda para a capital para trabalhar no extinto Ritz Clube como programador e produtor.

Como foi a tua passagem pela Rádio Universidade de Coimbra?
A Rádio Universidade de Coimbra será sempre um marco importante no meu crescimento pessoal e profissional. Era e continua a ser uma das secções culturais mais activas da Associação Académica de Coimbra. Há 34 anos que serve de terreno fértil para experimentar tudo e mais alguma coisa. A liberdade de criação e o espírito de descoberta sempre me cativaram na RUC e considero que foi umas das melhores experiências que já tive oportunidade de vivenciar.

Foi lá o teu primeiro contacto com a música?
Podemos considerar que foi na RUC que deixei de ser apenas ouvinte de música no sentido em que esta passou a ser ferramenta de uso diário com programas de faixa e de autor a várias horas. Cobertura de festivais e festas académicas, organização e produção de concertos de lançamento de grelhas de programação e tal. É, confirma-se, a RUC abriu portas ao maravilhoso (por vezes, complicado) mundo da música.

Depois vieste para Lisboa…
O meu estágio em Jornalismo foi em Lisboa, mas foi apenas depois do meu primeiro emprego na FNAC Coimbra que me mudei por tempo indeterminado para a capital.

Ficaste logo ligado ao universo musical da capital?
Universo musical e não só. A programação do Ritz Clube não se reduzia a propostas musicais. Julgo que a verdadeira ligação à música aconteceu quando passei para o outro lado da barricada: de programador a agente de bandas. Quem agora envia propostas sou eu…(risos)

Hoje tens a tua agência. O que te levou a tomar este caminho?
A minha empresa surge depois de uma primeira (e enriquecedora) experiência numa agência maior, onde trabalhei com os GNR, Carlos do Carmo e outros nomes mais independentes, como Minta & The Brook Trout – a banda com quem trabalho há mais tempo. Comecei a ser abordado por vários artistas que não tinham espaço na Novagência. A melhor solução foi criar o meu próprio negócio de acordo com as minhas regras e critérios.

Recentemente procedeste a um rebranding. Qual o motivo?
A recente mudança de nome foi a forma que arranjei de colocar num só catálogo as bandas e artistas que já agenciava em exclusivo através d’A Minha Agência e da Pataca Discos. Não se trata de uma atitude egocêntrica, mas de algo prático que pretende também vincar a minha posição no mercado há oito anos.

A imagem é importante como definição dos objectivos que pretendes alcançar?
A imagem é sempre importante, mas o conteúdo é muito mais interessante.

Como defines hoje a JVS Booking?
A JVS Booking sou eu. Uma empresa de uma pessoa que preza a liberdade e que está sempre rodeada de muita gente criativa e talentosa. O meu objectivo é trabalhar em conjunto com as bandas e chegar a cada vez mais pessoas interessadas em descobrir o que se anda a fazer por estes lados.

Que bandas e músicos fazem parte do portefólio da agência?
Ui. São muitos e talvez demasiados para apenas uma pessoa mas aqui vai a lista por ordem alfabética para ninguém ficar melindrado: Afonso Cabral, Benjamim, Bruno Pernadas, Ditch Days, Erica Buettner, Foreign Poetry, Minta & The Brook Trout, MOMO, Noiserv, Postcards, Real Combo Lisbonense, Sarah McCoy, Tape Junk, They’re Heading West, Tipo, Valter Lobo, X-Wife e You Can’t Win, Charlie Brown.

Há pouco tempo regressaste à rádio, mais exactamente à Radar, onde fazes o Piloto Automático com o Benjamim. Como foi este regresso? Revela-nos um pouco a filosofia do programa.
Sempre gostei de fazer rádio e, com a saída de Coimbra, deixei de ter essa oportunidade. Antes do Piloto Automático, a minha experiência mais recente foi o podcast O Agente Provocador, um espaço informal de entrevistas gravado no estúdio do Benjamim. Foram 18 episódios que me deram muito gozo. No início do ano passado, o enorme Pedro Ramos desafiou o músico para um programa de autor na Radar. O Benjamim decidiu então convidar-me para a tarefa de imaginar o que fazer em parceria e o Piloto Automático acabou por ser uma espécie de sequela do meu podcast mas feito a dois (o que é muito mais divertido) e sempre com um momento musical partilhado com os nossos passageiros a encerrar a conversa. Já ultrapassámos as 40 emissões e a filosofia é falar sobre temas relacionados com música e indústria que normalmente não têm lugar em entrevistas promocionais.

Tens uma ligação muito forte à música feita em Portugal. Dos novos valores quem é que os nossos leitores têm mesmo de conhecer?
Todo o meu catálogo…(risos)
Há muita coisa boa a surgir. Confesso que o meu tempo não permite estar atento a tudo mas, fora do meu grupo de artistas, tenho um carinho especial pelos Cassete Pirata e pelo Vasco Vilhena. Há poucas semanas, conheci uma boa surpresa vinda do norte chamada Aníbal Zola.

E lá fora? Que nomes destacarias como teus preferidos?
Sarah McCoy. Sou suspeito pois organizei duas digressões em Portugal mas há muita gente que precisa de conhecer este animal de palco. Depois tenho um fraquinho pelo francês Vincent Delerm, Fiona Apple, Sharon Van Etten, Andrew Bird e Patrick Watson. Todos ainda em início de carreira…(risos)

Com tantos festivais e concertos a acontecer, como analisas o cenário da música em Portugal?
Esta questão dá pano para mangas. Considero que há muitos festivais por cá mas nem todos apresentam um cartaz consistente.
Parece-me que os programadores não demonstram a capacidade de pensar a longo prazo quando decidem criar um festival. Os grandes eventos que mobilizam mais público continuam a delegar para segundo plano os slots para bandas portuguesas o que demonstra algum desrespeito ou desconhecimento do que realmente diferenciador se faz por cá.
A oferta de auditórios e clubes com uma programação efectivamente cuidada e com condições mínimas para os artistas do país rareia. Há espaços incríveis fora dos grandes centros urbanos com pouca oferta musical ou então a jogar seguro no “top cinco do ano” e nada mais disruptivo.
A cultura (não apenas a música) precisa de ser valorizada. É igualmente necessário criar laços com o(s) público(s), seja qual for a região onde se encontra. Por outro lado, é bom perceber que os nossos artistas estão a repensar estratégias diferentes de aproximação a esse público – seja em salas grandes ou espaços mais pequenos.
Na minha opinião, o mais complicado neste panorama são as oportunidades dos nomes de média dimensão que não conseguem cachets dignos nem estão em condições para aceitar condições de acolhimento que não suportam sequer os custos de produção. Há um caminho longo a percorrer mas estou optimista relativamente ao futuro.

Dos próximos concertos já agendados quais os que não vais mesmo perder?
Nick Cave, Destroyer, Pavement, Bill Callahan, Rufus Wainwright, Beck, etc, etc, etc.

Perguntas rápidas
Rádio ou TV: Rádio
Vinil ou CD: CD (bem mais prático)
Cinema ou literatura: Cinema
Doces ou salgados: Doces
Festival ou concerto em sala fechada: sala fechada
Verão ou inverno: Inverno
Lisboa ou Coimbra: Lisboa

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