20 anos de SBSR: à conversa com Jwana Godinho

Jwana Godinho

Continuamos a celebrar o 20.º aniversário do Super Bock Super Rock que este ano regressa a Lisboa, mais exatamente ao Parque das Nações. Desta feita desafiámos Jwana Godinho, programadora do festival e que na promotora Música no Coração tem a responsabilidade de contratar os artistas, a cantar connosco os parabéns partilhando memórias e revelando expectativas.

Porquê voltar a Lisboa?
Porque não voltar a Lisboa, digo eu. O Super Bock Super Rock é conhecido por ser um festival camaleónico, que a par além de uma constante qualidade musical tem a capacidade de se reinventar sempre em formatos diferentes. O Meco foi um dos sítios onde estivemos mais tempo, mas já passámos por espaços muito diferentes, já tivemos formatos de festival muito distintos e, achámos que estava na altura, quando o festival celebra 20 anos, de fazermos novamente uma reinvenção do modelo Super Bock Super Rock. Ao mesmo tempo que queremos celebrar, queremos também estabelecer uma ligação à primeira edição, a qual teve lugar ao lado do rio.
Queríamos, por um lado, ter uma faceta mais lisboeta, mas cosmopolita e que tem muito que ver com o próprio público do festival, mas queríamos também ter boas condições de acesso e técnicas que nos permitissem um regresso em grande, e de facto o Parque das Nações tem isto tudo. Aqui encontramos condições privilegiadas para podermos realizar espetáculos com a qualidade que é obrigatória e que queremos continuar a imprimir ao festival. Por isso mesmo, Lisboa fazia sentido, o rio fazia sentido e o espaço do Parque das Nações fazia sentido, não só por ser um espaço icónico d cidade, mas por ter precisamente essas condições. De facto, não existe em Lisboa outro espaço com acessos tão bons.

Do pouco tempo que tiveram no Meco criou-se uma relação forte entre o festival e o público que já tinha aquele como o espaço do Super Bock Super Rock. Parece-nos que há muita gente que não está muito de acordo com este regresso a Lisboa…
Isso é perfeitamente normal, e se isso acontece é porque demos uma boa experiência de festival durante o tempo que estivemos no Meco. mal seria se as pessoas ficassem contentes com a nossa saída do Meco! É muito bom perceber que a memória do festival é tão positiva, sendo que temos agora um desafio entre mãos pois queremos que na madrugada de dia 19 de julho as pessoas estejam já tão emocionalmente ligadas como estavam no fim de cada festival no Meco. Obviamente que todos os sítios têm vantagens e desvantagens, mas neste caso acho que, para além do cartaz absolutamente imaculado que temos este ano, a facilidade em se chegar ao recinto, esta proximidade seja de casa, seja dos hotéis é realmente uma mais-valia. Hoje conseguir conjugar o lado urbano e cosmopolita com a música e com o festival é efetivamente uma mais-valia.

Jwana Godinho

Essa urbanidade, esse aspeto cosmopolita foi tido em linha de conta quando se construiu o cartaz?
Tentei levar, sim, mas a verdade é que apesar de termos uma ideia do cartaz que queremos construir, que esteja relacionado com a história do festival e com aquilo que nós achamos que o festival deve ser, temos sempre de levar a cabo algumas adaptações. Se por uma lado temos nomes emergentes, por outro temos nomes que fazem parte da história da música, da história do festival, da história do rock e transportam consigo esse aspeto cosmopolita e mundano. Foi um privilégio termos conseguido fazer um cartaz como este, pois não sendo o cartaz que eu inicialmente idealizei, é, felizmente, um cartaz muito melhor do que o imaginado no início.

Vão existir quatro palcos, mais um do que no Meco. Como se procedeu ao alinhamento das bandas pelos quatro espaços?
No Palco Super Bock, o maior dos quatro palcos, vão necessariamente atuar os cabeças de cartaz, pelo que aí a escolha era bastante fácil e óbvia. Relativamente aos restantes tivemos que levar em atenção a própria consistência do festival analisando sempre o que melhor se encaixava em cada lado. Sendo que a programação, com exceção do Palco EDP que é mais aberto em termos de estilos, passa pelo Palco Antena 3 destinado em exclusivo a artistas portugueses e pelo Palco Carlsberg com bandas numa onda mais eletróncia. Curiosamente quando contratámos a Banda do Mar pensámos que eles estariam melhor a atuar de frente para o rio e para o mar lá ao fundo, aí sim encontrámos o cenário perfeita para aquela banda especifica (risos).
No fundo, o alinhamento também está relacionado com a dimensão em que cada banda se encaixa no palco e com a conjugação dos artistas pelos diferentes palcos, tendo em conta a que não existam conflitos entre os horários, o que é um verdadeiro puzzle!

A que horas vão ter início os concertos?
Vamos começar cedo, pois vamos ter música a partir das 17h00 ou 18h00, sendo que o Palco Carlsberg encerrará mais tarde.

Quanto tempo leva para fazer uma programação de um festival como o Super Bock Super Rock?
Digo sempre que o festival começa a ser feito quando acaba a edição do ano anterior, mas depois existem imensas condicionantes. Por exemplo, no caso dos Blur foi uma contratação bastante rápida no sentido em que só surgiu quando apareceu a noticia do novo disco. Como toda a gente também nós fomos surpreendidos, pois ninguém sabia que isto ia acontecer, logo os Blur não estavam na lista de opções para o festival. Quando de repente sai a noticia do novo disco eles passaram a ser o objetivo principal que queríamos ter no festival. Desta forma, os Blur são um dos nomes fortes do festival, e de todo o alinhamento eles são, simultaneamente, uma das bandas com mais história, mas que trazem ao festival a novidade de lançar um novo disco. É um sonho conseguir tê-los cá.
Se a pergunta for em que alturas é o meu trabalho mais intenso, aí a resposta será entre os meses de outubro e janeiro, altura em que faço a “busca” com o objetivo de contratar.

Jwana Godinho

Até porque tal como vocês há outros a contratar…
Claro! Há outros a contratar em Portugal e lá fora. Aliás, os nossos maiores concorrentes nem são os locais, são sobretudo os outros festivais que acontecem lá fora. Temos um país lindo e maravilhoso, mas estamos muito longe! As bandas não vêm cá simplesmente porque nós temos um tempo maravilhoso, elas ou começam ou acabam aqui as tournées europeias. Hoje, cada vez mais, os espetáculos ao vivo têm uma componente cénica fortíssima, não se resume apenas ao artista chegar, tocar em instrumentos que nós alugamos e dar um concerto. Não é assim que as coisas acontecem, pois os artistas, as bandas trazem uma produção inteira, sendo que muitas vezes chegam por terra camiões carregados com tudo o que é necessário à produção do espetáculo o que dificulta ainda mais a vinda ao nosso país.
Às vezes dizem-me que tenho um trabalho ótimo, mas a verdade é que ninguém tem a noção de que eu passo o dia a ouvir a palavra não! Por cada artista que eu contrato há provavelmente quatro ou cinco que me dizem que não e há outros que, não dizendo de imediato que não, dão a entender que no fim de contas não podem vir…

E isso limita o trabalho?
Sim, mas por outro lado é um desafio maravilhoso! Estar a trabalhar em música é um sonho (risos), e ter a possibilidade de construir uma coisa grande como o festival e depois ter a possibilidade de partilhar isto com toda a gente é muito bom! E, no final ver o sucesso do festival é uma alegria gigantesca (risos).

Além da música o que é que a Música no Coração tem preparado para receber os festivaleiros?
Vão acontecer uma série de eventos, como uma exposição com a história do Super Bock Super Rock, além de outro eventos que celebram a história e vida deste festival.

E a história do festival é um pouco também a história da Música no Coração…
Sem dúvida, as duas histórias confundem-se e completam-se. A capacidade criativa que temos em nos reinventar, de nos desafiarmos constantemente, de não aceitarmos o establishment é também um bocadinho a história da Música no Coração.
Queremos manter uma atitude rebelde e roqueira, a qual está também presente neste regresso a Lisboa. O Meco foi uma loucura, uma linda e saudável loucura, e quando todos pensavam que era ali que íamos ficar tomámos a opção de voltar a Lisboa. Na verdade, voltámo-nos a por à prova, mas é também disto que se faz a música e a vida do Super Bock Super Rock. Tal como um artista quando lança um disco novo enfrenta um desafio ou uma banda quando sobe a um palco para mostrar o seu trabalho também o enfrenta, nós que estamos nos bastidores enfrentamo-lo igualmente perante o público que vai ao festival.

Jwana Godinho

De todas as bandas qual a que não podemos mesmo perder?
É quase como perguntar a quem tem filhos de qual gosta mais ou perguntar a alguém se gosta mais do Pai ou da Mãe (risos). É muito difícil responder pois para mim todas as bandas são um bocadinho meus filhos (risos), falar num nome de uma banda seria injusto para todas as outras.
Todos temos os nosso gostos pessoais e é isso que vale quando se escolhe ver este ou aquele artista. Por exemplo, nunca vi Florence and The Machine ao vivo e estou curiosa para ver. Por outro lado, um dos melhores concertos que eu vi nos últimos anos foi quando vi os Blur em Coachella, foi incrível, tenho memórias fantásticas desse concerto, pelo que estou curiosa para saber como vai ser cá. Benjamim Clementine é outro nome que me desperta grande curiosidade, mas depois há tantas bandas, tantos artistas para ver e escolher!

Jwana Godinho

Qual a memória mais forte que guarda do festival?
Guardo uma memória muito especial e muito boa da edição de 2011, pois na altura estava grávida de 9 meses! Pensava que já não conseguia ir ao festival mas fui, pois o meu filho nasceu pouquíssimos dias depois do festival (risos). Foi um sucesso incrível, pois foi uma edição também ela com um cartaz muito especial.
Sempre que chegava ao recinto de festival tinha uma equipa médica à minha espera (risos), toda a gente sempre muito preocupada comigo mas correu tudo muitíssimo bem. Numa das minhas poucas fotografias de grávida estou em cima de um palco com os Paus a tocar ao fundo a servir de cenário (risos).
São memórias muitos boas as que tenho dessa edição, pois foi nesse ano que tivemos os Arcade Fire e eu confirmei a banda no mesmo dia em que fiz uma ecografia que confirmava que a minha gravidez estava decorrer de uma forma perfeitamente normal (risos). Confirmei dois dos eventos mais importantes da minha vida no mesmo dia com uma diferença de meia hora (risos)!
Foi um emoção inacreditável!

Nos últimos anos era “Meco, Sol e Rock ‘n’ Roll”… e agora?
O rock voltou à cidade!

Leia também a entrevista a Miguel Araújo, diretor de patrocínios da Unicer em https://lookmag.pt/blog/20-anos-de-sbsr-a-conversa-com-miguel-araujo/.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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