À Conversa com João Corte Real

Há pessoas que marcam os espaços por onde passam. São pessoas de forte personalidade que deixam a sua visão da vida guiar os passos das instituições que dirigem. É assim com João Corte Real, diretor-geral do Tivoli Palácio de Seteais e Tivoli Sintra, que com muita entrega e dedicação tem feito destas, duas das melhores unidades hoteleiras da região de Lisboa.  

Como surgiu o seu interesse pela hotelaria e de que forma iniciou a sua atividade?
Desde muito pequeno que sinto um enorme fascínio por hotéis e sempre tive interesse em saber como seria a vida dentro de um hotel, não só do ponto de vista do hóspede, mas também do outro lado, aquele a que os clientes não têm acesso. Sempre quis saber como se trabalhava numa cozinha, como se preparava um banquete, como seria organizar as limpezas de uma grande unidade ou preparar uma estadia de alguém que vem gozar os seus dias de descanso. Para além disso, gosto imenso de receber e conversar com os hóspedes, algo que posso fazer no Tivoli Palácio de Seteais.
O meu primeiro contacto com a hotelaria começou com um estágio na cozinha do Hotel Ritz de Lisboa. Trabalhava muitas horas e chegava a casa cansadíssimo, mas de imediato percebi que era num hotel onde queria trabalhar. Tive a sorte de nessa ocasião aprender muito e ver o que de melhor se fazia em Portugal.

Desde quando está no grupo Tivoli e, mais concretamente, em Seteais?
Comecei a trabalhar no Tivoli Palácio de Seteais em Janeiro de 2007, após uma experiência de dois anos em Timor Leste, na melhor unidade de Díli, que é ainda hoje o ponto de encontro e de referência da capital Timorense.

Como surgiu esta oportunidade?
Após os dois anos em Timor, apesar de ter tido o maior gosto no trabalho e a oportunidade de receber as mais importantes figuras da política mundial, cheguei à conclusão que queria regressar ao meu país. Em Díli, tinha assistido a um pouco de tudo, desde da escassez de alimentos, ao facto do hotel ter sido atacado, ou ao desafio fazer serviços de catering incríveis em áreas de difícil acesso, onde se levava todo o material “às costas”. Foi um período muito intenso e muito enriquecedor, mas tinha chegado a hora de voltar, com a sorte de poder entrar para um dos hotéis mais emblemáticos do país, pelo qual tinha um enorme interesse, pois tinha vindo cá com os meus pais na minha juventude, quando na escola tive de ler os Maias.

O que mais o cativa na sua profissão?
O que mais me cativa é ter a oportunidade de podermos fazer os clientes felizes, proporcionando-lhes experiências para recordar o resto da vida. Grande parte dos nossos clientes trabalha o ano inteiro e os dias em Seteais, são a forma de poderem ter tempo para eles próprios, sem preocupações, sem problemas, porque a equipa do Tivoli Palácio de Seteais estará pronta para lhes proporcionar uma estadia onde todos detalhes são preparados com a máxima atenção. Ou no caso dos casamentos, em que percebo que de certa forma contribuímos para um dia especial, que se quer inesquecível. Nessa ocasião, queremos proporcionar aos noivos e convidados um dia verdadeiramente feliz, sendo muitos os que acabam por regressar pelas emoções que lhes proporcionamos.

Na sua opinião quais os fatores distintivos do Tivoli Palácio de Seteais?
Em duas palavras, diria, espaço e serviço. Espaço por se tratar de um palácio do século XVIII, particularmente bem recuperado, onde os frescos, mobiliário e tapeçarias são de facto peças raras e únicas, e o serviço, que merece sempre destaque na avaliação feita pelos nossos clientes. Passar um ou mais dias no Tivoli Palácio de Seteais é de facto uma experiência única, pois são muitos os detalhes e pormenores na nossa dedicação ao cliente, difíceis de encontrar mesmo em alguns hotéis de 5 estrelas.

Dos serviços disponibilizados pelo hotel qual (ou quais) o que mais destaca?
Para além do prazer que de facto pode ser dormir no Tivoli Palácio de Seteais, este hotel oferece serviços um pouco diferentes da hotelaria tradicional. Dispõe de um picadeiro (aberto todo o ano), dois campos de ténis de terra batida e uma piscina com uma visita incrível até ao mar. Em termos gastronómicos, destaco o carro de acepipes, ao Domingo, no nosso restaurante, e que consiste no serviço de pequenas iguarias preparadas pelo nosso chef, onde o cliente pode escolher o que quiser. Temos também o Lanche à Portuguesa, todos os fins-de-semana (de Outubro a Maio), entre as 16h00 e as 18h30, no Bar do Tivoli Palácio de Seteais, que apresenta uma oferta de buffet, composto por bolos caseiros feitos com as receitas do tempo das nossas avós, como o bolo mármore, os quadradinhos de chocolate, os jesuítas ou os pastéis de nata. Nesse buffet constam ainda os pães de deus com fiambre, scones, torradas, charcutaria, para além de uma enorme variedade de sumos e chás.

Suponho que conhece bem Sintra…se um hóspede lhe pedisse um roteiro de visita para um dia quais seriam as suas sugestões?
Sintra é uma zona muito rica e interessante para conhecer em apenas um dia. Considero o Palácio da Pena como um marco desta região, e de paragem obrigatória, mas o Palácio da Vila, Monserrate ou a Regaleira também merecem uma visita guiada. Sugiro uma paragem nas praias, Adraga, Maçãs ou Azenhas do Mar, onde se podem apreciar peixes e mariscos de águas frias e batidas. Para os apreciadores, os vinhos de Colares e para terminar a doçaria regional, na qual se destacam, as queijadas, os travesseiros, os fofos de Belas, ou as nozes de Galamares. Para os clientes do Tivoli Palácio de Seteais que não dispõem de muito tempo ou que querem algo personalizado, temos um leque muito variado de experiências para o cliente escolher, das quais destaco o Piquenique na Serra, um passeio de charrete acompanhado por uma pausa para um piquenique, em plena Serra.

Como enquadra o hotel, não só no âmbito da região onde se insere, mas também na oferta hoteleira da região de Sintra?
Há óptimos hotéis na região de Sintra/Cascais, mas o Tivoli Palácio de Seteais é uma peça única. Trata-se um monumento nacional do sec. XVIII, transformado em hotel na década de cinquenta e com apenas 30 quartos. Os frescos de algumas salas, o mobiliário de época, as tapeçarias e o serviço personalizado que oferecemos fazem do seu interior, algo muito difícil de reproduzir. Para além disso, a sua monumentalidade e enquadramento paisagístico transportam-nos para uma época de reis e rainhas de outros tempos e é esse o espírito que procuramos preservar, proporcionando a quem no visita uma experiência única e marcante.

Muito requisitado por gente famosa do mundo da música e do espetáculo, quais os que lhe deixaram melhores recordações?
Foram vários os clientes famosos que passaram por este hotel, alguns infelizmente não tive oportunidade de os conhecer: Agatha Christie, Marguerite Yourcenar, Burt Lacaster, Catherine Deneuve, Vieira da Silva ou Amália Rodrigues, ou mais recentemente Brad Pit, a banda U2, Johnny Deep e Mel Gibson.
Tenho boas recordações da passagem da Rainha Sofia de Espanha por este hotel numa ocasião de uma cimeira Ibero-Americana. A simpatia, serenidade e interesse demonstrados deixou uma marca em todos os que tiveram oportunidade de a receber.

Acha que, nos tempos que correm, poderá ser o turismo uma boa opção para fugir da crise?
Sem dúvida. Portugal tem tudo para se afirmar no turismo. Temos uma história e locais únicos, uma gastronomia riquíssima, temos sol quase todo o ano, uma costa lindíssima, magníficos hotéis e campos de golfe e somos competitivos se compararmos com os restantes países europeus.

Parece-lhe que tem sido tudo feito no aspeto de fomentar a atividade turística?
Parece-me que tem sido feito muita coisa e que já somos uma marca forte no estrangeiro, mas ainda há muito por fazer. A aposta de Portugal tem de ser feita nos produtos de qualidade, não necessariamente caros ou exclusivos. Essa qualidade passa pelos hotéis, restaurantes, formação dos que trabalham neste sector e até nos produtos nos quais já somos referência, como a cortiça, o vinho, o azeite, a fruta, os legumes ou o peixe.

Como acha que os estrangeiros que nos visitam vêem Portugal e que impressão tem de nós como povo?
onsidero que somos um povo acolhedor e que sabe receber bem quem nos visita. Gostamos de ajudar, temos interesse por conhecer o outro e dar a conhecer quem somos. Neste sector do turismo, claro que também há maus exemplos que não dignificam a nossa fama de povo hospitaleiro, mas sem dúvida que a forma de receber genuinamente portuguesa deixa uma forte marca de calor, sorrisos e simpatia em que nos visita.

Em férias quais os seus destinos preferidos, cá e lá fora, e porquê?
Tenho uma costela algarvia, e o Algarve sempre fez parte da minha vida. Adoro o Algarve! … Mas não o Algarve das praias do mês de Agosto. Gosto de Sagres em Janeiro e de Monchique todo o ano. Gosto do Barrocal e de Tavira. Gosto da gastronomia da serra e do peixe da costa. Gosto de não ter horas para acordar e não ter programa, e de poder escolher o que me apetece fazer num Algarve que poucos conhecem.
No estrangeiro destaco a viagem que recentemente fiz ao Líbano, um país absolutamente extraordinário, não só pela sua riqueza cultural e paisagística, mas também e mais uma vez pela sua gastronomia. Beirute é uma cidade fantástica, moderna e vibrante, por muitos considerada a Paris do Médio Oriente. É uma cidade onde se encontram as melhores lojas e marcas, restaurantes para todos os gostos e os espaços de diversão nocturna mais originais, É uma cidade interessantíssima, alegre e festiva.

Como passa os seus tempos livres?
Procuro fazer algum desporto durante todo o ano, e gosto particularmente de correr no passeio marítimo entre Carcavelos e Paço de Arcos. Gosto de jantar fora com os amigos e faço um esforço para conhecer as novas tendências e restaurantes. Gosto dos serões com jogos de canasta, muitas gargalhadas e boas conversas.

Gosta de música?
Claro, que sim. Como qualquer pessoa, tenho as minhas fases, às vezes mais fadista, outras com mais bossa-nova ou jazz. Todos os momentos da vida devem ter uma boa banda sonora.

Se pudesse acompanhar esta entrevista com uma canção, qual seria?
Qualquer uma do António Zambujo, um cantor incrível que vale a pena não perder de vista. Tanto nos faz lembrar Chet Baker, como passa de forma magistral pela bossa-nova, ou nos toca num fado, que nos faz sentir orgulhosos de sermos portugueses.

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