Noite (de ressaca eleitoral) com Andrew Bird

De fato e camisa branca, Andrew Bird sobe ao palco do CCB para mais uma noite de Misty Fest. Enverga traje a rigor, clássico a combinar com o espaço. Mas rompe convenções quando dança de forma estranha e assobia as suas canções, logo desde o início. Afinal, o fato é composto por umas calças axadrezadas, desafiadoras de tradições. O cabelo vem despenteado. Não parece haver uma caixa onde Andrew Bird caiba. Não é o alternativo típico, nem o clássico confortável. É um tipo de fato a assobiar no palco do CCB.

Conhecido do público português e da cidade de Lisboa, que o recebeu durante algum tempo e a quem Andrew Bird retribuiu com músicas nela inspirada, o músico mostra-se em casa. Não resiste mesmo a atirar-se a uma rendition de “Estranha Forma de Vida”, numa interpretação muito livre do fado de Amália, com a inseparável combinação violino-assobio. Perdoamos e até agradecemos, porque nós, portugueses, gostamos de quem nos fala ao coração com estes aconchegos.

Durante o concerto, vemos Andrew Bird construir a música, camada por camada. Do violino arranca bases para as músicas, que vai gravando nos pedal loops. Junta-lhes guitarra e voz. Assobios, sempre.

Traz-nos “Capsized” na abertura, fazendo do violino uma guitarra, dedilhando acordes. O primeiro cumprimento que nos faz, de viva voz, define o tom para a noite: “It’s been a bad day”. Andrew Bird falava do resultado das presidenciais americanas, chocado, triste, inconformado. Com um “funny feeling”, como diz, neste concerto de Lisboa que é a última paragem antes de actuar na Cidade do México. Parece apropriado, agora que Trump será presidente dos Estados Unidos – ele que foi o candidato dos muros para impedir a imigração mexicana, pretensamente pago pelos próprios mexicanos.
“Love of hate acts as an axis/ Love of hate acts as an axis/ First it wanes and then it waxes/ So procreate and pay your taxes”. “Tenuousness” é a música que se segue, nem de propósito. Foi escrita em Lisboa e que também soa aos bairros velhos da capital. Com “Why”, o songwriter mostra-se mais divertido enquanto discorre a letra em forma de perguntas retóricas a uma segunda parte ausente.

As referências a Trump sucedem-se e o músico confessa mesmo estar a actualizar a canção escrita a propósito da reeleição de George W. Bush, em 2007. “Sic of Elephants” é agora dedicada ao novo presidente americano.

Traz-nos “Saints Preservus” e ainda “Left Handed Kisses”, as duas do disco que saiu este ano. Gravada com Fiona Apple, “Left Handed Kisses é aqui apresentada a solo. Ou num dueto consigo próprio, como explica Andrew Bird. De um lado do microfone, uma das vozes. Do outro lado da esquizofrenia, a segunda personagem. No que à música diz respeito, parece que estamos dentro de um filme protagonizado por Zooey Deschanel e em termos de sonoridade é descrição que basta.

“Roma Fade” faz-se sentir com uma adesão imediata do público. Foi o single de avanço do disco de 2016 e inaugura a fase final desta noite com Andrew Bird. Não acaba sem que se oiçam “Three White Horses”, “Pulaski” e “Give it Away”. No encore, há ainda espaço para interpreter “Oh Sister”, em homenagem a Bob Dylan.

Termina com uma música que, como diz, há muito que não era tocada. Mas é apropriada a esta noite. Afinal, “Tables and Chairs” fala de um tempo que as instituições financeiras e as moedas desaparecem. “Don’t you worry about the atmosphere or any sudden pressure change” (…) things are starting to get strange”.

A primeira parte da noite esteve a cargo de Momo. Cantando suavemente na língua que é a de todos nós, foi discorrendo breves canções à guitarra, acompanhando de uma bateria ocasional. Na boa tradição dos singer/songwriters, sussurrou palavras ao público. “O tempo é tão bonito sem partida…”, parece-nos ouvir da boca deste brasileiro que chegou a Portugal a convite de Marcelo Camelo e de quem ouviremos falar muito no próximo ano, quando chega o seu disco novo.

Texto: Filipa Moreno

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