Sem concessões, Diamanda Galas foi catártica e visceral numa Culturgest hipnotizada

O concerto de Diamanda Galás na Culturgest foi muito mais do que uma atuação musical. Foi um mergulho emocional sem rede de segurança. Numa noite de silêncio expectante, a artista transformou a sala num espaço de confronto íntimo entre voz, palavra e verdade.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Vera Marmelo gentilmente cedidas pela Culturgest

O concerto de Diamanda Galás na Culturgest não foi apenas um espetáculo. Foi uma experiência que se sentiu no corpo. A sala mergulhou num silêncio quase reverencial antes de a artista entrar. No palco, apenas o piano. Nada mais. Como se tudo o que ali fosse acontecer dependesse exclusivamente da voz, das mãos e da verdade que ela carrega consigo. Desde os primeiros acordes de Pyrenees, a partir de René Char, criou-se uma atmosfera densa, quase mineral. Havia algo de solene na forma como cada palavra era dita, como se o som tivesse peso. A voz de Galás, ora grave e cavernosa, ora aguda e cortante, parecia atravessar a sala, tocar a pele, obrigar à escuta absoluta. Quando interpretou Ramblin’ Man e Pictures from Life’s Other Side, de Hank Williams, o country deixou de ser estrada e tornou-se abismo. As canções ganharam uma solidão crua, quase dolorosa. O piano repetitivo reforçava a sensação de destino inevitável, enquanto a sua voz transformava narrativas simples em confissões dilacerantes.
A literatura trouxe momentos de inquietação profunda. Em El Cómplice, inspirado em Jorge Luis Borges, houve tensão e ambiguidade; em Nausée, a partir de Henri Michaux, a fragmentação vocal fez-se quase física, desconfortável, como se a própria respiração fosse interrompida pela angústia. Já Artemis, evocando Gérard de Nerval, elevou-se como um momento de transcendência, agudos longos, suspensos, que pareciam não querer tocar o chão. Em I’m a Coward, de Johnny Paycheck, a vulnerabilidade foi desarmante. Não havia ironia nem distância: apenas exposição emocional. O público permaneceu imóvel, como se qualquer ruído pudesse quebrar algo frágil.
Foi a meio do concerto, num desses instantes raros em que a intensidade abranda e a artista olha verdadeiramente para a plateia, que Diamanda Galás falou. Com voz serena, quase tímida, disse: “Há muitos anos que os portugueses conquistaram o meu coração.” A frase ecoou pela sala e foi recebida com um aplauso longo, quente, sentido. Não foi uma declaração teatral, foi um momento humano. Um gesto de proximidade que iluminou brevemente a densidade da noite. No encore, Let My People Go soou como um apelo ancestral, carregado de resistência e dignidade. E quando chegou Gloomy Sunday, composta por Rezső Seress com letra de László Jávor, a sala mergulhou numa melancolia profunda. A última nota ficou suspensa no ar, e durante um segundo não me atrevi a aplaudir. Era preciso respirar primeiro.
O concerto terminou, mas a sensação permaneceu. Não foi apenas a impressionante extensão vocal ou a mestria ao piano que ficaram na memória. Foi a honestidade brutal, a entrega sem filtros, a capacidade de transformar cada canção numa experiência quase espiritual. Naquela noite, na Culturgest, Diamanda Galás não procurou agradar, procurou a verdade. E o público respondeu com emoção e gratidão.

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