Mão Morta no LAV não há frio que nos derrube

Muita coisa havia para dizer sobre os Mão Morta. A nós, e ainda no rescaldo de uma das melhores noites dos últimos tempos, apraz-nos dizer que são uma das melhores bandas nacionais, aquela que não muda, apenas melhora, que não altera, apenas aperfeiçoa. Banda da nossa(s) vida(s), em comum e individual, o colectivo de músicos de Braga provou mais uma vez de que matéria são feitos.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

O objectivo do concerto que, em boa hora, os trouxe a Lisboa, era o de promover o novo registo discográfico, “No Fim Era o Frio” recentemente editado pela Rastilho Records. Mas a verdade, é que o concerto foi muito mais do que isso. Foi, acima de tudo, o reencontro da banda com o seu público mais fiel, aquele que a acompanha desde sempre, desde o tempo dos concertos no saudoso Rock Rendez Vous e que no LAV conseguiu matar (algumas das) saudades daqueles belos tempos.

Repartido por duas partes, a primeira totalmente dedicada a mostrar o novo álbum e a segundo destinada a percorrer um pouco da já longa carreira dos Mão Morta, o concerto foi absolutamente consistente e coerente.

Em palco, na cabeça do “monstro”, um dos maiores escritores de canções da língua portuguesa. Adolfo Lúxuria Canibal mostrou estar em excelente forma aguentando o embate e a emoção, não só de mostrar novas músicas, mas acima de tudo de retornar aos braços de um público sempre ávido da sua presença. Lembre-se que, se não nos falha a memória, a última vez que os Mão Morta passaram por Lisboa foi no ano passado no âmbito do festival EA Live 2018.

Seguindo o alinhamento do álbum, a primeira parte do concerto, como já referimos, percorreu todas as músicas de “No Fim Era o Frio”, um trabalho conceptual que conta uma história e onde Adolfo volta a mostrar a sua mestria em escrever letras cruas, duras e muito mas mesmo muito cinematográficas mas que ali, em cima do palco, adquiriram na nossa cabeça uma aura super teatral. Adolfo dança, aquela dança que todos lhe reconhecemos como só sua. Cai no chão. Canta deitado. Adolfo entrega-se. Já não é ele que ali está. É a música, é a canção à qual ele serve de veículo para que as notas, as letras, as palavras cheguem até nós. Mas a dúvida instala-se: será ele a personagem principal ou só o narrador? Especialmente quando ouvimos “A Minha Amada” que nos transporta para um universo kafkaniano onde “A Metamorfose” não nos sai da cabeça.

«Gosto demasiado da música para viver dela», referiu numa entrevista recente o vocalista que também é jurista, o que para nós se apresenta como uma afirmação de poder. Poder em ser um criador de amarras soltas e livre. Livre para criar e dar vazão ao universo negro, cru e rude que ganha vida e forma em cada canção, em cada poema, em cada letra. Na voz de Adolfo, a força das palavras ditas adquire uma energia transcendental que chega aos nossos ouvidos como trovões que nos abanam e fazem pensar gerando em nós sentimentos por vezes contraditórios, outras surpreendentes, mas nunca indiferentes. É essa crueza, essa luta contra a mediocridade e contra a indiferença que sempre procurámos nos Mão Morta e que voltamos a encontrar em “No Fim Era o Frio”.

Intervalo de 15 minutos para uma segunda parte incrível, com o púbico em delírio. Um alinhamento cheio de boas memórias trazidas até ao LAV por um punhado de canções emblemáticas que pontuam como baluartes de uma carreira longa e consistente. No palco, o cenário mudou, «temos atrás de nós um conjunto de caretos da autoria da Oficina Arara, um colectivo de artistas do Porto», informa Adolfo. “Pássaros a Esvoaçar”, do álbum “Pelo Meu Relógio São Horas de Matar”, de 2014, dá o mote para o que aí vinha, e foi tanto. A loucura instala-se. A energia atinge níveis tremendos com o público a fazer um mosh pit, mais comum no universo do metal mas que ali fez todo o sentido. Há quem não aguente e tente fazer um crowd surfing, na verdade pouco conseguido, mas o que é que isso interessa quando se consegue subir a palco por cima do fosso dos fotógrafos para venerar, de joelhos no chão e mãos ao alto, Adolfo? Nada!

Num crescendo de intensidade “Sitiados” e “Hipótese de Suicídio”, abrem alas para “Tu Disseste”, cantado (e gritado) em uníssono com o público, onde o grau de adrenalina já era absolutamente inacreditável. Calor, muito calor num LAV cheio até à porta (éramos mil), mas não havia tempo a perder, era preciso continuar e de cima do palco Adolfo dá tudo, entrega-se ainda mais o que leva o público a retribuir com maior dedicação. Seguem-se “Em Directo para a TV”, “Barcelona” “E Vamos Fugir”, aperitivo para a tríade final de canções. Ainda hoje estamos para perceber como não veio abaixo o LAV com a porrada que foi ouvir de seguida “E Se Depois”, “Bófia” e “1.º de Novembro”.

Juntam-se os músicos na frente de palco para agradecer à plateia, quando, num gesto inesperado mas, simultaneamente, perfeitamente espectável, Adolfo se atira num incrível stage diving para cima do público! Lembram-se do ditado, amor com amor se paga? Foi mais ou menos isso que aconteceu naquele momento inesquecível!

Saem os músicos. Ninguém arreda pé. Queríamos mais. Tal como o “monstro”, queremos sofregamente mais, precisamos sequiosamente de mais. Os Mão Morta percebem isso. Regressam a palco para a apoteose final. Da plateia ouve-se “Canta Lisboa”. De cima do palco ouvem-se os primeiros acordes. Era “Lisboa” que abria o encore, logo seguida de “Anarquista Duval”, «Pela estrada fora vinha um homem, Encoberto pelas sombras da noite, Alguém lhe perguntou o nome, Sou uma miragem, Dizem que semeio o caos e a destruição, Como o vento semeia as papoilas, O meu nome é… Liberdade».

Um noite absolutamente fora de série. Um público incrível. Uma banda fabulosa. Só nos resta dizer obrigada, Mão Morta, obrigada, Adolfo.

Em breve teremos mais fotos. Fiquem atentos.

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