Muito calor para o derradeiro dia da edição 2017 do Vodafone Paredes de Coura. A saudade já pairava no ar, mas havia ainda muito para ouvir e viver.

Vodafone Paredes de Coura 2017 Dia IV

Muito calor para o derradeiro dia da edição 2017 do Vodafone Paredes de Coura. A saudade já pairava no ar, mas havia ainda muito para ouvir e viver.

Toulouse > Manel Cruz

Ao quarteto de Guimarães, Toulouse coube a tarefa de, às 18h00 certinhas, abrir as propostas musicais do último dia do festival. Com o sol a pique no dia mais quente desta edição, a banda vimaranense, que lançou o seu primeiro álbum no final do ano passado, “Yuhng”, com o qual tem vindo a receber elogiosos comentários, trouxe a Coura o seu psicadelismo controlado, elegante e suave. Desdobrando a música em diferentes camadas, souberam ser a banda sonora certa para o inicio do dia que no final se viria a revelar memorável.

Enquanto fãs da sua antiga banda, os Ornato Violeta, temos uma atenção redobrada a tudo o que o poeta/escritor/músico Manel Cruz cria. Este ano no Vodafone Paredes de Coura não foi diferente, pelo que à hora previamente marcada lá estávamos nós em frente ao Palco Vodafone para assistir a mais uma prestação do artista nortenho. A última vez que passou por Coura foi com a sua antiga banda em 2012 num concerto inesquecível para o público, inclusive nós que marcámos presença. Agora passados uma mão-cheia de anos regressou a solo para brindar todos com um conjunto de novas canções, como “Beija Flor” ou “Aldeia do Maluco”. Em palco uma enorme orelha em gesso sobressaia do cenário, assim como o torso desnudo de Manel (não há concerto em que não tire a t-shirt, desta vez chegou já sem ela vestida). Bateria, sintetizadores, guitarra e baixo serviram de acompanhamento musical a Manel que durante o concerto foi trocando de instrumento, variando entre o bandolim, o ukelele, a guitarra e o sintetizador. Das letras um verso sobressai e fica a ecoar na nossa memória «Troco a missa por uma chamuça». Sem sequer chegar perto dos Ornato, para grande pena de muitos, Manel termina com “Borboleta”, canção do projeto Foge Foge Bandido. Mais uma vez o efeito surpresa inundou o anfiteatro de Coura trazendo aos rostos dos muitos que o iam enchendo sorrisos de felicidade.

Foxygen > Alex Cameron

Perto da hora de jantar, foi a vez dos Foxygen mostrarem o que valem no palco maior do evento. Sam France, que há uns anos atrás nos tinha surpreendido numa edição do NOS Primavera Sound, entra de óculos escuros em forma de coração, cara coberta de maquilhagem e purpurinas e camisa branca aberta quase até ao umbigo. A pose de rock star da década de 70 já lha conheciamos assim como alguns dos trejeitos, mas não vimos ali o mesmo brilhantismo e encantamento que lhe descobrimos naquela altura no Porto. Culpa nossa? Talvez, mas a verdade é que não sentimos a mesma entrega ou vontade de surpreender por parte de France e seus companheiros. Fica o hino “São Francisco” e a alegre “Follow The Leader”.

Era hora de subir a ladeira de regresso ao Palco Vodafone FM para nos deleitarmos com a simpatia de Alex Cameron. Dono de uma humildade desarmante, Alex (com quem no fim da noite trocamos umas palavras e que nos ofereceu um autógrafo), estava visivelmente agradado com a recepção por parte do público. «Já me tinham dito que vocês eram muito simpáticos e respeitadores, mas não estava à espera de tanto», afirma Alex, enquanto abana a anca e, a bem dizer, o resto do corpo embalando a música que se apresenta certerira para um fim de tarde também ele perfeito. Ao palco, além da simplicidade no trato e da humildade na abordagem, Alex trouxe um alinhamento que, tendo apresentado temas do recente “Forced Witness”, visitou, e bem, o excelente trabalho editado em 2013, “Jumping the Shark”.

Benjamin Clementine > Lightning Bolt

A meio da tarde fomos presentados com uma “prenda” por parte da Universal Portugal e que consistiu na audição exclusiva do novo álbum de Benjamim Clementine, seguida de uma conferência de imprensa com a presença do próprio. Tudo bonito, a magia da música e a simpatia do artista. Chegada a hor de voltar a vê-lo em cima do palco, tinhamos dúvidas como seriam apresentadas aquelas novas músicas ao vivo e qual seria a aceitação por parte do público, já que este se apresenta como um trabalho bem distinto do anterior. A verdade é que nem nós, nem ninguém estava preparado para o que se iria passar na hora seguinte e foi tanto! De fato de macaco e descalço, Benjamin sobe ao palco com o semblante meio timido, posse que durou pouco, pois perante a brutal recepção por parte do público o artista deixou cair toda e qualquer barreira entregando-se de uma forma nunca vista ao público que enchia por completo o festival só para o ver.

Tendo nos confessado no âmbito da entrevista vespertina que gostaria de viver em Portugal, «com cujo povo sente fortes afinidades», depois da fabulosa recepção temos a certeza de que procura já casa! «Obrigado Portugal», afirma para deixar todos ainda mais rendidos. De sorriso a bailar-lhe no rosto, Benjamin apresenta as músicas do novo disco que será lançado já em setembro que ao vivo adquirem uma amplitude muito maior do que em disco, quase parecendo abraçar o mundo com a sua intensidade. De pé à beira do palco ou sentado no majestoso piano de cauda e acompanhado por uma bateria, um baixo e um coro imaculadamente trajado de branco, Benjamin deixa todos rendidos até os que à partida não sentiam por ele grande afinidade. Ponto alto, ou um dos mais altos momentos do concerto quando pede para que se desliguem as luzes e que todos do público fechemos os olhos para com ele cantar o refrão de “Condolence”. «Quero que fechem os olhos. Agora olhem os vossos diabos de frente e cantem-lhes “I’m sending my condolences to fear / I’m sending my condolences to insecurities, pois não temos de ter medo», refere, para de seguida reforçar «eu não tenho medo e vocês também não». Momento inacreditavelmente belo, cuja intensidade ficou espelhada no nosso rosto pelo qual rolaram sinceras lágrimas de emoção e agradecimento.

Ty Segall > Foals

Quando a organização os anunciou para esta edição do festival, o frenesim foi muito cá por casa onde vivem dois grandes fãs dos Lightning Bolt. Por isso, quando a meio da tarde tivemos o privilégio de assistir ao soundcheck do concerto dos norte-americanos, tivemos a certeza de que às 22h20 iriamos viver algo muito especial. Foi precisamente a essa hora que o duo formado por Brian Chippendale e Brian Gibson chegaram ao Palco Vodafone FM. Conhecidos por darem concertos no meio do público, os Lightning Bolt subiram ao palco como se de um altar de tratasse e foi lá de cima que evangelizaram o público que de forma inacreditável não parou um segundo de prestar a maior homenagem de todas: mosh, headbanging e uma explosão incrivel de energia e boa onda. Com a famosa máscara que sempre o acompanha a cobrir-lhe o rosto, o baterista Brian Chippendale lidera as hostes através da agressividade musical de uma banda que consegue, no meio do caos, demonstrar uma elevadíssima qualidade técnica. Claramente um dos mais brutais momentos desta edição comemorativa dos 25 anos do festival, opinião que o nosso David teve o privilégio de transmitir a Brian Chippendale ao cruzar-se com ele no recinto já a noite ia avançada.

«Obrigado, muito obrigado», foi a resposta de Brian Chippendale que de imediato perguntou «e estás a gostar do concerto de Ty Segall?». Na verdade, ainda mal o concerto dos Lightning Bolt tinha terminado já se ouviam as guitarras quase sónicas do imparavel músico visita regular em terras lusitanas, mas que actuava pela primeira vez em nome próprio no festival minhoto. Como não gostar do rock com que inunda o recinto? Depois da descarga de adrenalina do concerto anterior não era fácil a tarefa de Ty. Guitarras, rifs, a bateria a ditar andamentos, mosh a levantar uma quantidade incrivel de pó e de corpos que por sobre as mãos escorregavam até à frente de palco tal ondas num impressionante oceano de gente. 60 minutos de energia que deixaram boas memórias em Coura, em especial quando tocam “Girlfriend”, do álbum Melted, datado do ido ano de 2010.

As honras de fecho desta edição foram entregues aos Foals que não deixaram a tarefa por mãos alheias e deram um concerto que deixou de barriga cheia os muitos fãs. Os que não eram no início do concerto, certamente que o ficaram no final. A banda liderada por Yannis Phillipakis consegue agarrar cada uma dos milhares de pessoas que ali se percebia serem seguidores fiéis da sua música. “My Number” e “Inhaler” foram pontos altissímos de um concerto que fechou com chave de outro a edição dos 25 anos do festival.

Depois do concerto tempo para se cantar os parabéns ao festival e, ao som dos LCD Soundsytem, sermos brindados por uma chuva de confettis e balões. Final verdadeiramente emocionante para uma edição memorável que tivemos o privilégio de viver. Obrigada Vodafone Paredes de Coura!

Conferência de imprensa

Muito calor para o derradeiro dia da edição 2017 do Vodafone Paredes de Coura. A saudade já pairava no ar, mas havia ainda muito para ouvir e viver.
Leonor Dias, diretora de Marca da Vodafone Portugal, e João Carvalho, diretor do festival Vodafone Paredes de Coura e da promotora Ritmos

Na habitual conferência de imprensa onde a organização faz o balanço da edição, João Carvalho, director do evento e da promotora Ritmos, refere que «esta foi a melhor edição de sempre em todos os aspectos: na venda de bilhetes, na qualidade dos concertos (o meu preferido foi Timber Timbre) e nas boas condições para os festivaleiros».

Questionado sobre se quer crescer, responde o responsável que não, «queremos manter este produto gourmet, melhorando sempre as infraestruturas, seja no interior do recinto, seja na zona do campismo». Para João Carvalho o festival chegou ao sucesso que é hoje com a ajuda da Vodafone, «há um entendimento perfeito entre as duas marcas o que tem proporcionado um crescimento conjunto dando origem a um retorno muitissímo positivo».

Já Leonor Dias, diretora de Marca da Vodafone Portugal, refere que «a minha maior emoção no festival foi quando subi ao palco no concerto dos Future Islands e vi o habitat natural da música cheio de pessoas o que me fez ter uma tremenda sensação de orgulho pelo que conseguimos fazer aqui». «Para mim», revela a responsável «a palavra que melhor resume esta edição é sucesso».

No final foram reveladas as datas para 2018, sendo que «vamos regressar a 15, 16, 17 e 18 do próximo ano», revela João Carvalho.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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