Site icon LOOK mag

ben&G: “Sem Pressão é o nosso mote para avançar, mesmo nos momentos de adversidade

Surgido de uma conexão imediata num writing camp, ben&G — formado por Rúben e Manel — rapidamente se transformou de uma colaboração casual numa dupla com uma identidade musical própria e marcante. O seu álbum de estreia, Sem Pressão, mistura hip-hop e pop com uma teatralidade e um toque kitsch, criando um som simultaneamente íntimo e exuberante.

Por Sandra Pinto

Nesta entrevista, a dupla fala sobre o processo criativo, as histórias por trás das músicas e de que forma as suas experiências em teatro e produção musical influenciam a energia lúdica, mas também introspetiva, do projeto. Desde a inspiração inicial até às atuações ao vivo, ben&G revelam como autenticidade, experimentação e colaboração definem a sua jornada.

Como nasceu o projeto ben&G e como é que a parceria entre Rúben e Manel evoluiu desde o primeiro writing camp até à formação da dupla?
No writing camp em que nos conhecemos existiu logo uma conexão e combinámos uma sessão em casa do Manel para ver no que é que dava e aí surgem “Kryptonite” e “Sem Pressão”, duas faixam que constam no álbum. Não ficámos por aí e continuamos a criar juntos porque vimos que fazia sentido e estávamos-mos a divertir nesse processo criativo. Surgiu a ideia de criarmos, de facto, uma dupla com o nome ben&G e a partir daí começámos a pensar num projeto maior do que 2/3 faixas.

Por que escolheram o nomeben&G e qual é o significado por trás dele?
ben&G não é nada mais nada menos do que a soma dos nomes dos nossos projetos a solo (ben e Manel G). Não foi muito difícil chegarmos a esse resultado, até porque sonoramente soava bem. Fazia-nos lembrar o famoso gelado Ben & Jerry’s e achamos piada a esse jogo de palavras.

Como descrevem a sonoridade do duo a alguém que ainda não os conhece?
Achamos que o projeto tem uma sonoridade autêntica e uma identidade particular.Misturamos alguns estilos de música numa sopa e atiramos lá para dentro uma dose de teatralidade e drama, usando ferramentas kitsch e da nossa própria realidade, por vezes sendo mais sérios em relação à visão do mundo e da nossa experiência pessoal.

O álbum chama-se Sem Pressão. O que este lema significa para vocês e para o processo criativo?
⁠“Sem Pressão” é o mote que desde o início usamos para nos puxar para a frente, especialmente nos momentos de adversidade. Somos duas pessoas bastante emotivas e vivemos a nossa arte intensamente, precisamos de vez em quando de apenas viver o momento “Sem Pressão”.

O álbum explora diferentes emoções e atmosferas, desde a hedonista Antídoto até à introspectiva Kryptonite. Como decidiram a sequência e o conceito geral das faixas?
Depois de construirmos cada uma das faixas como um objeto individual apareceu este desafio de as encaixar numa ordem lógica e coesa. Numa conversa importante com o nosso parceiro Rui Correia compreendemos a importância de uma coerência estilística que conecta o álbum. Assim construímos a sequência do álbum em 2 partes: maior foco no Hip-Hop na primeira metade, maior foco no Pop na segunda. As emoções acabam por existir numa grande montanha russa, mas a coesão vive na estética.

Que histórias ou experiências pessoais inspiraram algumas das músicas do disco?
Algumas canções são representações hiperbólicas de histórias reais, muitas delas vividas na noite do Porto. É o caso de “Cabeça no Céu” e “Sara”, experiências amorosas caricatas do Rúben que poucos dias depois foram transformadas em canções. A “Antídoto” acaba por funcionar de forma diferente: o Manel foi buscar à sua memória uma antiga festa de aniversário, que por coincidência é no Halloween, e a história da música acaba por ponderar no que poderia ter acontecido, mas de facto não aconteceu. Todas as músicas acabam por ter um fundo de verdade, e surgem sempre de conversas íntimas entre nós os dois.

Existe alguma faixa que considerem mais representativa da identidade do duo?
Pensamos que a “Kryptonite” é um derradeiro meio termo entre as duas dualidades de ben&G: o kitsch e a seriedade, o Pop e o Hip-Hop. Não é por acaso que foi a primeira música que escrevemos juntos.

Como dividiram os papéis entre canto, produção e composição durante a criação do álbum? Houve muitas fronteiras borradas entre funções?
Mais do que dividir papéis, o trabalho foi desde o início de quebrá-los. A ideia inicial era uma relação estrita de Produtor-Cantor (G-ben), mas cedo existiu a compreensão que quebrar essas barreiras era importante. Foi isso que criou ben&G, a vontade de sermos mais do que normalmente seriamos, e o facto de o fazermos em dupla é o que torna o projeto valioso.

Que desafios encontraram ao produzir o álbum de forma independente no Estúdio Cedofeita?
A relação com o Estúdio Cedofeita é muito positiva, pois para além de possuírem bom material, têm sido um apoio emocional muito importante no projeto. O G tem um acordo para usar o Estúdio em formato co-work e por isso acabamos por trabalhar só nós os dois na maior parte do tempo. Não é tanto pela parte da criação e produção que encontramos os desafios mais difíceis, mas sim por todos os outros papéis que temos que ter no projeto: gestão de redes sociais, assessoria de imprensa, distribuição e candidaturas, por exemplo.

Que influências externas, seja música, cinema ou outras artes, impactaram a criação de “Sem Pressão”?
“Sem Pressão” foi criado com base nas nossas experiências pessoais e a partilha das mesmas. No entanto, temos as nossas referências individuais, muitas delas em comum, como por exemplo: Rick Rubin, Mac Miller, Dr. Dre, Conjunto Corona, Expensive Soul, entre outros.

O vosso som cruza Pop e Hip-Hop, mas com uma teatralidade e kitsch assumidos. Como surgiu essa estética e como querem que o público a perceba?
Numa fase mais inicial deste processo criativo estávamos numa zona mais kitsch, em que era natural para nós contarmos um episódio sério, com um olhar leve sobre a situação. Por exemplo, a “Sara” parte dum episódio real e duma frustração real, mas por vezes o maior drama do nosso dia afinal é só uma história engraçada que podemos contar. No nosso projeto existe, também, um lado mais sério e profundo e com essa forma distinta de olhar para o mundo queremos passar a mensagem do quão versáteis e camaleónicos, nós, seres humanos, somos perante situações diversas.

Como equilibram o lado mais introspetivo com o lado mais celebratório e energético do vosso trabalho?
Como todas as pessoas, encontramos dias mais positivos e negativos. Ao contrário do que diz o povo, “tocar viola” não é sempre sinónimo de descanso ou diversão, e muitas das nossas faixas mais introspetivas são em relação ao próprio processo de fazer música. Cada faixa representa momentos diferentes deste ano e meio em que temos vindo a gravar o álbum, não faria sentido que todos fossem de grande energia e boa disposição e por isso queremos mostrar-nos genuínos no nosso processo e nos nossos pensamentos.

Que mensagem ou sentimento esperam que os ouvintes levem do álbum?
Acima de tudo queremos que os ouvintes encontrem nas nossas histórias pontos de conexão com as suas vidas. Nunca no nosso processo tivemos a intenção de agradar ou influenciar o público, queremos apenas usar a música como espelho para as nossas vivências que podem acabar por ser universais ou apenas pessoais.

O concerto de lançamento no RCA – Radioclube Agramonte promete trazer o álbum ao vivo. Que tipo de experiência podem esperar os fãs?
No concerto vão poder ouvir as nossas músicas desconstruídas em formato banda, com guitarra, baixo, bateria e teclados. Vamos trazer como sempre a nossa teatralidade, e esperamos cativar com grooves contagiantes e atmosferas ricas, sempre com um grande sorriso na cara.

Vendo que colaboraram com artistas como O Simples Mente e outros, planeiam mais colaborações no futuro próximo?
ben&G tem sido sempre um projeto de dois rapazes fechados na sua bolha, mas sim, temos ambição de trazer mais personagens para esta nossa história. Felizmente estamos rodeados de artistas incríveis que esperamos poder vir a fazer parte desta nossa jornada. Só o futuro dirá que colaborações podem esperar nos próximos projetos.

Para além do concerto de lançamento, têm planos de tournée ou apresentações em festivais?
Temos já planeada uma apresentação em formato duo no festival NOVO em Ovar, e andamos muito atarefados para tentar levar o nosso concerto a todos os cantos do país!

Como a formação de cada um em teatro e produção musical influencia o processo criativo e a estética do duo?
Sendo o nosso foco principal a música, sabemos que o nosso percurso nos vem a influenciar. Ambos temos um grande carinho pela arte do teatro e vão poder ouvir isso em diversos momentos do álbum. No que consta à produção musical, é um pilar importante em cada música. Queremos sempre explorar e pormenorizar cada produção ao seu expoente máximo, sem pensar muito nas limitações que podemos encontrar quando a música for tocada ao vivo. Por isso é que os nossos concertos trazem algo de novo a cada faixa, uma roupagem diferente.

Se pudessem descrever o álbum Sem Pressão com apenas três palavras, quais seriam?
Crescimento, coragem e personalidade.

Qual foi o momento mais divertido ou inesperado durante a produção do disco?
Tivemos diversos momentos de grande alegria e diversão, mas foi provavelmente o dia em que escrevemos a canção “Sara”. Estávamos a caminho de Monção para uma pequena residência em isolamento quando parámos em Paredes de Coura num lindo dia de Primavera. Sentámo-nos ao lado do rio com a guitarra e decidimos explorar a história que o Rúben tinha passado na noite anterior. Foi assim que começou, e apenas em dois ou três dias tínhamos a canção completa quase como a conseguem ouvir hoje. Foi um momento mágico que provavelmente nunca iremos esquecer!

Foto: Joana Pereira

Exit mobile version