Morrissey no Coliseu dos Recreios

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Ansiedade foi o sentimento que precedeu a entrada em palco do antigo vocalista dos Smiths. Tudo devido ao seu historial de cancelamento de concertos cá pelo burgo. Mas desta vez veio e convenceu uns, desiludiu outros e encantou outros tantos.

Nós que nunca o tínhamos visto ao vivo, não demos a noite por perdida, bem pelo contrário. A par dos Cure, os Smiths preencheram muitas horas da nossa adolescência passada nos anos 80. Cada frase cantada por Steven Patrick, cada som saído da guitarra de Johnny Marr eram para nós motivos de regozijo, felicidade, tristeza ou alegria. Nas canções dos Smiths vivia tudo o que fazia de nós os adolescentes que eramos.

Passados todos estes anos, foi com uma enorme felicidade que nos dirigimos ao Coliseu dos Recreios, onde iriamos finalmente estar frente a frente com ele, o homem responsável por estragarmos um par de calças de ganga, pois, querendo imitá-lo, andávamos com uns lírios roxos nos bolsos de trás…

Nostalgias à parte, regressemos à noite de 6 de outubro. Antes do concerto as Portas de Santo Antão enchiam-se de gente animada. Uns gritavam Morrissey, outros faziam apostas sobre o alinhamento, e muitos enchiam os cafés em redor da mais famosa casa de espetáculos lisboeta onde, sem qualquer preconceito, apreciavam umas belas bifanas (que pensaria Morrissey se nos visse a todos em tais devaneios? Cancelaria, certamente…).

Encontros, abraços e sorrisos enchiam de boa onda o hall de entrada do Coliseu. E a ansiedade crescia, pois até à hora de o ver em palco muitos eram os cépticos relativamente à realização ou não do concerto. Foi aos poucos que a sala se foi compondo de público, pelo que quando Morrissey entrou em palco eramos já muitos para assistir à “missa”! Antes imagens de Brian Eno, Ramones, Nico e New York Dolls faziam a introdução ao concerto, como se de uma primeira parte de tratasse. E eis que “Deus” trajando integralmente de branco nos dá o prazer de aparecer!

Arrancou com «The Queen Is Dead» e logo ali arrebatou todos com a sua voz, ou melhor, vozeirão impressionante que ele, evidentemente, trata muito bem.
Acompanhado de uma banda competente, cujos músicos vestiam t-shirts onde se lia “Fuck Harvest” (evidente referência à antiga editora com quem Morrissey se incompatibilizou), a imagem maior da música britânica da década de 80 fez desfilar pelo palco do Coliseu de Lisboa um alinhamento pontuado por músicas suas a solo, com incidência no seu mais recente registo discográfico (não esqueçamos que é ele o motivo desta tournée e, por consequência, deste concerto).

Interessante foi ver o público reagir com assobios, muitos, ao primeiro, e depois desta reação, único «gracias» por parte de Morrissey, remédio santo, pois nunca mais se esqueceu de agradecer com um «obrigado»! Defendendo a sua causa maior, os direitos dos animais, Morrissey apelou a que todos pegássemos em latas de tinta e em todos os anúncios ao McDonald’s «que se podem ver nesta linda cidade pintássemos as palavras shit, shit, shit e não, não, não» enquanto no ecrã passavam imagens chocantes de animais a serem mortos pelo ser humano… (ai as bifanas…).

«The Bullfighter Dies», «I’m Throwing My Arms Around Paris» e «Istanbul» marcaram, e bem a noite, mostrando a excelente forma em que se encontra Morrissey, que gesticulou e não parou um segundo. Com o suor a escorrer pelas faces, dirigiu-se por várias vezes ao público que se encontrava na frente de palco para dar a mão a alguns fãs. Sem ser demasiado simpático, ou acessível, (não se esqueçam que estamos a falar de Morrissey) consegue captar a empatia de todos.

«Hand in Glove» e «Meat Is Murder» fizeram reviver memórias antigas trazendo a aura imaculada dos Smiths para dentro do Coliseu. Mas a verdade é que este não foi um concerto dos Smiths, nem sequer de tributo ou homenagem à banda maior da música britânica de 80, pelo que não entendemos porque saíram tantos fãs desiludidos com o alinhamento…se referissem que por lá faltaram temas icónicos da carreira a solo de Morrissey, como «You have Killed Me», até eramos capazes de concordar, pois para nós foi mesmo aí que pecou. Aí nos arranjos algo “sevilhianescos” de algumas composições, os quais vão, certamente agradar ao público espanhol mas que para cá foram um pouquinho demais.

A saída de palco deu-se após «One Day Goodbye Will Be Farewell» e o regresso para o encore aconteceu com «Asleep», música maior e verdadeira maravilha sonora criada pelos Smiths, que Morrissey interpretou de forma imaculadamente perfeita, fazendo com que viajássemos no tempo, para outra realidade (sim, houve lágrimas, não há quer ter vergonha de o confessar…).

A fechar «First of the Gang to Die» com Morrissey a recriar uma das suas imagens mais icónicas de sempre quando nos concertos da década de 80 rasgava a camisa que trazia vestida atirando-a para o público…que ali, no ano de 2014, reagiu da mesma forma como há décadas atrás, atirando-se a ela sofregamente!

Se foi o concerto perfeito? Não. Se foi um concerto a recordar? Sem dúvida. Pois como ouvimos a um amigo, «não estaremos a ser demasiado exigentes? “Deus” dignou-se a descer à terra e deu-nos a sua companhia, e isso devia bastar». A nós bastou!

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Alexandre Antunes/Everything is New

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