À conversa com Filipe Miranda aka The Partisan Seed

No ano em que se comemoram 15 anos desde a edição do primeiro disco do projeto The Partisan Seed, é lançado “Old Songs For a New Sun”, o seu sexto álbum. Filipe Miranda contou com a colaboração de José Ferreira para produzir e gravar o disco e com a participação de Lisete Santos, João Miguel Fernandes, José Almeida e Tin Khan. Em conversa explicou o conceito do disco e como está a ser regressar aos palcos.

Foste vocalista dos Kafka entre 1997 e 2005. O que restou das experiências nos Kafka para os dias de hoje?
Muita coisa… há muito daquilo que fazia nos Kafka que ainda faço, nomeadamente o não ter medo de arriscar e embarcar em opções estéticas menos previsíveis. Por exemplo, ao vivo, os temas são sempre muito diferentes da versão que é lançada em disco.

Em 2005 estreaste-te a solo com o nome The Partisan Seed. O que te levou a embarcar num projeto a solo?
Eu sempre compus para mim, sempre tive tendência para toda a envolvência que leva à escrita de um género de canção mais pessoal, seja musicalmente, seja ao nível literário. Paralelamente a todos os projetos de banda ou outras vertentes artísticas que tenho e tive, sempre existiu um número grande de canções pessoais que funcionam melhor numa lógica solo. Com o final dos Kafka, isso evidenciou-se aos meus olhos. Mas a ideia inicial que deu origem a tudo isto foi a de fazer um livro de poemas ilustrado com a editora Quasi, complementado com um disco com alguns temas. Desafiado pelo Jorge Reis-Sá (e com o nascimento da editora Transporte de Animais Vivos), o disco tornou-se no objeto artístico e editorial principal. E a vontade foi crescendo, acidentalmente, mas ao mesmo tempo a preencher um espaço musical e criativo que eu precisava de ter na minha vida na altura.

Porquê este nome?
O nome tem a ver com aquela ideia de resistência, ter uma chama que nunca se apaga, uma espécie de guerrilha criativa, de nunca deixar que os fatores à volta condicionem a nossa existência artística. Como também o que faço não é algo muito comerciável nem ligado a editoras ou agências consolidadas de mercado, mantém-se sempre no lado alternativo da música. O nome reflete o cariz independente com que eu optei por criar e trabalhar.

Quais as tuas influências?
As minhas influências são vastíssimas. Desde os cantautores e crooners lá de trás no tempo até ao rock, à música industrial ou à música do mundo, mais tradicional… muita coisa me influencia. Agora, passados 15 anos com The Partisan Seed e seis álbuns depois, já consigo olhar de fora para o que tenho vindo a fazer e há sempre algumas coisas que começam a – digamos que – definir mais ou menos o que é isto (porque nada é premeditado, surge tudo espontaneamente). E lá estão os traços óbvios dos grandes songwriters americanos, assim como a minha tendência para a criação de bandas-sonoras de filmes que acontecem na minha cabeça e, que de alguma forma, ajudam a dar uma identidade própria a cada disco.

Em 2021 passam 15 anos desde a edição do primeiro disco, “Visions Of Solitary Branches”. O que mudou nestes 15 anos?
Em mim e na forma de olhar a estética de The Partisan Seed, mudou pouca coisa. Mantenho o gosto em usar uma produção simples, evitando encher as canções de arranjos e instrumentos, de forma a ter sempre em evidência o esqueleto das canções como elas são feitas. Tenho sempre em mente que gravar um disco com The Partisan Seed tem de ser descomprometido e sincero, como foi no “Visions…”, mantenho isso. Sento-me a gravar como se me fosse sentar para apenas tocar para mim, sem pensar em grandes arranjos prévios, nem ter muitos planos de som, nem sequer querer prever o final. E preservo o enorme gosto de tocar ao vivo, de poder viajar com estas canções por todo o lado e encontrar pessoas que se relacionem com aquilo que eu faço.
No resto, à minha volta, mudou muita coisa. Nos últimos anos apareceu uma forma de estar que vive na ideia da profissionalização da música. É muito bom por um lado porque é necessário por uma questão de profissão, mas por outro lado sinto que as coisas são feitas com menos paixão – mas com mais eficácia imediata, as bandas aparecem e desaparecem logo a seguir, a novidade é a regra. Há a lamentar o facto de já não há grande memória do público e de alguns novos músicos (que cada vez mais se centram no que surge no momento e é desconhecedor de uma história) e o jornalismo musical a sério que está a desvanecer e a dar lugar ao corporativismo e pequenos monopólios (que também contribuem para a crescente preguiça e falta de know-how do lado da programação), havendo cada vez menos espaço para se ser um artista independente e descentralizado. Este parece-me ser o paradigma actual. Sinais dos tempos como os leio, mas também pressinto que são como as vagas que vêm e vão – a certos momentos esta forma de estar instala-se naquilo que chamam de indústria musical, quando o vemos numa perspetiva histórica. Mas, como disse o Leonard Cohen, “o sucesso é a sobrevivência”. E eu por cá continuo, fiel à minha visão, à margem ou não, a fazer de coração o que me sinto impulsionado a fazer.

Entre 2020 editas dois EPs de covers “Home Tapes Vol. 1 e Vol.2”. Significa isto que o isolamento e o confinamento foi produtivo para ti?
Não fui mais produtivo do que costumo ser. Até acho que o confinamento matou muito da minha atividade e vontade criativas. Em Março de 2020 estava a meio de uma tour de apresentação dos dois EPs que gravei em nome próprio e em português. Foi tudo adiado e, posteriormente, foi sendo tudo cancelado até não sobrarem datas. Para além de outros projetos ligados às artes plásticas, ao teatro e à dança que estava a trabalhar terem sido muito afetados. Bastante difícil esse período e do qual ainda se sentem obviamente os efeitos, há muita coisa que ainda não consegui voltar a agarrar.
Com os dois volumes de “Home Tapes” simplesmente registei aquilo que faço quando pego numa guitarra, quando toco músicas de outros. Foi uma boa sensação, mas na realidade representou uns três dias à volta disso (a gravar e a misturar), não houve concertos, não teve seguimento. Mas soube bem, foi essencialmente uma partilha.

Quatro anos passados desde o obscuro e solitário “Insomnia”, surge agora “Old Songs For a New Sun”, o sexto álbum. O que nos queres transmitir com este disco?
Este disco é feito de músicas com muitos anos, alguns dos temas que nunca entraram em discos anteriores – tudo músicas escritas entre 1998 e 2002. Ou porque não me soavam bem e ficaram de fora (por falta de, por exemplo, um bom som de piano acústico ou até pelo teor das letras) ou porque não faziam sentido na altura. Decidi juntar algumas dessas canções que ficaram guardadas e gravá-las para fazer um disco único e é precisamente isso que lhe dá a identidade. Daí o nome “Old Songs For a New Sun”, músicas antigas revisitadas com uma nova luz.
São canções muito íntimas, como costumam ser as minhas canções com The Partisan Seed. Do mais íntimo que tenho, são a minha vida e dos que me rodeiam e me completam. Não foi de propósito, mas olhando posteriormente para as letras, notei que visito frequentemente a minha infância e o meu crescimento como pessoa: visões de aulas de piano no colégio de freiras, as abelhas no meu bairro, a liberdade que nos davam para andarmos à solta, tanta coisa… tudo isso conjugado com as descobertas típicas da adolescência e início da idade adulta, como o romantismo ou a grande poesia, por exemplo (musiquei as palavras do Robert Desnos no primeiro tema do disco). A morte e as formas de lidar com esta nossa breve passagem pelo mundo também estão lá, bem à frente do que quero transmitir. Para além disso, incluí dois temas instrumentais compostos nos anos 90, um deles uma viagem bem longa e que fecha o disco (quase uma segunda parte do disco), que são muito importantes para mim na minha relação com a guitarra.

Tiveste ajuda na produção e gravação dos disco? E contaste com algumas participações, fala-me sobre elas…
Sim, neste disco contei com a ajuda crucial do José Ferreira que é um jovem músico, técnico e engenheiro de som com muito talento em várias áreas. Graças a ele, o álbum tem este som bonito e natural. Ele foi muito importante em todos os aspetos, técnicos e musicais, produzimos ambos o disco. Tive também a participação da Lisete Santos na voz, do José Almeida em teclados e guitarras e do João Miguel Fernandes na bateria, percussão e coro. Para além destes belíssimos músicos, tenho de referir o Tim Khan ao qual fui pedir emprestada uma gravação de campo, som de mar. Há também no álbum uma gravação que estava perdida – do tema “Mediterraneo #2” – que foi feita com o José Arantes por volta do ano de 2007 e que fui recuperar com a ajuda do Patrick Esteves para a poder incluir no disco.

A edição física é limitada a quantos exemplares? Quando estão disponíveis e como se podem adquirir?
A primeira edição é muito limitada e está apenas disponível online e nos concertos, não em lojas. Desde o “SpiritWalking” que deixei a distribuição em lojas, não me fazia sentido ter uma distribuidora – com exceção da venda na Fnac por causa de alguns showcases que fiz. Com os pedidos pela internet e as vendas em concerto, já só tenho uns cinquenta e poucos discos. Mas há também uma edição holandesa pela King Forward, e também ela disponível em encomenda online.

Como foi regressar aos concertos? E j tens mais datas que nos possas adiantar?
Está a ser bom regressar. Toquei há pouco no Theatro Gil Vicente em Barcelos e no jardim do Museu Abade de Baçal em Bragança. No primeiro, foi um ambiente de teatro, formato banda; em Bragança, foi num ambiente de proximidade, foi de tarde, teve uma oficina de artes plásticas, algo mesmo familiar. Muito agradáveis ambos nas suas diferenças! Tenho feito outras coisas em palco ultimamente, mas mais ligado às bandas-sonoras e à performance, onde existiu uma distância maior com a plateia. Por isso soube muito bem poder falar descomprometidamente com o público sobre várias coisas e beber uma cerveja no fim, foi quase como reaprender a tocar as minhas canções e estar com outras pessoas à volta de um concerto, músicos, amigos, público, técnicos, produção…
Entretanto, em Julho, vou tocar no Descentrar no Núcleo Museológico de Dume (em Braga) e em Agosto no Maus Hábitos no Porto e no Parque da Devesa no Devesa Sunset em Vila Nova de Famalicão. Neste último vou ter uma banda maior comigo, ainda mais completa, e vai ser uma oportunidade de partilhar o palco com a Luísa Sobral, que é uma compositora que gosto muito. A partir daí – apesar de uns convites que estão no ar – ainda não há datas fixas desta tour, mas pelo menos mais um concerto com banda completa vai acontecer entretanto. É uma questão de vermos como se desenrola todo este processo de auditórios e a possibilidade de se fazerem concertos.

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