Pixies no Campo Pequeno entre memórias e o presente

Noite especial a de sexta-feira, 25 de Novembro. O motivo? Muito simples. O reencontro com, não uma, mas duas bandas de quem somos fãs.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

A abrir o serão os Blood Red Shoes, banda originária de Brighton, em Inglaterra, com a qual tivemos o prazer de nos cruzar em Abril de 2010 no Santiago Alquimista, casa de boa(s) memória(s) ali para os lados de Alfama. Desta feita chegaram a palco quatro elementos uma vez que Laura-Mary Carter e Steven Ansell surgiram na companhia de mais dois músicos. Assim ao contrário do habitual duo tivemos direito a um quarteto que de tudo fez para agarrar o público que ali estava para ver os Pixies.

Aliás, foi a eles que Steven Ansell agradeceu quando afirmou «estamos muito contentes por estar a fazer esta tour com os Pixies. Obrigada a eles e a vocês». Meia hora de prestação que a banda aproveitou para revisar alguns temas mais antigos, e para dar a conhecer novas canções. Foi um bom aquecimento para o prato principal que seria servido de seguida.

Duas horas de concerto. Aliás, duas horas e 10 minutos para sermos mais exatos foi o tempo que os Pixies levaram para disparar sobre a plateia cerca de 40 canções! Sim, leu bem, quatro dezenas de músicas que assoberbaram a alma dos que enchiam por completo o Campo Pequeno e que dali saíram de sorriso rasgado no rosto.

Assim que entraram em palco, os Pixies conseguiram a proeza de funcionar para nós como uma máquina do tempo.. não, não estamos em 2019, mas sim em em 1991. Nesse ano era anunciada a vinda a Portugal da banda norte-americana formada em 1986 na cidade de Boston, no Estado de Massachusetts, que estava a dar cartas lá fora mas que nunca tinha pisado solo nacional. Como frontman os Pixies traziam um inacreditável músico, Black Francis (hoje chamado do Frank Black à conta da sua carreira a solo), acompanhado de uma das nossas mais admiradas damas do rock, Kim Deal.

O desejo de os ver ao vivo era imenso do lado de cá do Atlântico, pelo que não foi de estranhar que, quando postos à venda, os bilhetes voaram, um deles para o nosso bolso. Na noite agendada (13 de Junho de 1991) éramos muitos os que rumaram ao Coliseu de Lisboa, sala que, na altura, ainda não tinha sido sujeita às obras que anos depois lhe trouxeram nova vida e maior qualidade. Isto para vos explicar que naquela noite o Coliseu quase veio abaixo, mas, estoicamente, a mítica sala aguentou o embate de ter em cima do palco a banda que todos desejávamos ver mas, ou também, pelo facto de na primeira parte actuarem os Killing Joke (sim, esses mesmos que confirmam presenças em festivais mas que nunca vêm).

Pois naquela noite vieram, e foi verdadeiramente demolidora a sua actuação, à qual se seguiram os Pixies. As memórias dessa noite são, por muito estranho que possa parecer, muito nítidas: os amigos, em especial a amiga que embarcou connosco naquela que foi verdadeiramente uma noite de aventuras, os desconhecidos que partilharam connosco emoções numa comunhão que, sendo nós habitués de concertos e festivais, se via poucas vezes, e a música. Esta primeira incursão dos Pixies em território nacional foi absolutamente demolidora, incrível e memorável. A verdade é que a esta se seguiram mais nove visitas dos norte-americanos a Portugal, das quais vimos três. E, de todas elas, a que mais se assemelhou à primeira foi aquela em 2013 quando, num Coliseu à pinha, fizeram questão de nos lembrar de que raça são feitos: a do puro rock!

Muita coisa aconteceu na vida dos Pixies desde 1991, sendo que para nós a mais marcante foi a saída de Kim Deal, que na nossa opinião ainda não tem substituta à altura, algo que não é culpa de quem a vem substituir mas da enorme qualidade e garra que reconhecemos à também elemento dos The Breeders.

Agora, 28 anos depois (como me dizia alguém no concerto «viste o primeiro concerto!?, pois, tu és velha!»), já não sentimos a mesma adrenalina, a qual foi substituída por um sentimento de agradecimento e comunhão. Agradecimento por ainda cá estarmos quase três décadas depois e de comunhão por podermos fazer parte de uma noite como a de sexta-feira, em que um Campo Pequeno cheio até cima (literalmente) se uniu para cantar os grandes temas dos Pixies.

Aliás, foram exactamente esses temas que tiveram maior impacto junto do público, o que, não sendo de estranhar, nos causou alguma estranheza, uma vez que a banda lançou recentemente um novo álbum, “Beneath the Eyrie”, cheio de boas canções. Ainda não houve tempo para as conhecer, dirão alguns, pois até pode ser, mas não deixa de ser estranho, pois parece que foram todos em romaria prestar homenagem a uma banda “morta” e os Pixies mostram com o novo disco que estão bem vivos.

Claro que os grandes temas não faltaram no alinhamento e nem falharam o alvo fazendo com que todos dançassem ao som deles, e no final fossemos todos para casa a cantar “Gigantic”… graças a quem? Claro, graças à grande Kim Deal que a compôs em 1988 para o álbum “Surfer Rosa, lançado no mesmo ano!

Blood Red Shoes

Pixies

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