À Conversa com Eduardo Morais autor de “Uivo”

Gosta de fazer documentários sobre os «antigos» e fá-los bem feitos. Começou com o rock, passou pelo vinil e chegou à rádio. Como tema do seu terceiro documentário escolheu António Sérgio, o «Lobo» que uivava na rádio espalhando por Portugal a melhor música alternativa. Estivemos à conversa com Eduardo Morais, ou Edu Matracas, sobre este projecto e mais umas coisinhas.

Para que todos te fiquem a conhecer quem é o Eduardo Morais aka Edu Matracas?
É só um puto-xarila das Caldas da Rainha que quer produzir documentos de que se possa orgulhar daqui a uns anos e não sabe porque é que está a falar em si na terceira pessoa.

Depois de teres realizado dois documentários, o «Meio Metro de Pedra» sobre a contracultura do rock and roll em Portugal e «Música em Pó» sobre coleccionadores de vinil, um terceiro sobre António Sérgio é a evolução lógica do teu trabalho?
Curiosamente, hoje estava a caminho das Caldas e a pensar que tirando dois ou três colecionadores intervenientes no «Música em Pó», todos os outros começaram a sua coleção por discos de rock. Neste terceiro projecto, «Uivo», queria muito focar o meu objecto de estudo numa personalidade singular e não num movimento ou formato. É um desafio e isso atrai-me.

És muito jovem…que influência teve em ti António Sérgio?
Não posso dizer que o António Sérgio teve influência no meu crescimento musical como muito pessoal mais velho que conheço o faz.
Quando abordei a Ana Cristina Ferrão para receber a sua «luz verde» abri-lhe sempre o jogo todo e expliquei que apesar de não ter me ter desenvolvido musicalmente com a música do António Sérgio, identifico-me bastante com a sua ética e sempre quis saber mais sobre ele. Como a informação é muito escassa, propus-lhe ser eu retrata-la.

Sentes que essa influência é comum à tua geração ou pelo contrário, és um caso à parte?
Tal como muitas pessoas mais atentas da minha geração, sei da importância história do António Sérgio que é inegável, mas é incomparável a sua importância para nós relativamente à «geração anterior».

Porquê o nome de «Uivo»?
Basta ouvir a voz dele.

02-António Sérgio

O que podemos esperar deste documentário e em que te vais apoiar para o realizar?
Serão entrevistados cerca de trinta amigos, familiares, radialistas, músicos, editores que partilharam a vida e a carreira com o António Sérgio. Vou espelhar a minha busca na procura de informação sobre ele desde o lado mais pessoal a todo o aspecto profissional.

Quem tiver gravações, recortes ou outros testemunhos que te possam ajudar pode enviar para onde?
Devido à escassez de arquivo relacionada com todos os programas de rádio e textos criados por ele, apelo a todos os interessados que enviem o que possam para [email protected].

Tendo o António Sérgio sido o grande divulgador da música alternativa em Portugal, não vai ser fácil escolheres a banda sonora para «Uivo»…
Não estou preocupado com esse aspecto nesta fase de pré-produção, apesar de ter consciência que será uma tarefa mais complexa, comparando com os meus documentários anteriores.
Por um lado mais burocrático, tenho, felizmente, o auxílio da editora que irá lançar o documentário em Outubro de 2014, que me ajudará em todas as questões legais.

Estás a divulgar um Crowdfunding para te ajudar na produção do documentário. Explica lá o que é isso e como podem os nossos leitores contribuir?
Basicamente o crowdfunding é um financiamento colectivo, ou um mendigar virtual, digamos assim. Eu necessito de três mil euros para cobrir todas as despesas de produção e pós-produção que este filme terá entre Março e Junho. Se até ao dia 03 de Março receber apoios até esse valor, este documentário será produzido sem problema, se ficar aquém desse montante, não receberei nada. Toda a informação sobre a campanha está em http://ppl.com.pt/pt/prj/uivoantoniosergio.

Além de terem o privilégio de participar neste fantástico projecto, quem participar vai ser de alguma forma, digamos, «recompensado». Como?
Nesta plataforma não é só cravar e agradecer. Existem recompensas: desde arquivo inédito sobre o António Sérgio, DVDs e links antecipados, convites para exibições e ante-estreia e até a possibilidade de ser coroado «produtor executivo».

No vídeo de apresentação do documentário dizes que sempre quiseste «documentar os antigos». Como nasceu esse teu interesse pela, quase podemos dizer, história da música moderna em Portugal?
Eu cresci nos anos 90, talvez a pior década da «música electrica», mas na adolescência alugava repetidamente filmes como o «24 Hour Party People», o «Almost Famous», o «Velvet Goldmine», etc. e talvez tenham sido filmes como esses que despoletaram a curiosidade do passado e da sua cronologia. Além de me terem dado a conhecer, fizeram-me descobrir o que estava mais para trás.

Hoje o vinil está, e bem, muito em voga. Como surgiu a ideia do «Música em Pó»?
Eu sou cliente habitual de feiras de velharias pela zona oeste, as quais decorrem sempre ao domingo, e tenho a vaga ideia de ter ido a uma dessas feiras directamente depois de uma noitada e de por lá ter encontrado um dealer de discos que admiro e converso bastante. No fim dessa conversa, a vontade de registar outras idênticas criou-se e foi só pôr “mãos à obra”.

Tiveste dificuldade em arranjar os coleccionadores ou pelo contrário, tens material para um «Música em Pó II»?
Ao estar minimamente dentro deste mercado do disco, estou sempre a ouvir contos e descrições de caves do Ali-Baba destas bolachas.
Para já, pretendo ir lançando os teasers dos doze colecionadores até Março/Abril. Após completar os intervenientes do «Música em Pó», vou tentar registar um novo coleccionador mensalmente, abrangendo outros géneros e revelando outras pérolas, lançando-os online.

Bom, está mais que visto que gostas e muito de música…mas, porquê a contracultura do rock, tema do «Meio Metro de Pedra»?
Eu trabalhava/prestava auxílio numa loja de discos nas Caldas da Rainha, e aí comecei a descobrir o fascínio dos singles e EPs do rock português dos anos 60, tanto pelo lado musical, como pela sua raridade enquanto objecto. O encanto foi ganhando forma e a cronologia foi-se alargando.

Voltando a «Uivo», vais estar a gravar durante a Primavera, certo?
Vou estar em rodagens entre os meses de Março e Maio. Como são muitas entrevistas e vários complementos ao filme, o mesmo só estará terminado entre Junho e Julho.

Para quando prevês a sua exibição?
Ainda não há planos concretos para o produto final para além da edição física que o documentário terá. A mesma será lançada na data do quinto ano após a morte do António Sérgio.

http://ppl.com.pt/pt/prj/uivoantoniosergio
https://www.facebook.com/uivoantoniosergio?fref=ts

Por: Sandra Pinto

You May Also Like

À conversa com o guitarrista Alex Meister

À conversa com Diogo Rico aka Churky

Rock & Roll Hall of Fame: quem são os novos nomes indicados? Nós revelamos

King Gizzard & The Lizard Wizard anunciam novo álbum

error: Conteúdo protegido. Partilhe e divulgue o link com o crédito @lookmag.pt