The Mystery of the Bulgarian Voices com Lisa Gerrard, os anjos sussurraram palavras de sonho aos nossos ouvidos

Numa breve viagem ao passado recuamos a 1989. Dezoito anos acabados de fazer, cheios de sonhos e aspirações, éramos participantes assíduos na maior festa do país, a do Avante. No derradeiro ano em que o evento se realizou em Loures, no ano seguinte rumaríamos todos até à Atalaia, vivemos dois momentos marcantes no que a música diz respeito. Se por um lado vimos Billy Bragg, que com as suas letras de intervenção nos encheu o peito de esperança, por outro foi este o ano em que nos deparámos com um colectivo de vozes femininas que não mais deixariam de nos acompanhar. De vestidos coloridos e flores na cabeça, um conjunto de cerca de duas dezenas de mulheres vindas da Bulgária, davam corpo a um grupo que fazia das vozes um instrumento maior.

Ainda hoje, tantos anos depois, lembramo-nos bem da hora em que subiram ao palco, do momento em que começaram a cantar, da emoção que sentimos ao ouvi-las. Falamos de The Mystery of the Bulgarian Voices, o coro vocal feminino da televisão estatal búlgara que no ano anterior, ou seja, em 1988, tinha editado o “Le Mystère des Voix Bulgares, volume II”, pela editora 4AD.

Tantos anos depois foi com a mesma emoção que chegámos à Aula Magna para vê-las. Desta vez na companhia do nosso filho, que tem mais ou menos a mesma idade que nós tínhamos na primeira vez que as vimos. O destino é engraçado, não acham?

Casa quase cheia de um público que se percebia admirador de longa data, antes do concerto conseguimos ter a noção perfeita de como esta é uma música transversal, seja ao nível das gerações (sim, além do nosso adolescente, havia miúdos acompanhados dos pais) ou da proveniência do público (além da língua de Camões fomos ouvindo falar inglês, francês e algo que nos pareceu efectivamente búlgaro).

Formado em 1952 por Philip Koutev, conhecido como o “pai da música folclórica de concerto”, The Mystery of the Bulgarian Voices conjuga no seu repertório interpretações a capella tradicional a seis vozes com arranjos modernos. O resultado é absolutamente soberbo, com a harmonização entre as vozes perfeita. Dirigido por Dora Hristova, o coro é composto por cantoras oriundas de toda a Bulgária. Na sua selecção conta, claro está, a abertura e amplitude das suas vozes, as quais são depois sujeitas a um intenso treino para que o resultado harmónico seja exactamente aquele que por duas vezes já tivemos o privilegio de ver. Ali nada falha. Na base, descobrimos que o coro vai buscar influências à história da Bulgária dando depois corpo a melodias ímpares de um timbre inconfundível.

Duas décadas depois de terem editado o seu último registo discográfico, eis que, em 2018, regressam com um novo trabalho, BooCheeMish. Aclamado pela crítica internacional, o álbum alia o folclore búlgaro, com os cânticos tradicionais e diferentes instrumentos de cordas, como duduk, e percussão. Mas não regressam sozinhas, pois, para com elas colaborar, foram buscar uma deusa que dá pelo nome de Lisa Gerrard.

De facto, a voz feminina do Dead Can Dance não só se juntou ao coro na gravação do disco como o tem vindo a acompanhar numa extremamente bem sucedida tournée. Ora, se já era um privilégio voltar a “ouver” as vozes búlgaras, foi um privilégio ainda maior ver este reencontro coroado com a presença em palco da nossa (não levem a mal a inconfidência) adorada Lisa.

Se ainda há poucos dias a tínhamos visto na companhia de Brendan Perry, nesta mesma Aula Magna com os Dead Can Dance (podem recordar aqui), foi absolutamente surpreendente perceber a fantástica adaptação que a voz de Lisa fez ao coro das extraordinárias mulheres búlgaras. A harmonia foi tal que, se no concerto com a sua banda de sempre “foram os deuses que cantaram para nós”, desta feita foram, claramente, os anjos que sussurraram palavras de sonho aos nossos ouvidos.

No final, dois encores depois, era o rosto de felicidade de Lisa Gerrard o espelho do que de tão maravilhoso se tinha passado ali. Mandando beijos ao público e, emocionada, agradecendo a ovação de pé, distribuiu os aplausos não só pelas cantoras búlgaras, mas também pelos músicos que acompanharam a actuação, e pelo fabuloso beatboxer Skiller que deu um verdadeiro espectáculo que não deixou ninguém indiferente. Uma dica, se não conhecem o seu trabalho não sabem o que perdem. Procurem, pois merece bem a pena.

De coração cheio, saímos da Aula Magna com a certeza de que, por mais voltas que a vida dê, o importante são momentos como este, tenhamos nós 18 ou 47 anos. Obrigada às vozes búlgaras e a Lisa Gerrard por tanto terem contribuído para fazer da banda sonora da nossa vida um enorme LP cheio de emoção e muita qualidade.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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