À Conversa com Benjamim

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De Lisboa para Londres, e de Londres para o Alentejo. Pelo meio deixou cair o Walter e renasce Benjamim. Luís Nunes regressa com “Auto Rádio”, um disco cantado em português, cheio de emoção e alguma nostalgia. Benjamim regressa às origens.

Moraste em Inglaterra. Regressaste agora a Portugal. Porquê o Alentejo e porquê o Alvito em especial?
Porque sou apaixonado pelo Alentejo e já parava por Alvito desde os dez anos. Sempre sonhei viver no Alentejo e agora foi a altura ideal, uma vez que precisava de tempo e espaço para gravar o disco.

E nessa trajetória qual o papel de Lisboa?
Lisboa é a cidade onde nasci, cresci e vivi até aos 23 anos, altura em que mudei para Londres. É a minha cidade, claro. É onde tudo começou.

O que é que te fez voltar?
Querer escrever canções em português, no fundo fazer este disco. Foi uma ótima motivação para voltar a estar perto da minha família e dos meus amigos mais antigos. E uma excelente razão para me despedir e poder dedicar-me só à música.

Já agora onde fica o Porto no meio de todas estas tuas mudanças? Também tens raízes por lá, certo?
Somos portugueses, todos nós temos raízes em montes de sítios. O Porto é a cidade onde nasceu a minha mãe e Braga a cidade da minha avó. As mulheres da minha família são todas do norte, isso tem implicações muito profundas na dinâmica familiar, como dá para imaginar. As mulheres do norte têm uma personalidade bastante forte…

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1974. Fim da Guerra Colonial. Inicio do processo de descolonização. Chegada a Lisboa dos “retornados”. Nessa altura o teu pai volta a Portugal. O que é que ele te transmitiu acerca de Angola e de todo este processo de regressar à metrópole?
Tanta coisa… Desde criança que ouço falar de África, essa terra distante que só conhecia através dos relatos incríveis do meu pai, que tem sempre boas histórias para contar, ou dos filmes Super8 que ele projetava de vez em quando para eu e o meu irmão vermos. Não conheci os meus avós, parece que foi uma parte de mim que ficou guardada num sítio muito distante, quente e exótico.

Há no teu mais recente disco uma certa nostalgia. É propositada ou foi acontecendo?
Acho que tenho um lado nostálgico, talvez tenha herdado isso dos meus pais. Sempre gostei da nostalgia na música, é onde reside a maior beleza porque é o que te faz viajar. É quando a música mexe mais comigo.

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Porquê “Auto Rádio”?
Porque o disco é incoerente como qualquer boa emissão de rádio e no carro é onde eu ouço mais rádio. Também foi durante muitas viagens de carro entre Lisboa e o Alentejo que fui pensando nestas canções. Por último, a ideia da viagem é algo que tem tudo a ver com o meu percurso pessoal nos últimos anos, a noção de casa passou a ter vários significados.

Conta-nos a história desse Volkswagen Golf e como surgiu a ideia da tournée?
Era o carro da minha mãe. Foi o primeiro carro que conduzi e com o qual tive o meu primeiro (e único… Benjamim bate na madeira…) acidente. É uma carrinha e sempre deu jeito para transportar os meus pesados instrumentos. Por ser tão essencial e perfeita acabei por herdá-la. Já tem muitos riscos e não faço grandes cerimónias com ela, carrega muitos instrumentos… Temos uma relação de amor, eu ponho música alta e fazemos grandes viagens, como a que aconteceu no Verão. A ideia surgiu numa noite de copos na Taberna do Arrufa em Cuba do Alentejo. Eu e o Gonçalo Pôla, realizador do vídeo do primeiro single, “Os teus passos”, pensámos que seria lindo passar o Verão a tocar para as pessoas pelo país fora. Eu apostei que a velha Volkswagen ia aguentar e assim foi. 5675 Km.

A nós que fomos criados na década de 70 e 80 e que também fizemos parte tanto dos “retornados” como dos outros que viviam no Alentejo, o teu disco trouxe muitas memórias. São referências fortes aquelas que ali tens. De onde vêm? O que te dizem cada uma delas?
Acho que tive mais consciência disso quando eu próprio andei a viver lá fora. Acho que isso nos dá uma perspetiva diferente do país e de quem somos. É uma espécie de choque de identidade. Claro que tenho a minha narrativa familiar que deixou marcas fortes no meu imaginário. E é engraçado que só agora que escrevo em português é que posso realmente explorar universos que são realmente meus e usar um imaginário que realmente foi construído desde a infância. No caso da canção em que falo do Quinito que foi para a Guiné, usei a história de um amigo que mora em Alvito. E em Alvito toda a gente sabe que o Quinito foi para a Guiné. A minha geração não imagina o que seria chegar à maioridade e ser enviado para uma guerra em África. Mas este também é o país onde um tirano como Salazar é o “maior português de sempre”. É o maior lá da aldeia porque a aldeia não tem memória. Por isso é que as canções são tão importantes, ajudam a criar memória.

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Quais foram as tuas mais fortes influências ou se preferires referências ao construíres este disco?
Foi do Quinito aos Beatles. Já dei esta resposta mas é a minha preferida.

Tiveste colaboração dos teus amigos de sempre. Só assim fazia sentido?
A música faz muito mais sentido quando a podes fazer com alguém. Se são pessoas que gostam de ti, elas vão acrescentar algo de muito positivo e só vai enriquecer a música. É um trabalho de amor e isso só pode ser feito com amizade. As pessoas sentem se as coisas foram feitas com amor, a música fica logo melhor. Fico cansado de estar muito tempo a gravar sozinho.

Aparece por lá o radialista Pedro Ramos. Como surgiu essa colaboração?
O Pedro Ramos foi o meu primeiro herói da rádio, sempre adorei a maneira apaixonada com que ele faz rádio. É uma figura quase mística. Tive a sorte de o conhecer há uns anos e fomos ficando amigos. Foi ele que me convidou para fazer as versões de Smiths ainda como Walter Benjamin no Lux, numa das noites Black Baloon. Essa noite foi extremamente importante para mim porque foi o primeiro grande concerto que dei quando voltei para Portugal e esgotou. Foi uma coisa arrebatadora e que me deu imensa força para continuar, e razão por ter voltado. Foi também numa noite Black Baloon que matei o Walter Benjamin, acho que fazia todo o sentido ele fazer parte deste disco. Gosto que a minha música se misture muito com a vida real e envolver as pessoas de quem gosto. Agora tenho o Pedro Ramos na emissão do meu Auto Rádio. Como não?

O Walter Benjamim desapareceu para todo o sempre ou está apenas adormecido?
Está adormecido para sempre. Não vejo razão nenhuma para voltar a escrever em inglês ou cantar aquelas canções. Escrever em português ainda tem muito para aprender mas abriu-me uma porta que nem sabia que existia, faz muito mais sentido para mim agora. Acho que uma vez aberta essa porta, já não há mais volta a dar.

O facto de estares no Alentejo influenciou de alguma forma o resultado final do disco?
Influenciou muito. O Alentejo foi a paisagem para fazer este disco, o calor e o cheiro também lá estão. As histórias, o vinho e a madeira do estúdio, tudo isso é parte fundamental deste disco. Também por isso é que eu pedi às pessoas de Alvito para dançar no vídeo, queria que elas fizessem parte do vídeo porque já faziam parte do disco. Queria que elas soubessem isso e fossem parte ativa. O Quinito dança no vídeo…

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E agora, o que se segue na vida de Benjamim e do seu “Auto Rádio? Mais concertos?
Espero ter muitos concertos, estou a adorar tocar de novo ao vivo. Foram dois anos enfiado no estúdio, desde o meu disco passando por muitos outros discos de outras bandas. Agora quero tocar as minhas canções e viajar por aí. Depois haverá outro disco!

Por falar em concertos, qual tem sido a reação do público?
Muito surpreendente! Estou a adorar dar concertos e todos nós sentimos o calor das pessoas, é incrível! Deve haver muitas pessoas que não gostam mas tenho sentido que as pessoas têm estado geralmente abertas àquilo que temos para cantar.

Deixa-nos as datas dos próximos concertos.
A 03 de Outubro toco no Teatro Municipal Baltazar Dias, Funchal. Em Lisboa toco no dia 10 de Outubro no Príncipe Real e em Novembro no Vodafone Mexefest. Mas o melhor é mesmo ir espreitar o facebook (www.facebook.com/eusouobenjamim) para informações sempre atualizadas!

https://www.facebook.com/eusouobenjamim?fref=ts

Por: Sandra Pinto
Fotos: Gonçalo Pôla

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