Televisão em série by Jon Marx

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“Agents of S.H.I.E.L.D.” é uma série produzida pela Marvel e emitida, originalmente, pelo canal norte-americano ABC. Em Portugal pode ser visto através da Fox. A S.H.I.E.L.D. (acrónimo para Strategic Homeland Intervention, Enforcement and Logistics Division) é uma agência de segurança com uma capacidade de intervenção superior à CIA ou NSA, tem como objectivo principal combater o terrorismo e lidar com ameaças de extraterrestres ou supervilões cujos poderes só podem ser anulados com a intervenção de agentes muito especiais. A organização é chefiada pelo comandante Nick Fury, uma espécie de super-soldado com um feitio muito peculiar. Para além de um exército de agentes especiais, a agência supervisiona ainda a actividade dos Vingadores (The Avengers), um grupo de super-heróis que inclui o Thor, Homem de Ferro, Capitão América e o Hulk, entre outros.

A série televisiva não conta com a presença de nenhum dos referidos super-heróis e mesmo o comandante Nick Fury, protagonizado pelo magnífico Samuel Jackson, tem uma breve aparição no primeiro episódio. A narrativa baseia-se nas aventuras de uma equipa de agentes especiais, chefiada por Phil Coulson, um personagem secundário que apareceu de forma fugaz, em vários filmes da série Vingadores que a Marvel tem produzido nos últimos anos.
Quem, como este vosso criado, teve a infelicidade de assistir aos monumentais pastelões que têm saído regularmente para as salas de cinema envolvendo personagens Marvel (a rival DC também se move no mesmo pantanal, mas isso fica para outra ocasião), não podia ter grandes expectativas relativamente a este novo produto televisivo. De facto, daqui não veio grande surpresa. Quem está habituado a ver a S.H.I.E.L.D. envolvida em conspirações que visam a destruição do Universo (se tudo correr bem), com enormes doses de violência gratuita e destruição maciça causadas pelos super-heróis de serviço, depara-se, neste caso, com argumentos que podem bem ter sido recuperados do balde do lixo da sétima temporada dos X-Files (aquela que ninguém viu), que apresentam desafios a um grupo de agentes que parecem um cruzamento dos Famosos Cinco com os apresentadores do Clube dos Amigos Disney.
Os diálogos são tão básicos que fazem o primeiro filme do Thor parecer o Hamlet. Pelo andar da carruagem, ainda vamos ver um cameo do Hulk a ajudar velhinhas a atravessar a passadeira.

PILOT

Também a evitar, mas não tão mau como “Agents of S.H.I.E.L.D.”, a série “Elementary” narra as aventuras de Sherlock Holmes, cuja acção decorre na Nova Iorque do século XXI em vez da Londres do século XIX. Já estão a ver onde isto vai parar, certo?
“Elementary” também passa na Fox, cá pelo burgo, mas é um produto da CBS que transmite, actualmente, a segunda temporada. O papel principal está entregue a Jonny Lee Miller, que teve uma participação na temporada 5 de “Dexter” e apareceu, com mais notoriedade, no papel de Sick Boy em “Trainspotting”, o filme de Danny Boyle. Como Dr. Watson e bimba de serviço, foi selecionada Lucy Liu, atriz de “Charlie’s Angels” e “Allie McBeal”.
Como é óbvio, só com muita boa vontade se reconhece a criação de Conan Doyle no personagem encarnado por Lee Miller. O novo Holmes é um alcoólatra toxicodependente em recuperação, sob a tutela de uma Dra. Watson boazona que coabita (e só isso, por enquanto) com o seu pupilo por ordens do pai dele, até aqui ausente da história.

Se colocarmos de parte a extraordinária capacidade dedutiva, o Sherlock Holmes de “Elementary” só com muita boa vontade poderia ser reconhecido como uma adaptação do Holmes, personagem literária. O que não é mau. Não há qualquer problema em fazer uma adaptação para os tempos modernos de um personagem ligado a uma era mais ou menos longínqua. Mas, no caso vertente, o Holmes actual está tão longe do personagem original que, ver nele alguma recorrência do original é como confundir uma azeitona com uma caganita de uma ovelha. O aspecto pode causar alguma confusão, mas depois de provar nota-se bem a diferença.

O que mais chateia em “Elementary” não são as diferenças que mencionei mas sim as tentativas exageradas de dar um ‘cunho moderno’ ao novo Holmes, uma dependência quase esquizofrénica de uma parafernália de gadgets, a notória sexualidade activa contrastando com o Holmes asceta de Conan Doyle, e a risível dependência tutelar de uma mulher, algo de surreal para uma das personagens literárias mais misóginas de sempre. E depois há Lucy Liu, que anda ali a mostrar a carinha laroca e a encher pneus. Não sendo grande bisca, é mais suportável que as adaptações cinematográficas recentes, que contaram com a participação de Robert Downey Jr.

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Para terminar, reservo o bombom da semana. Ele vai para a terceira temporada de “The Killing”, uma série da AMC, adaptada do original dinamarquês com o mesmo nome. Ambas passaram em Portugal, a série dinamarquesa com o título “The Killing – Crónicas de um Assassinato” para não causar confusões. Infelizmente, perdi-lhe o rasto ao fim de meia-dúzia de episódios e acabei por pegar no sucedâneo norte-americano. E ainda bem que o fiz porque, neste caso, a cópia não fica atrás do original.
O primeiro arco de história, que equivale às duas primeiras temporadas, é uma adaptação do livro homónimo, da autoria de David Hewson. Em Portugal, a série passa na Fox, e ambas as temporadas encontram-se em permanente reposição. A terceira temporada, que deve estar a aparecer por aí, representa um único arco de história, apesar de deixar aberta a porta para uma eventual continuação da série.
A acção é despoletada pelo aparecimento de um assassino em série que actua junto da comunidade juvenil que vive do tráfico de droga e prostituição na cidade de Seattle. A forma de actuar deste criminoso coloca em causa um caso fechado, cujo desfecho – a sentença de morte por enforcamento – está em vias de ser executada.
Tal como nas temporadas anteriores, a narrativa tem um ritmo muito lento, o que lhe transmite um traço muito realista. As diversas reviravoltas que vão acontecendo, surgem de forma quase natural, nunca dando a impressão de artificialidade, o que acontece, frequentemente, em produtos do género.

Outro traço interessante é a forma como se joga com o ambiente sombrio da cidade de Seattle, a permanente chuva que se torna, por vezes, irritante nas cenas de exteriores. Uma caraterística que nos transporta para cenários lúgubres como a Londres húmida e carregada de nevoeiro, cenário dos crimes de Jack, ou a imaginária negra e assombrada Gotham, tantas vezes associada a Nova Iorque, mas tão presente nos cenários de “The Killing”.
Não aconselho a assistirem a “The Killing” ao ritmo semanal da transmissão televisiva. Se puderem, gravem a série e vejam de uma assentada. Por feitio, é assim que vejo quase todas as séries, mas esta, em particular, vale a espera. Com sorte, conseguem apanhar todos os episódios até ao Natal.
SPOILER ALERT: O criminoso não é o Pai Natal. Mas podia bem ser.

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Texto: Jon Marx

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