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José Peixoto e Nuno Cintrão: “O personagem principal é sempre a música de Paredes”

Em celebração do centenário do nascimento de Carlos Paredes, José Peixoto e Nuno Cintrão apresentam um novo álbum que revisita e dialoga com a obra do icónico compositor português. Com uma abordagem que mistura interpretação fiel e criação original, o duo explora a riqueza da música de Paredes através de arranjos cuidadosamente estruturados e momentos de improvisação, alternando entre guitarra clássica e elétrica. Neste trabalho, intitulado “VISITA: Diálogos com Carlos Paredes”, Peixoto e Cintrão convidam o ouvinte a uma viagem sensível pelo universo do mestre da guitarra portuguesa, oferecendo uma homenagem que respeita a tradição enquanto acrescenta uma voz própria.

Por Sandra Pinto

Nesta entrevista, falam sobre o processo criativo, os desafios de equilibrar respeito e liberdade, e o prazer de transformar inspiração em som.

O álbum celebra o centenário de Carlos Paredes. O que o trabalho do compositor significa para vocês?
Nuno Cintrão – Para nós, o trabalho do Carlos Paredes é uma referência, enquanto compositor e intérprete. Foi um artista com uma identidade única que se reconhece às primeiras notas tocadas por isso deixou uma marca incontornável na música portuguesa.

Como surgiu a ideia de criar um álbum dividido em dois capítulos: “Visitas” e “Diálogos”?
José Peixoto – A ideia surgiu na fase inicial quando estávamos a começar a definir o conceito do álbum e aquilo que faria sentido fazer com e sobre a música de Carlos Paredes. Excluímos logo à partida uma abordagem de transposição direta da música de Carlos Paredes para os nossos instrumentos (guitarras clássicas e elétricas) devido às diferentes características expressivas dos mesmos, daí pensarmos em fazer uma “abordagem criativa” com arranjos originais, que de alguma maneira pudessem contribuir para a grandeza da música de Carlos Paredes. Para isso já tínhamos a nossa linguagem enquanto duo gradualmente cimentada desde o primeiro disco que gravámos em 2023, e tornou-se claro que o que faria sentido seria essa divisão em que interpretaríamos música original de Carlos Paredes (Visitas) e comporíamos música original ancorada na música do compositor (Diálogos).

Vocês trabalharam com arranjos de peças originais de Carlos Paredes, mas também criaram composições inspiradas nele. Qual foi o maior desafio nessa abordagem mista?
NC – O maior desafio foi encontrar o equilíbrio certo entre respeito e liberdade. Ao trabalhar os temas do Paredes, sentimos sempre a responsabilidade de preservar a essência, aquela força emocional e simplicidade profunda que tornam a música dele única. Ao mesmo tempo, queríamos que as nossas composições e arranjos trouxessem a nossa própria voz. O difícil foi exatamente isso: entrar no universo do Paredes, fazer uma cópia, deixando espaço para que a nossa identidade surgisse naturalmente.

A música de Paredes é profundamente inovadora. Como é que vocês equilibraram o respeito pelo original com a liberdade criativa do duo?
JP – No fundo foi incorporar essa natureza inovadora na nossa abordagem, ou seja, assumir uma total liberdade na leitura e interpretação da música de Carlos Paredes respeitando a liberdade da construção dessa mesma música definida pelo compositor. É um desafio e uma aventura. O farol foi sempre o enorme respeito pelo tecido original e, a cada passo, avaliar essa correspondência entre os nossos arranjos e a fonte sem nunca a atraiçoar. Claro que esta é sempre uma avaliação subjetiva e pessoal aferida pelos nossos filtros.

“VISITA” sugere um encontro e uma saudação musical. Como é que esse conceito influenciou a forma como estruturaram o álbum?
NC – A ideia de “visita” guiou-nos desde o início. Em vez de pensarmos o álbum como uma coleção de temas, imaginámo-lo como um percurso, como quem chega à casa de alguém para uma visita. Essa lógica influenciou a ordem das peças, o modo como passamos dos
arranjos para as composições originais e até a forma como explorámos diferentes atmosferas. No fundo, quisemos que o álbum desse a sensação de estarmos a visitar o universo do Carlos Paredes, mas também deixando um convite para o nosso próprio universo musical.

José, mencionou que cada um estruturou os seus arranjos individualmente antes de juntarem tudo nos ensaios. Pode contar um pouco mais sobre esse processo colaborativo?
JP – O que decidimos logo à partida, e apoiando-nos na nossa experiência anterior como duo, foi a de distribuir metade do reportório do disco por cada um de nós. Assim, fomos tranquila e individualmente definindo ideias base de arranjo deixando sempre espaço para a intervenção posterior do parceiro. Quando nos começámos a juntar nos ensaios tínhamos essas rampas de lançamento para a experimentação e conclusão dos arranjos. Depois, foi uma questão de amadurecimento, de afinar dinâmicas, andamentos, etc.

Quanto de improvisação está presente nas gravações finais?
NC – Existem alguns momentos de improvisação, mas a base do álbum são sempre os temas e arranjos estruturados e definidos numa perspetiva de quase música de câmara.

Alternam entre a guitarra clássica e a guitarra elétrica. Como decidiram qual é que seria o instrumento ideal para cada peça?
JP – Fomos decidindo, avaliando e distribuindo essa instrumentação no próprio processo de construção. Percebemos que umas peças ganhariam (dos nossos arranjos falo) com determinadas combinações, daí termos peças com duas guitarras clássicas, outras com duas guitarras elétricas e duas com combinação mista. Também achámos no início do processo que alargaríamos o espectro de possibilidades, tímbricas e expressivas, explorando essas opções. Depois, íamos vendo e sentindo o resultado dessas opções.

Existem momentos no álbum em que os arranjos surgiram de forma inesperada ou improvisada e que acabaram por se tornar favoritos?
NC – No nosso processo de trabalho há sempre espaço para o inesperado. Partimos de propostas que vamos ganhando forma no trabalho conjunto e por isso há sempre boas surpresas.

Como é que a experiência do duo Combinatorium influenciou a criação deste álbum?
JP – Influenciou e teve um papel essencial. Quando a minha amiga Carmo Cruz (da UGURU) ligou-me no final do ano passado a perguntar se eu tinha alguma coisa pensada para este ano para a celebração do centenário do Carlos Paredes, eu respondi-lhe que não, que não tinha nada em vista. Porém, a semente ficou cá dentro e numa questão de minutos liguei ao Nuno Cintrão. Quando o Nuno demonstrou interesse e disponibilidade, ficou claro que iríamos avançar e que não seria um projeto difícil ou complicado muito devido à experiência anterior do Combinatorium. Nesse primeiro disco, e no processo de construção do mesmo, ficou claro o nosso entendimento “automático” e surgiu muito naturalmente uma linguagem cúmplice e “a dois”. A sensação que tivemos neste trabalho com o Carlos Paredes foi como se tivéssemos de
alguma maneira continuado o movimento que vinha de trás.

Por que escolheram “Verdes Anos” e “Canto de Alcipe” como singles?
NC – Escolhemos “Verdes Anos” e “Canto de Alcipe” porque representam bem o espírito do álbum. Juntas, essas peças dão ao ouvinte uma primeira ideia clara do diálogo entre o universo do Paredes e a nossa interpretação, abrindo a porta para o resto do álbum e para a nossa proposta.

Há alguma faixa que consideram mais desafiadora técnica ou emocionalmente?
JP – É difícil destacar alguma. Todas elas têm a sua história e as suas características musicais e emocionais. Todas, à sua maneira, foram
desafiantes a vários níveis.

Alguns temas originais de Paredes, como “Marionetas” e “Canto de Embalar”, foram adaptados. Que elementos decidiram manter e quais é que reinventaram?
NC – Procurámos preservar sempre a melodia e, em grande parte, a harmonia original. A partir daí, foi um trabalho de exploração sem perder de vista o original, mas dando espaço à exploração de novas soluções.

“Variações – Visitas” fecha o álbum. Qual a história dessa peça e porque é que ela encerra o trabalho?
JP: Foi a última peça a surgir. Quando olhámos para o que tínhamos feito, surgiu essa necessidade de concluirmos esta nossa narrativa com uma espécie de epílogo. Então, decidimos citar alguns fragmentos de várias músicas de Carlos Paredes e criar, com os seus ecos e reflexos, uma pequena peça original. E assim fecharmos a história, daí o título “Variações – Visitas”.

Há alguma faixa que revela ser uma surpresa para quem conhece a obra de Paredes?
NC – Procurámos que cada faixa tivesse a sua “surpresa”. A nossa proposta não foi fazer uma cópia e nesse sentido estamos contentes com as soluções que encontrámos.

Como será a experiência de apresentar essas peças ao vivo no Misty Fest (Porto) e na FNAC (Porto)? Haverá espaço para improvisação
diferente do álbum? 
JP: No alinhamento do concerto, para além deste novo disco, juntámos mais uma série de música do nosso primeiro disco, o Fragmentos Imaginários (Combinatorium). A ideia é a de, ao longo de pouco mais de uma hora, homenagear a música de Carlos Paredes e integrá-la num universo musical alicerçado na nossa linguagem enquanto duo. E, claro, direcionar tudo isto para a grandeza e intimidade da música de Carlos Paredes. É disso que se trata. O Carlos Paredes é o personagem principal. Há um ou outro momento aberto à improvisação nos arranjos que fizemos, mas iremos, fora desses momentos, ser fiéis ao registado no álbum. A apresentação na FNAC terá características diferentes. Será um evento mais curto e será à volta do novo disco.

Existe a intenção de continuar a explorar o repertório de Carlos Paredes em futuros projetos?
NC – Para já não há essa perspetiva.

Que reação esperam do público que talvez não conheça tanto o trabalho do compositor?
JP – Esperamos o que esperamos sempre que tocamos música original e menos conhecida: que a música cumpra a sua “missão afetiva” e que toque nas pessoas. A gratificação é sempre a da satisfação do público no fim do concerto. E essa satisfação pode ter diversos ângulos. Esperamos total disponibilidade para a música que iremos fazer independentemente do conhecimento prévio da música de Carlos Paredes. E que se celebre a música.

Há planos para gravar outras colaborações instrumentais ou explorar novas fusões de guitarra clássica e elétrica?
NC – Existem ideias, mas que não podemos desvendar, para já.

Para músicos que desejam homenagear grandes nomes, que conselho dariam sobre equilibrar tradição e criatividade?
JP – De outras iniciativas e homenagens que tenho ouvido, as que me captam mais a atenção são aquelas em que há mais liberdade nessa relação com a música original. Quando nos afastamos da interpretação direta então que o façamos com a maior dose de criatividade possível. Claro que o grande desafio é sempre o de nunca atraiçoar o original. E é isso que é interessante. E é isso, que no meu ponto de vista, vale a pena!

1 de dezembro (Casa da Música) no âmbito do Misty Fest.

Foto: Rafael Gonçalves

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