David J no Ritz Clube, em Lisboa

Comecemos pelo fim, quando, depois de terminado o concerto de David J no Ritz Clube, um de nós comentou com um dos membros da organização “valeu! Nós crescemos com os Bauhaus e isto foi importante”. Esta afirmação resume praticamente o sentimento de todos quantos numa noite chuvosa e nada simpática se deslocaram até à sala de espetáculos lisboeta para assistir ao concerto de David J, músico fundador de bandas míticas como Bauhaus e Love and Rockets.

Com três concertos agendados para Portugal (Lisboa, Coimbra e Porto), a expectativa antes do primeiro deles era grande. Vestido de negro e com a mesma figura esguia que desde sempre lhe conhecemos, David J apresentou-se em palco acompanhado de um teclista e de um baixista. Nas mãos uma guitarra eletroacústica que abandonou apenas para nos trazer à memória alguns dos trejeitos que desde sempre identificamos com os Bauhaus sobretudo através do seu vocalista, Peter Murphy.

“Not Long For This World” do álbum com o mesmo nome de 2011 foi a primeira música do alinhamento que viria a visitar não só a carreira a solo do músico, mas também alguns dos temas mais icónicos dos Bauhaus e dos Love and Rockets. Ainda do referido trabalho seguiu-se “Dagger in the Well” apresentada por David J como “uma música dedicada a e sobre Elliott Smith”, cantor e músico norte-americano desaparecido a 21 de setembro de 2003. “Obrigado por terem vindo, apesar da chuva atípica que cai lá fora” agradeceu Davi J, ao que alguém do público respondeu “your fucking great”, e ficou resolvida a questão dos agradecimentos.

Como curiosidade relembremos que antes de fundar os Bauhaus, David J formou com o seu irmão Askins duas bandas de vida efémera, The Submerged Teeth e The Craze. Em 1978, já na companhia de Peter Murphy e Daniel Ash, fundam os Bauhaus 1919, para sempre conhecidos como Bauhaus.

A primeira memória a chegar ao palco do Ritz Club foi “Shelf Life” música escrita por David J para os Love and Rockets e que integrou o álbum Sweet F.A. lançado em 1996. Com todos já completamente embrenhados num ambiente claramente anos 80/90, David J cantou “Crocodile Tears and The Velvet Cosh”, música que deu nome ao seu álbum a solo lançado em 1985 o qual assinalou a sua primeira aventura fora dos Bauhaus.

De regresso aos Love and Rockets era hora de ouvir o maravilhoso “Rain Bird”, música que fez parte do alinhamento de Earth, Sun, Moon, terceiro trabalho de originais da banda que chegou ao mercado em 1987. Algures a meio da música ouvimos alguém perto de nós afirmar “aqui sente-se a falta da bateria” comentário com o qual concordamos em absoluto.

Um dos mais recentes projetos de David J dá pelo nome de Cabaret Oscuro, o qual lançou em 2004 o álbum Embrace Your Dysfunction de onde foi retirada a música “Goth Girls In Southern California”, escrita por ele e dedicada às raparigas do sul da Califórnia, região norte-americana onde reside atualmente. Depois de “Silver Save Me”, seguiu-se “Spalding Gray Can’t Swim”, sexta faixa de Not Long For This World.

Com o prosseguir do concerto notava-se que o público se mostrava cada vez mais ansioso pois de Bauhaus nada… até que ouvimos David J afirmar “agora vamos precisar de pouca luz e muito fumo”, e aos primeiros acordes e palavras como “consider green lakes and the idiocy of clocks” logo se ouviram reações do público como “obrigado” ou o próprio nome da música “Who Killed Mr. Moonlight”, uma das mais conhecidas dos Bauhaus, que integrava o álbum Burning from the Inside, de 1983.

Com “Candy on the Cross”, faixa que integrava o álbum de David J de 1992, Urban Urbane, lembrámo-nos do videoclip oficial onde a voz que acompanhava David ao longo da música era a de Peter Murphy! De volta aos Love and Rockets foi a vez de “Everybody wants to go to heaven” e estava feito o check-in rumo ao passado. Aquele passado onde todos os que estavam no Ritz adoravam regressar… e no qual todos permanecemos quando, aos primeiros acordes, percebemos que a música seguinte era uma versão de David J para o original de Nick Cave “Mercy Seat”!
Um dos pontos altos do concerto foi claramente “No New Teale To Tell” dos Love and Rockets, música que integrava Earth, Sun, Moon, e com a qual deu por terminado o concerto.

Já no prolongamento, que por aqui se chama encore, David J interpreta “The Dog-End Of A Day Gone By” dos Love and Rockets, logo seguida daquela música que ficaria na memória de todos quantos estavam no Ritz Clube como o expoente máximo da noite, “All We Ever Wanted” dos Bauhaus, cantada a uma só voz pelo público do princípio ao fim. Memorável!
Inesquecível foi também o momento que se seguiu com a interpretação de “Bela Lugosi’s Dead”, canção escrita por David J e lançada no verão de 1979 como primeiro single dos Bauhaus.

Para o final e já num segundo encore pedido com muitas palmas por parte do público, David J interpretou uma versão do original de Leonard Cohen, “Joan of Arc”, dando por terminado o concerto com uma inesperada cover de “Alabama Song” dos Doors.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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