Moonspell na Quinta da Ribafria: 35 anos depois a resistência continua
Mais de três décadas depois, os Moonspell continuam a escrever a sua história sem abdicar da escuridão que os tornou únicos. Na Quinta da Ribafria, em Sintra, a banda apresentou Far From God perante um público que conhece bem cada capítulo deste percurso. Entre temas novos e clássicos incontornáveis, Fernando Ribeiro e companhia revisitaram diferentes fases da carreira. Vampiros, lobos, religião, desejo e mortalidade voltaram a cruzar-se em palco. E, no final, ficou também lançada a primeira pista para uma celebração muito especial: os 35 anos dos Moonspell.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro
Trinta e cinco anos depois de começarem a construir uma das carreiras mais singulares do metal português, os Moonspell continuam a saber transformar cada palco num território próprio. A 12 de setembro, na Quinta da Ribafria, em Sintra, essa história encontrou um novo cenário, numa noite marcada pela apresentação de Far From God, mas também pelo regresso a alguns dos temas, personagens e memórias que ajudaram a definir a banda. A estreia naquele espaço começou com um contratempo inesperado, mas acabou por reforçar uma das características que melhor definem os Moonspell: a capacidade de transformar um imprevisto em parte do espetáculo. Antes disso, porém, havia um novo disco para apresentar e uma história que continua a escrever-se mais de três décadas depois.
Quando as luzes baixaram, a expectativa não era apenas pela apresentação do novo disco. Far From God, lançado em julho, nasceu depois de cinco anos de dúvidas, procura e alguma inquietação dentro da própria banda. Na entrevista que fizemos a Fernando Ribeiro, o vocalista falou precisamente desse processo e da forma como, depois de Hermitage, chegou a questionar se ainda teria algo para dizer através dos Moonspell. O caminho acabou por levá-los de volta a uma combinação que lhes é familiar: metal gótico, melodia, romantismo negro e a tensão permanente entre beleza e escuridão. E foi precisamente aí que tudo começou, embora não sem um percalço.
“Cross Your Heart” abriu a atuação, mas problemas técnicos obrigaram à interrupção logo nos primeiros momentos. Ao que foi possível apurar, as falhas terão sido provocadas por problemas num gerador, deixando o arranque suspenso durante alguns minutos. Quando a banda regressou ao palco, Fernando Ribeiro aproveitou o contratempo para estabelecer imediatamente uma relação de cumplicidade com o público. “Há por aí algum eletricista?”, perguntou. A resposta veio do próprio vocalista: “Certamente que sim. Os nossos fãs são pessoas de trabalho.” Os risos ajudaram a descomprimir o ambiente, mas Fernando ainda tinha outra provocação preparada. Numa referência evidente ao episódio protagonizado por Dave Mustaine no último EVILLIVE, quando os Megadeth abandonaram o palco e o concerto acabou por ser cancelado, brincou: “Ao contrário do Dave Mustaine, os Moonspell ainda aqui estão.” A reação foi imediata. Resolvido o problema, a banda retomou o tema e estabeleceu finalmente o tom para o resto da atuação: riffs contidos, melodia sombria e uma força que não precisa de velocidade para se impor.
A faixa-título, “Far From God”, aprofundou essa primeira impressão. Na conversa que mantivemos com Fernando Ribeiro, o vocalista explicou também a forma como o vampiro regressa neste trabalho, não como uma caricatura gótica ou uma simples personagem de Halloween, mas enquanto figura trágica, romântica e humana. A inspiração veio, entre outras coisas, do reencontro com Nosferatu, de Robert Eggers, e da vontade de recuperar a dimensão de uma criatura condenada pelo amor, pelo desejo e pela própria existência. Na Quinta da Ribafria, essa narrativa encontrou um cenário quase perfeito. “Biblical” trouxe a relação entre fé, culpa, desejo e transcendência. Nos Moonspell, o sagrado e o profano raramente aparecem separados e, nesta fase da banda, continuam a dialogar de forma particularmente intensa. Depois surgiu “Opium”, e a mudança foi imediata. Irreligious entrou em cena através de uma das suas canções mais emblemáticas. Sensual e decadente, “Opium” continua a funcionar como um transe coletivo, mantendo intacta a ligação entre música, desejo e literatura que atravessa o universo de Fernando Ribeiro. A referência a Fernando Pessoa permanece ali, integrada numa canção que, três décadas depois, continua a soar perigosamente próxima. “Awake!” prolongou esse ambiente, mas acrescentou-lhe uma dimensão mais melancólica. É uma música que cresce menos pelo impacto imediato do que pela forma como se instala lentamente, equilibrando peso e vulnerabilidade. A atenção voltou depois a Far From God com “The Great Wolf in the Sky”, uma das faixas mais emotivas do álbum. Dedicada à memória de Pedro Pires, a canção recupera uma das imagens mais importantes da banda: o lobo. Desde Wolfheart, essa figura está ligada à mitologia dos Moonspell. Aqui surge associada à memória, à perda e à passagem entre a vida e a morte.
“Your Promise of Light” foi uma das estreias ao vivo do novo álbum e mostrou que a banda não está simplesmente a repetir fórmulas conhecidas. Há elementos reconhecíveis, mas também espaço para novas texturas e caminhos. O mesmo aconteceu com “For the Love of Mortals”, outra estreia em palco. Num universo povoado por criaturas sobrenaturais e símbolos religiosos, a canção devolve a atenção ao elemento mais frágil de todos: o ser humano. Somos mortais. E talvez seja precisamente isso que torna tão fascinante tudo aquilo que imaginamos para lá da nossa própria existência. Seguiram-se “Ruin & Misery” e “A Poisoned Gift”, dois momentos marcados por decadência, perda, desejo e desilusão. A força destas canções está também naquilo que permanece reconhecível por baixo das guitarras e das atmosferas mais densas. Em “Raven Claws”, a presença de Mariangela Demurtas acrescentou uma nova dimensão vocal ao tema. A cantora italiana, conhecida sobretudo pelo seu percurso nos noruegueses Tristania e pelo trabalho desenvolvido posteriormente com os Ardours e a solo, já tem uma relação longa com o universo dos Moonspell. Mas havia também uma dimensão particularmente especial naquela participação: Mariangela é casada com Ricardo Amorim, guitarrista dos Moonspell, tornando aquele momento em palco também um encontro entre dois percursos musicais que há muito se cruzam. Não era, por isso, uma convidada qualquer. A sua voz já fez parte de diferentes momentos da história ao vivo da banda e, em “Raven Claws”, voltou a encontrar naturalmente o espaço que a canção pede.
É precisamente nesta capacidade de atravessar fronteiras que reside uma das características mais interessantes dos Moonspell: metal e rock gótico, literatura e música, Portugal e imaginário europeu, beleza e violência podem coexistir sem que nenhum desses elementos pareça deslocado. “Mephisto” levou a actuação até Goethe e ao pacto com o demónio. Tentação, conhecimento, desejo e preço são conceitos que encaixam naturalmente na linguagem da banda. Já “Herr Spiegelmann” trouxe um momento mais teatral e desconfortável, quase como um conto sombrio que vai revelando lentamente aquilo que esconde. Com “Our Freedom to Fall”, o foco regressou ao novo álbum. O próprio título contém uma das suas contradições fundamentais: liberdade também pode significar cair, falhar, perder o controlo ou aceitar que nem sempre existe redenção. Então chegou “Reconquista”. Antes de apresentar o tema, Fernando Ribeiro deixou uma frase que ganhou um significado particular depois dos problemas que marcaram o início da atuação: “Ninguém sobrevive sem paciência e sem resistência, e os Moonspell são exemplo disso.” “Reconquista” trouxe História, território e identidade portuguesa. Desde Wolfheart, os Moonspell têm incorporado no seu trabalho o imaginário nacional, transformando referências históricas e culturais numa matéria que se tornou indissociável da sua música.
Depois, as luzes baixaram novamente. “Vampiria”. A personagem que acompanha a banda desde Wolfheart voltou ao palco e, em poucos segundos, deixou de ser apenas uma memória de outros tempos. O público conhecia cada momento da música e respondeu em uníssono. Há temas que deixam de pertencer exclusivamente a quem os escreveu. “Vampiria” é um deles. A seguir, “Alma Mater” elevou ainda mais esse sentimento. Aqui, a distância entre palco e plateia praticamente desapareceu. Três décadas condensaram-se numa canção que se tornou um dos grandes hinos dos Moonspell e numa celebração inequívoca da ligação da banda a Portugal. Mas ainda faltava um último capítulo.
“Full Moon Madness” encerrou a atuação, recuperando novamente o universo de Irreligious e criando uma ligação natural com Far From God. A escolha funcionou como uma espécie de fecho circular para uma noite que atravessou diferentes fases da carreira sem perder coerência. Quando o último tema terminou, ficou a sensação de que a música continuaria para lá das luzes.
Mais do que uma sucessão de canções, o alinhamento funcionou como um retrato em movimento dos Moonspell. No palco, Ricardo Amorim, Pedro Paixão, Aires Pereira e Hugo Ribeiro deram corpo a essa travessia, enquanto Fernando Ribeiro conduziu a atuação entre diferentes capítulos da história da banda. E havia ainda uma última surpresa. Antes de deixar o palco, Fernando Ribeiro revelou aquilo que os Moonspell estão já a preparar para 2027: “Em 2027 fazemos 35 anos de vida. A festa de celebração desses 35 anos vai ser anunciada no Porto por altura dos concertos de Halloween, mas podemos já avançar que vamos ter um Moonspell Fest.” A revelação deixou uma última expectativa no ar. Os 35 anos dos Moonspell não serão apenas uma celebração da longevidade da banda, mas também uma oportunidade para reunir a comunidade que a acompanha há décadas. A resistência continua. E a próxima grande celebração já tem nome: Moonspell Fest.