“Holocausto Brasileiro”, o horror de Barbacena por Jon Marx

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“…o deputado (Paulo Delgado) apresentou, em 1989, no Congresso Nacional, o Projecto de Lei 3.657, propondo a regulamentação dos direitos da pessoa com transtornos mentais e a extinção progressiva dos manicómios no país. Até aquele momento, ainda prevalecia no país o Decreto Presidencial 24.559, baixado por Getúlio Vargas, em 1934. A resolução previa o recolhimento de pacientes a hospitais psiquiátricos mediante simples atestado médico, que poderia ser solicitado por qualquer pessoa que tivesse interesse em internar alguém”.

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O texto reproduzido faz parte de “Holocausto Brasileiro”, um livro da autoria de Daniela Arbex, editado em Portugal em Abril de 2014 pela Guerra e Paz. A obra recebeu o prémio de melhor livro-reportagem de 2013 da Associação Paulista de Críticos de Artes e a sua autora é uma das mais prestigiadas e premiadas jornalistas de investigação da América do Sul.

O livro documenta a macabra existência do hospital psiquiátrico de Barbacena, situado no Estado de Minas Gerais, fundado em 1903 e ainda em atividade. Entre a data da sua abertura e o início da década de 80, altura da adoção de uma reforma no sector da saúde mental no Brasil, estima-se em 60.000 o número de óbitos ocorridos entre os residentes do local.

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Mais que um hospital, o Hospício de Colônia era um centro de recolhimento de homens, mulheres e crianças que, de uma forma ou de outra, não se enquadravam no padrão de normalidade estabelecido pela sociedade extramuros. “Protegidos” pelo decreto-lei acima citado e pela cumplicidade e silêncio de médicos, funcionários e políticos, milhares de pessoas foram institucionalizadas porque eram portadores de doença mental mas também por serem bêbados, homossexuais, drogados ou por terem um comportamento que envergonhasse a família.

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O livro de Daniela Arbex beneficia da autorização da publicação do acervo documental do jornalista Luís Alfredo, repórter fotográfico da extinta revista “O Cruzeiro” que, em 1961, visitou o Hospital Colônia e tirou mais de trezentas fotografias, doadas, em 2006, à Fundação Municipal de Cultura de Barbacena. Foram estas fotografias que despertaram o interesse de Daniela Arbex para a história dos loucos do Colônia.
Mas não foi apenas Luís Alfredo a entrar no Hospital de Barbacena e documentar o horror do quotidiano do local. Ao longo de várias décadas, jornalistas entraram no Colônia com total autorização e realizaram reportagens sobre o assunto, o que torna mais assustador por se comprovar desta forma o sentimento de impunidade e, até, normalidade, com que esta situação era tratada.

No entanto, uma destas visitas marcaria o início do fim do pesadelo de Barbacena. Em 1979, o estudante de Psicologia Helvécio Ratton, regressado do exílio no Chile, decidiu fazer um documentário sobre o Hospital Colônia. O resultado final, um documentário com menos de 25 minutos de duração, intitula-se “Em Nome da Razão” e, à época, causou enorme impacto em diversos festivais de cinema do mundo inteiro, tornando impossível a manutenção do status quo por parte das autoridades governamentais brasileiras.

O documentário “Em Nome da Razão”, de Helvécio Ratton, pode ser visto aqui:

Reportagem sobre o Hospital de Barbacena e o livro de Daniela Arbex:

https://www.facebook.com/ListaRebelde?fref=ts

Texto: Jon Marx

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