MGLA no RCA Club. O nevoeiro chegou a Lisboa…

Os Mgla vieram a Portugal dar dois concertos, um em Lisboa, no RCA Club, e outro no Porto, no Hard Club. A banda polaca veio para promover o álbum de 2015, “Exercises in Futility” e o seu mais recente trabalho, “Age of Excuse”.

Texto: David Pissarro e Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

Os Mgla (nevoeiro em polaco) foram criados em 2000, inicialmente, como um projecto de estúdio pelo guitarrista e vocalista «M.» (Mikołaj Żentara), na cidade polaca de Cracóvia. Desde o lançamento de “With Hearts Toward None”, em 2012, a banda começou a tocar ao vivo e a apresentar-se como um quarteto, tendo um baixista e um guitarrista de sessão.

Com o lançamento do terceiro disco, “Exercises in Futility”, os Mgla conseguiram transformar-se num nome de referência do underground black metal através de uma abordagem mais rude, mais primitiva, mas, no entanto, melódica daquele que é o género mais controverso de metal.

Os polacos vieram a solo lisboeta no início da segunda semana de tour acompanhados pelos Above Aurora e pelos Martwa Aura, duas bandas também provenientes daquela que é casa de grandes bandas de metal extremo (como Behemoth, Vader, Decapitated, e agora, Mgla) e um dos únicos países do Velho Continente que ainda mantém leis anti-blasfémia.
Mas antes de falarmos daquele que foi, claramente, o ex-líbris da noite olhemos para as bandas que abriram a atmosfera negra e obscura que pairou sobre o clube de Alvalade.

A primeira actuação da noite foi da autoria dos Above Aurora, uma banda que funde os géneros de black metal e de doom metal, uma combinação que tem tudo para dar certo. Alguns toques de black´n´roll e até mesmo de doom metal atmosférico adicionado ao tradicional «black» caracterizam o som do trio de Poznań, que não desapontou e começou a aquecer e a preparar o público para a noite que aí vinha. Uma atuação considerável de uma banda que em disco promete mais do que ao vivo concretiza, mas que apesar disso se aguentou bem como banda de suporte aos grandes Mgla.

Após esta primeira actuação, foi vez dos Martwa Aura se dirigirem ao palco e mostrarem o que valem. A banda entrou com, talvez, uma mentalidade um pouco diferente dos primeiros, mais comunicativa e acessível, apesar de partilharem ambas o mesmo baterista. O vocalista dirigiu-se ao público lisboeta em português, o que demonstrou alguma consideração em tentar adaptar-se ao local onde se encontrava. Este grupo opta por tocar o seu black metal mais virado para o «black tradicional» optando por alternar entre tempos rápidos com acordes menores fundidos com os “high pitched vocals” (algo típico no black metal) e também com passagens a meio-tempo, preferindo o sentimento que se obtém através destas melodias intervaladas misturadas com passagens vocais faladas. No geral, um bom concerto.

E agora sim, falemos do ponto alto da noite, os Mgla. O grupo entrou em palco com uma atitude firme e robusta, acompanhado do inconfundível ruído branco para criar um ambiente mais ríspido, mais inóspito. Os temas abordados pela banda são nihilistas e misantrópicos, sendo reflexões sobre a natureza humana, mas também sobre a actualidade, e, como se as letras não fossem suficientes, também a sua imagem transmite esta mensagem de misantropia. Com casacos de cabedal e a cara tapada, a banda apresenta-se assim de modo a não ligar a pessoa e a personalidade dos músicos à musica, de modo a que esta esteja em primeiro plano e fale por si, referiu em ocasiões anteriores o vocalista M.

Tocando, maioritariamente, composições do álbum “Exercises in Futililty” e algumas do “Age of Excuse”, o grupo criou em palco uma atmosfera fria e escura, intensificada pela inexistência de comunicação entre a banda e o público. Talvez por isso, este foi um daqueles concertos que simplesmente agarrou e prendeu o público num transe hipnótico. Desta maneira, a plateia apenas se «desprendeu» quando a banda saiu da frente de palco.

Sonicamente falando, o concerto dos Mgla foi um completo êxito, com todos os instrumentos em devida sintonia. No concerto de Above Aurora o mesmo não se pode dizer. Pouco se ouvia a guitarra e até mesmo os vocais, sendo que o instrumento proeminente na mix era o baixo, o que significa falta de equilíbrio instrumental. O concerto de Martwa Aura, em termos de som e níveis, assemelha-se ao de Mgla, onde todos os instrumentos se ouviam bem, apesar de algumas falhas nas melodias das guitarras, onde se ficava sem percepção exacta das notas tocadas.

Concluindo, o concerto de Mgla foi, sem dúvida, memorável e inesquecível, e, certamente, podemos afirmar que a banda irá voltar a Portugal.

Above Aurora

Martwa Aura

Mgla

Setlist
Exercises in Futility I
Exercises in Futility IV
Mdłości II
Exercises in Futility II
Age of Excuse II
Age of Excuse III
With Hearts Toward None VII
Exercises in Futility VI
Exercises in Futility V

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