Sigur Rós no Sagres Campo Pequeno: a insustentável leveza da música
Há músicas que nos acompanham durante anos. Entram em momentos da nossa vida, ficam associadas a lugares, pessoas, viagens ou simplesmente a uma determinada versão de nós próprios. Quando voltamos a ouvi-las, regressa também alguma coisa que julgávamos esquecida. Os Sigur Rós fazem parte dessa história. Fazem parte da vida da LOOK mag e da nossa banda sonora, não apenas enquanto referência musical, mas como uma daquelas bandas que, ao longo dos anos, foram encontrando espaço entre tudo aquilo que nos move enquanto publicação dedicada à cultura alternativa. Por isso, estar no Sagres Campo Pequeno, em Lisboa, a 17 de Setembro, para assistir ao regresso dos islandeses a Portugal, tinha inevitavelmente uma dimensão que ultrapassava o simples acto de assistir a um concerto. Sobretudo porque, desta vez, a música dos Sigur Rós surgia acompanhada pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa e pelo Coro Ricercare, acrescentando novas dimensões a uma linguagem que nunca precisou de tradução para ser profundamente emocional.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Tiago Cortez / Everything is new
À medida que o público chegava, era fácil perceber que havia ali qualquer coisa em comum. Portugueses e estrangeiros, diferentes gerações, pessoas habituadas a concertos de música mais pesada, camisolas de bandas de metal, fãs de post-rock, de música alternativa ou simplesmente de Sigur Rós. Percursos diferentes, mas a mesma expectativa no olhar. Bastava observar os rostos. Havia emoção. Daquela que não precisa de ser explicada. Não era propriamente uma surpresa. Os Sigur Rós sempre tiveram essa capacidade rara de atravessar géneros, cenas e públicos. A sua música encontrou espaço em universos muito diferentes, talvez porque nunca tenha precisado de escolher um só lugar. Pode viver no post-rock, na música experimental, no universo alternativo ou ao lado de quem cresceu a ouvir metal. No fundo, chega onde tiver de chegar. E há uma característica que ajuda a explicar essa ligação: a língua.
Os Sigur Rós cantam maioritariamente em islandês, uma língua que praticamente ninguém naquela sala dominava. E, ainda assim, ninguém parecia sentir falta de uma tradução. A voz de Jónsi transforma-se muitas vezes em instrumento, as palavras tornam-se som e aquilo que poderia ser uma barreira acaba por desaparecer. A música passa a falar por si. É por isso que, ontem, portugueses e estrangeiros podiam viver exactamente a mesma emoção sem partilharem necessariamente a mesma língua. Estava nos instrumentos, na voz, nos silêncios e, sobretudo, nos crescendos. Naquela capacidade muito particular dos Sigur Rós de começar quase do nada e, pouco a pouco, levar uma canção até um lugar onde já não é possível ficar indiferente.
Formados em Reykjavík em 1994, Jónsi, Georg Holm e Ágúst Ævar Gunnarsson começaram a construir uma linguagem própria que rapidamente ultrapassou as fronteiras da Islândia. Desde Von (1997), passando por Ágætis byrjun (1999), ( ) (2002), Takk… (2005) ou Valtari (2012), a banda foi criando uma discografia onde a voz pode ser instrumento, onde as palavras podem perder importância e onde o silêncio consegue dizer tanto como uma parede de som. E há outra constante em tudo isto: o crescendo. Muitas canções dos Sigur Rós parecem respirar. Começam pequenas, frágeis, quase escondidas, e vão ganhando corpo à medida que os instrumentos entram, as camadas se acumulam e a intensidade aumenta. Até chegar aquele momento em que tudo parece finalmente libertar-se.
Em Lisboa, isso não desapareceu por a banda se apresentar num formato diferente. Pelo contrário. A orquestra e o coro mudaram as ferramentas, mas não mudaram a essência. O crescendo continuou lá. A tensão foi-se acumulando. As melodias continuaram a procurar aquele ponto em que deixam de ser apenas melodias e passam a ser emoção em estado quase físico. Foi assim durante toda a apresentação.
No Sagres Campo Pequeno, os Sigur Rós apresentaram-se acompanhados pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa e pelo Coro Ricercare, numa das etapas da digressão orquestral de 2026. O conceito desta digressão passou por trabalhar com formações locais de 41 elementos, levando ÁTTA e temas de diferentes momentos da carreira para um contexto pensado especificamente para orquestra e coro. Ao comando esteve Robert Ames, maestro e arranjador desta digressão. Em Lisboa, coube-lhe ajudar a juntar duas dimensões que poderiam parecer distintas, mas que naquela noite se encontraram de forma muito natural: a identidade dos Sigur Rós e a dimensão sinfónica da formação portuguesa. E o Coro Ricercare trouxe outra camada à música. A voz de Jónsi sempre teve algo de pouco convencional. Muitas vezes não parece estar ali para contar uma história, mas para criar uma atmosfera, uma textura, quase como se fosse mais um instrumento. Ao lado do coro, essa voz ganhou outra dimensão. Deixou de ser apenas uma voz solitária e passou a fazer parte de algo maior.
Não era simplesmente uma questão de tornar as canções maiores. Era ouvi-las de outra maneira. E foi talvez aí que aquela sensação que já se percebia à entrada ganhou verdadeiro significado: uma sala inteira a reconhecer a mesma música, cada pessoa a partir da sua própria história, mas todas a chegar ao mesmo lugar. Quando as luzes baixaram, a conversa à entrada deu lugar ao silêncio.
Blóðberg abriu o concerto. Desde os primeiros momentos, percebeu-se que aquela não seria apenas mais uma apresentação dos Sigur Rós. O tema de ÁTTA começou a crescer devagar, deixando que cada instrumento encontrasse o seu espaço. Quase parecia que a música estava a nascer ali, diante de nós. Blóðberg carrega uma dualidade muito própria. Jónsi já associou a canção à ideia do último suspiro, mas também à imagem de estar deitado no musgo, num perfeito dia de verão islandês, simplesmente a respirar. Vida e morte, fragilidade e beleza. Tudo parece caber ali sem que seja necessário explicar demasiado. As cordas prolongavam a sensação, o coro abria ainda mais o espaço e a música avançava lentamente até ao primeiro grande impacto emocional da noite.
Ekki múkk trouxe novamente essa sensação de suspensão. É uma música que vive do silêncio, da respiração, do que se ouve quando quase nada acontece. Mas nos Sigur Rós o silêncio nunca é vazio. É precisamente ali que a tensão começa a crescer. Depois veio Fljótavík, deixando a música ganhar corpo. Há nela qualquer coisa de distante, de marítimo, de viagem. Uma sensação de estar perante uma paisagem demasiado grande para caber numa sala. A melodia cresce e leva consigo o público, entre a contemplação e aquele estado de quase êxtase que a banda conhece tão bem. Seguiu-se 8, outra passagem por ÁTTA. E então chegou Von. Ouvir o tema-título da estreia de 1997 quase três décadas depois é também ouvir, de alguma forma, a distância percorrida pelos Sigur Rós. “Von” significa esperança. E há qualquer coisa de bonito em ouvir essa esperança voltar a surgir tantos anos depois, agora rodeada por uma orquestra e um coro. O mais impressionante é perceber que o tempo não apagou aquilo que já estava lá.
A música continua a saber começar devagar, a crescer e a chegar ao público. A produção mudou, a formação mudou, a própria banda mudou. Mas essa capacidade de criar tensão e depois libertá-la continua intacta. Andvari, de Takk…, trouxe uma das faces mais melódicas dos Sigur Rós. Depois, Starálfur, de Ágætis byrjun, levou-nos de volta ao período em que a banda começou a chegar a muito mais gente fora da Islândia.
É difícil ouvir Starálfur sem regressar àquilo que tornou Ágætis byrjun tão especial: aquela sensação de que a música existe fora de um tempo e de um lugar concretos. Não é preciso perceber a letra. Basta ouvi-la. E, mais uma vez, a melodia não fica parada. Cresce. Abre espaço. Ganha intensidade. Até que a emoção deixa de estar apenas sugerida e passa a ocupar a sala inteira. Dauðalogn, de Valtari, levou o concerto para um lugar mais calmo. O próprio título remete para uma espécie de calma absoluta e a música vive dessa lentidão, quase hipnótica. Mas mesmo aí o mecanismo dos Sigur Rós permanece. O silêncio prepara o movimento. A contenção prepara o impacto. A delicadeza prepara aquilo que vem depois. A primeira parte terminou com Varðeldur, também de Valtari. Sem pressa, a música foi acumulando tensão até fechar o primeiro capítulo da noite.
Depois da pausa, o segundo set começou com Untitled #1 – Vaka, de ( ), o álbum de 2002 em que os títulos oficiais desapareceram. Os temas passaram a ser conhecidos sobretudo pelos nomes atribuídos pela própria banda e Jónsi levou ainda mais longe a utilização do chamado Hopelandic, uma vocalização sem significado literal. Talvez seja uma das melhores demonstrações de que, para os Sigur Rós, não é preciso perceber as palavras. A música chega primeiro. Untitled #3 – Samskeyti trouxe o piano para o centro. Poucas notas, muito espaço, quase nenhum excesso. É daquelas músicas que parecem não estar a acontecer e, quando damos por isso, já estamos completamente dentro dela.
Ylur e Skel, ambos de ÁTTA, trouxeram novamente o presente para o centro da noite. O álbum mais recente dos Sigur Rós é mais contido, mais íntimo e, em vários momentos, mais sombrio. Em palco, rodeados pela orquestra e pelo coro, esses temas ganharam outra escala. Ylur está associado a imagens de vulnerabilidade e a um futuro marcado pela destruição ambiental. Skel, que significa “concha”, trabalha também essa ideia de fragilidade. Mas a fragilidade, nos Sigur Rós, nunca significa falta de força. Muitas vezes é precisamente daí que nasce o crescendo. Untitled #5 – Álafoss recuperou novamente ( ). O título remete para Álafoss, localidade nos arredores de Reykjavík onde os Sigur Rós tiveram o seu estúdio e onde parte da sua história foi construída. Depois chegou Sé lest, de Takk…, com a sua delicada textura marcada também pela presença da celesta. E então Ára bátur. Aqui, a dimensão orquestral e coral encontrou um dos momentos mais fortes da noite. A música já era expansiva na sua versão original, mas naquele palco parecia ter encontrado exactamente o espaço de que precisava. A voz de Jónsi voltou a deixar de ser apenas voz. Tornou-se parte da arquitectura da música. O Coro Ricercare acrescentou profundidade. As cordas foram abrindo caminho. E o crescendo começou a tornar-se inevitável. Primeiro ocupa espaço. Depois cresce. Depois parece já não caber dentro de nós. Quando chega ao clímax, não é apenas o volume que mudou. É a forma como estamos a ouvir. E talvez seja precisamente esse o propósito desta digressão: não transformar os Sigur Rós numa banda sinfónica, mas mostrar o que acontece quando a sua música encontra novas possibilidades sem perder aquilo que sempre foi.
Depois veio Hoppípolla. É impossível não reconhecer os primeiros momentos. Mas a música não funciona apenas como um exercício de nostalgia. Hoppípolla, de Takk…, nasceu de uma imagem simples e quase infantil: saltar para poças de água, correr, molhar os sapatos, cair e voltar a levantar. Uma memória de infância transformada em música. E, mais uma vez, estava lá o mesmo segredo. Começar pequeno. Crescer. Acrescentar camadas. Deixar a melodia ganhar força. E chegar finalmente ao ponto em que já não conseguimos ficar emocionalmente de fora. Naquela sala havia pessoas que tinham chegado aos Sigur Rós em momentos muito diferentes das suas vidas. Algumas através de Ágætis byrjun. Outras de Takk…, Valtari ou ÁTTA. Outras talvez através do post-rock, do metal ou de outros universos onde a banda se tornou uma referência. Mas quando chegou Hoppípolla, havia um reconhecimento colectivo. Não era preciso cantar em islandês. Não era preciso saber o significado de cada palavra. Em alguns casos, não era sequer preciso saber palavra alguma. A música já tinha feito essa tradução.
O concerto terminou com Avalon, tema instrumental de Ágætis byrjun. Depois de quase três décadas de carreira, dois sets e uma viagem por diferentes momentos da discografia, não era necessário procurar um final maior. A música ficou. E, mesmo ali, no último tema, estava a mesma característica que atravessou toda a noite: a construção paciente até ao momento de maior emoção. A orquestra e o coro mudaram a dimensão dos Sigur Rós, mas não mudaram quem eles são. A intensidade crescente não desapareceu. Mudou de forma. Esteve nas cordas, no coro, na voz de Jónsi, nos silêncios e nas próprias canções. Esteve naquele movimento constante de começar quase em segredo e terminar com tudo à flor da pele.
E talvez seja aqui que o título desta crónica encontre o seu verdadeiro sentido. “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, parte da tensão entre a leveza e o peso da existência. A leveza pode significar liberdade, ausência de amarras, a possibilidade de simplesmente seguir, mas também pode tornar-se insustentável quando percebemos que a vida é feita de momentos únicos, que não se repetem e que, por isso mesmo, carregam todo o seu peso. Há qualquer coisa dessa contradição na música dos Sigur Rós. É uma música que parece leve. Flutua. Paira sobre nós. Está nos silêncios, nas melodias, na voz de Jónsi, nas cordas, nas vozes do coro. Mas essa aparente leveza esconde uma intensidade enorme. As canções começam quase sem peso e, lentamente, vão acumulando camadas, memória e emoção, até ao momento em que já não conseguimos simplesmente ouvi-las. Sentimo-las. Foi exactamente isso que aconteceu no Sagres Campo Pequeno.
Durante o concerto, aquela música pareceu retirar peso à existência. A língua deixou de importar, as diferenças desapareceram e cada pessoa pôde simplesmente estar ali, entregue àquilo que acontecia no palco. Mas, ao mesmo tempo, havia uma consciência quase física de que aquele momento era único. Quando terminasse, não poderia ser repetido exatamente da mesma forma. Talvez seja essa a verdadeira insustentável leveza da música. Música triste? Para uns, sim. Música intensamente emotiva? Para todos, certamente. Mas, acima de tudo, a música dos Sigur Rós preenche aquilo a que temos por hábito chamar alma. Ali, no Sagres Campo Pequeno, essa alma ganhou asas e planou. E quando regressou, vinha preenchida de amor e beleza. Tal como a existência humana devia ser.