Tindersticks na Aula Magna. Melancólicas canções de amor

Contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que já os vimos ao vivo, mas a verdade é que a cada novo encontro a emoção não diminui, nem a nossa a ouvi-los, nem a deles a tocar para nós. Falamos dos Tindersticks que neste início de 2020 regressaram a Lisboa.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

A sala escolhida para este reencontro foi a Aula Magna, onde a banda britânica já não actuava desde 2011, e o pretexto da visita a Lisboa o lançamento do seu mais recente registo discográfico, No Treasure But Hope. E, de facto, não podia haver melhor motivo, pois, mais uma vez, a banda britânica ofereceu aos fãs um trabalho de grande qualidade que ao vivo ganha uma elegância ímpar.

Com 12 álbuns editados, os Tindersticks alcançaram mais um ponto alto na sua carreira com o lançamento de No Treasure But Hope. Apesar deste se apresentar como um trabalho com todas as características de um clássico dos Tindersticks, a verdade é que No Treasure But Hope surge como um dos seus trabalhos mais sensuais e luminosos, trazendo canções que transmitem novas formas de esperança, amor e melancolia.
Precedido pelo lançamento dos singles “The Amputees” e “Pinky in the Daylight”, o mais recente trabalho do grupo de Nottingham apresenta uma beleza, que lentamente, toma conta dos nossos sentidos. Perceber como iria funcionar aquando da sua apresentação ao vivo era a grande expectativa da noite.

Com uma Aula Magna esgotada, todos esperávamos ser atingidos pelo cupido da beleza que reconhecemos em cada tema da banda. Esperávamos magia e foi exactamente isso que os Tindersticks nos ofereceram.
Uma noite mágica onde Stuart Staples e seus companheiros souberam, com a mestria e a experiência de uma das bandas referência da terra de Sua Majestade, cativar a nossa atenção e reganhar o nosso coração. Numa mistura de sentimentos, o alinhamento foi intercalando entre os temas do novo disco e algumas pérolas resgatadas de uma longa carreira de 28 anos.

Uns minutos depois da horas marcada, sala é inundada pelas notas de “A Street Walker’s Carol”, um instrumental inédito composto por David Boutler que surge no EP See My Girls. Pouco depois, Stuart Staples e os seus companheiros sobem ao palco. «Boa noite», cumprimenta delicadamente Stuart. Depois foi deixar a magia acontecer.
O som sublime e delicado de “The Amputees” inunda a sala lisboeta abrindo uma noite rica de emoções. Logo ali percebemos que nenhum do encanto de No Treasure But Hope se perde numa apresentação ao vivo, antes se amplifica gerando em nós um sentimento de entrega total à música.

Nas suas apresentações ao vivo, a banda é conhecida por resgatar temas antigos e quase esquecidos. Em Lisboa não foi diferente. Assim, no alinhamento da noite seguiram-se “Before you close your eyes”, do registo de 1999, “Simple Pleasure”, e a delicadeza de “Running wild” retirado do belíssimo “Waiting For The Moon”, lançado em 2003.
“How he entered”, música do mais recente registo, foi bem acolhida pelo público, mas não tão bem como o clássico “Medicine”, reconhecido por todos logo aos primeiros acordes. Um concerto dos Tindersticks pode não ser um concerto visual, pelo menos este não foi. E dissemos isto para vos explicar que não foram poucas as ocasiões em que durante todo o evento fechámos os olhos deixando-nos planar na voz tão característica de Staples que por vezes parecia sussurrar aos nossos ouvidos. Quase como estar em casa, a escutar um vinil, ali, na Aula Magna, sentimos que os Tindersticks cantavam para nós.

Pelo meio de um alinhamento tão intenso, houve ainda tempo para recuperar uma versão do tema “Black Night”, lançado em 1966 pelo cantor norte-americano Bob Lind. Depois foi o regresso ao último álbum, primeiro com a majestosa “Trees fall”, seguida da lindíssima “Pinky in the daylight”, para nós uma das mais bonitas canções de No Treasure But Hope.

Se a melancolia é uma das imagens de marca da banda, outra são as palavras de amor, correspondido ou não como em “Her” do álbum homónimo lançado em 1993, “It’s a thin line that I walk for her A thin line that I walk”.

Voltamos a 2019 e a No Treasure But Hope com “Carousel”, para por lá continuarmos com “Willow”, canção introespectiva escrita por Staples e retirada da banda sonora de “High Life” (2018), filme de Claire Denis, realizadora com quem a banda tem colaborado regularmente, colaboração essa que serviu de base a uma das mais belas apresentações que deles vimos em Lisboa, no ano de 2011.

A noite prossegue com a hipnótica “See my girls”, seguida por “The old mans gait” e “Tough love”, todas do registo mais recente. Execuções a roçar a perfeição na apresentação ao vivo de um álbum tão rico e intenso. Se antes falámos de expectativas, estavam elas agora mais do que ultrapassadas.

Não sei se acontece com vocês, mas há músicas que marcam a nossa vida ou determinados instantes dela. “Another night in” desempenha esse papal. Lançada em 1997 no álbum “Curtains”, foi um dos temas que mais nos acompanhou nessa altura. Nunca nos tendo abandonando é, certamente, uma das músicas que mais nos emociona de toda a discografia da banda. A intensidade do piano e o crescente de emoções que cada nota transporta fazem dela um tema memorável, cuja letra nos encanta “Doesn’t matter where she is tonight, Or with whoever she spends her time, If these arms were meant to hold her, They were never meant to hold her so tight”.

Com a noite a encaminhar-se para o final era altura de relembrar o álbum de 2012, The Something Rain com “Show me everything” e a poderosa e intensa “A night so still”, intercaladas com “For the beauty”, mais um belíssimo exemplar de No Treasure But Hope. A visita a 2016 e a The Waiting Room é feita através da intensidade de “We are dreamers”. Terminam a noite com o tema que dá nome ao álbum que vieram promover seguido de “Take care in your dreams” do mesmo registo.

Uma performance de elevadíssima qualidade por parte dos músicos que mostraram ser um todo coeso e bem encadeado. Dan McKinna no baixo poderoso, David Boutler na intensidade do piano, Neil Fraser na cativante guitarra, Earl Harvin na bateria por vezes contundente e noutras subtil e, claro, Stuart Staples, cuja voz melancólica serve de linha condutora a uma história de sucesso, balizando esta relação de amor entre a banda e o seu público fiel.

Alinhamento
The Amputees
Before you close your eyes
Running wild
How he entered
Medicine
Black night
Trees fall
Pinky in the daylight
Her
Carousel
Willow
See my girls
The old mans gait
Tough love
Another night in
Show me everything
For the beauty
A night so still
We are dreamers
No treasure but hope
Take care in your dreams

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