Test: “Ao longo da história sempre foi assim: as editoras querem lucrar”

Os Test têm sido reconhecidos como uma das bandas mais originais de death/grind dos últimos tempos. Com apenas dois elementos, João Kombi (vocalista e guitarrista) e Barata (baterista), surgiram em 2010. Rapidamente ficaram conhecidos ‌‌por‌ ‌‌ocupar‌ ‌‌espaços‌ ‌‌públicos‌ ‌‌ao‌ ‌‌realizar‌‌ concertos ‌‌na‌ ‌‌rua, ‌e também ‌à porta de ‌‌grandes‌ ‌‌eventos‌ ‌‌de‌ ‌‌heavy‌ ‌‌metal.‌ ‌

Por Sandra Pinto

Tendo já partilhado o palco com grandes nomes como King Diamond, Napalm Death, Carcass, Exodus, Irmãos Cavalera, Brujeria, Mayhem e Sepultura, entre outros, a banda brasileira regressa Portugal para atuar no SWR Barroselas MetalFest. Falámos com eles durante a tour que realizaram na Ásia.

Como surgiu o projeto?
João – Test completa 15 anos em 2025 15, são mil shows feitos em inúmeras turnés dentro e fora do Brasil. Pensando que o projeto surgiu totalmente sem pretensões, a ideia inicial era somente gravar uma demo, pode dizer-se que esse monstro saiu do nosso controle.

Como surgiu a iniciativa de tocar na rua nas saídas de grandes shows com um gerador a bordo de uma Kombi?
Barata – É bem mais fácil do que marcar um show, divulgar, chamar o público. Tudo já está lá pronto, tudo que a temos de fazer é ir com o nosso equipamento. E também, nos shows grandes, vêm pessoas de todo o país, dependendo do show até de outros países, é um público que dificilmente conseguiríamos atingir fazendo somente um show pequeno na nossa cidade.

A banda já dividiu palcos com grandes nomes. Como aconteceu a passagem para o lado de dentro dos concertos e qual o mais memorável?
Barata – Acho que foi uma passagem natural. A banda foi se apresentando mais, chamando mais atenção, ficando mais conhecida. Os convites foram surgindo e também fomo-nos convidando para esses shows. O primeiro que vem à minha mente foi com Napalm Death, em Buenos Aires.

Shane Embury, baixista do Napalm Death, e os irmãos Max e Iggor Cavalera são vossos fãs e Iggor Cavalera, elegeu Barata como um dos 9 melhores bateristas de todos os tempos. O que é que isso significa para vocês?
Barata – Do lado pessoal, como fã, é sensacional. Saber que eles gostam e consomem a música que a gente faz. E do lado profissional também, sempre é legal ter isso lembrado, ajuda um pouco a quem não nos conhece a interessar-se e procurar conhecer-nos.

“Fazemos músicas pra filtrar, não pra somar.” Explica esse conceito, uma vez que o Deathgrind já tem a companhia de outros estilos.
João – Isso foi uma crítica a todas as bandas que fazem um som muito parecido com algo que já existe. Acho importante procurar algo diferente, tentar ter uma identidade por mais difícil que seja.

Desafiador e questionador de conceitos fizeram alguns shows com mais de 14 músicos TEST BIG. Pretendem voltar a fazer concertos nesse formato futuramente?
Barata – Não por agora, mas num futuro sim. Queríamos muito trazer esse projeto para a Europa, mas como são muitas pessoas a logística e o preço dificultam muito.

A experimentação é algo que vos agrada? Qual a importância que vocês dão à imagem e porquê um disco sem som?
Barata – A mim agrada-me muito. Nos shows eu estou sempre experimentando sons diferentes, ritmos e batidas diferentes. Tento sempre trazer algo do que estou a escutar, de um estilo diferente do rock, para bateria que toco em Test. Desde o jazz até à batida de um repique de escola de samba. Tento sempre experimentar nos shows.

Em 2022 lançaram a longa metragem “Um Disco Normal” que estreou no Festival Internacional do Documentário Músical In-Edit. Falem-me sobre este projeto.
Barata – Quisemos mostrar um pouco como criamos as músicas, de as gravamos nós mesmos, que as bandas não precisam de equipamentos caros para gravar um disco. Mas também quisemos experimentar lugares, microfones, instrumentos e formas de registar um trabalho sem usar o método estabelecido de gravação. Foi uma felicidade muito grande a exibição do documentário no In-Edit Brasil, principalmente porque a estreia foi na Cinemateca Brasileira, o lugar mais importante do cinema brasileiro.

O álbum “Disco Normal” saiu em maio de 2023 terá somente cópias físicas, sem publicação nas plataformas digitais, porquê esta escolha?
Barata – Para vender mais discos físicos (risos). Outros motivos também, como ser contra o modelo de negócio do Spotify, que explora os artistas. Mas não demorou muito e colocamos o disco no Bandcamp e no YouTube. Aliás, toda a nossa discografia está no Bandcamp.

Por falar em “Disco Normal”… acho que o trabalho pode ser muitas coisas, mas não normal. Qual a ideia em batizar o álbum assim?
Barata – Talvez esse seja o nosso normal (risos).

Como analisam a indústria musical atual?
João – A indústria em si é meio confusa, meio bagunçada, as pessoas que têm dinheiro para investir, como as gravadoras e empresários levam mais em consideração números de Internet dos artistas do que qualquer outra coisa e vivemos numa época onde existem muitos artistas, muita oferta, muita gente tocando por hobby, pelo que é difícil fazer um trabalho mais profissional.

Não têm editora: O que estas devem fazer para ter uma melhor relação com as bandas?
João -Ao longo da história sempre foi assim: as editoras querem lucrar. A diferença é que antes elas ganhavam muito com a vendas de discos e por isso investiam mais nos artistas, hoje em dia parece ser tudo mais descartável. Acho que elas tinham que entender mais sobre os artistas com que estão a trabalhar e entender mais sobre a cena como um todo.

Os vossos registos de vozes não são necessariamente limpos, mas fogem dos berros tradicionais. Porquê esta opção?
João – É algo natural. Quando estamos a criar não paramos para pensar no que estamos a fazer, as coisas simplesmente saem assim, é difícil explicar.

Costumam pedir a amigos ou músicos que admiram que escrevam as vossas entras. Por quê? Não gosta do processo de criação das letras?
Barata – Eu nunca tentei escrever uma letra, e acho que o João também não. Temos muitos amigos e amigas com bastante talento e que gostam de participar da banda, então acaba por ser mais fácil para nós. E é mais legal ter os nossos amigos a participar nas músicas.

Estão numa tour na Ásia e chegam em breve a Portugal para participar no SWR Barroselas MetalFest. O que podemos esperar do concerto?
Barata – Totalmente diferente do show que fizemos da outra vez que tocámos no festival. É um show só com músicas do nosso último lançamento, “Disco Normal”.

E o que esperam vocês do público português?
Barata – Da última vez que tocámos em Portugal, o público foi muito recetivo, fizemos amizades e nos demos muito bem. Espero a mesma coisa para os próximos shows em Portugal.

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