ADORO PROTOCOLO + PARQUE IMPÉRIO NOS JARDINS DO BOMBARDA. Entre o caos controlado e a dor de ser
Noite de sábado. Jardins do Bombarda. Sala Estúdio Valentim de Barros. O ambiente era de ânsia pelas duas das bandas que fizeram parte da Tour Emergente – Adoro Protocolo, projeto vencedor do Festival Emergente 2025, e a banda de indie rock/post-punk Parque Império. Após passarem pelos Maus Hábitos no Porto, foi a vez da capital portuguesa receber esta noite de luxo com dois grupos tão distintos.
Texto: David Pissarro
Fotos: Pedro Sebastião
A primeira parte da noite ficou a cargo dos Adoro Protocolo, que num panorama musical português cada vez mais aberto à experimentação, afirmam-se como um dos projetos mais singulares da nova música nacional. Partindo de uma linguagem onde o jazz, o punk, o spoken word, o rock experimental, o hip hop e a improvisação convivem sem fronteiras, o grupo de várias origens geográficas mas que está baseado em Lisboa, constrói canções que desafiam estruturas convencionais e recusam qualquer classificação fácil. As suas composições vivem da tensão entre o caos e o controlo, entre a palavra e o ruído, entre a melodia e a dissonância, transformando cada concerto numa experiência imprevisível. Foi precisamente essa identidade que a banda levou aos Jardins do Bombarda num regresso a Lisboa recebido com entusiasmo.
A atuação começou sem qualquer concessão. Um baixo tocado de forma mutada, pratos de choque a marcar um pulso e um saxofone entregue à livre deambulação abriram caminho para um início claramente inspirado no free jazz. O ambiente era suspenso, confuso, quase desconfortável, alimentando uma tensão crescente até ao momento em que a banda irrompe finalmente no primeiro tema. O baixo ganha peso, a bateria dispara numa energia próxima do punk e surge a voz “máquina…pela sua criação”. Desde os primeiros minutos ficou evidente que a crítica social e a intensidade performativa são elementos centrais da identidade do grupo. O saxofone, sempre omnipresente, atravessava a música de forma urgente numa sonoridade “a 120 quilómetros por hora”, em permanentemente combustão.
O segundo tema mudou radicalmente o ambiente. A escrita tornou-se mais limpa, com um balanço jazzístico e um saxofone melodicamente mais contido. O guitarrista assumiu um spoken word mais sereno, rapidamente acompanhado pela vocalista, criando um espaço simultaneamente calmo, ambíguo e estranhamente inquietante. Havia algo de desconfortável naquela aparente tranquilidade. A meio da composição, a intensidade aumentou sem abandonar essa linguagem híbrida. O baixo permaneceu como eixo central, sustentando uma bateria epilética e profundamente criativa, antes de a música mergulhar numa secção mais rock, sempre contaminada pelo jazz. “Debaixo dos lençóis, água é água”, ouviu-se, numa canção que funcionou como uma verdadeira viagem progressiva.
Entre temas, a banda agradeceu a presença do público e mostrou satisfação pelo regresso à capital. Houve ainda um agradecimento especial à MJ, autor(a) da música apresentada ao longo do concerto.
“Tempo”, o terceiro momento da noite, abriu com um solo de saxofone. Pouco depois, a banda instalou-se num andamento marcado pelos timbalões enquanto a voz repetia “o tempo move-se parado” e “corro para enganar a fome”. O diálogo entre baixo e saxofone tornou-se um dos momentos mais interessantes da atuação, respondendo um ao outro enquanto o feedback da guitarra crescia lentamente até transformar a composição numa fusão permanente entre escrita e improvisação. O caos nunca desapareceu, mas foi sendo cuidadosamente moldado através de silêncios que abriram espaço para um crescendo final, culminando num breakdown de enorme impacto. Seguiu-se “Pré-Aquece o Forno”, talvez um dos momentos mais atmosféricos do alinhamento. Um baixo profundo inaugurou uma pulsação lenta e sensual sobre a qual surgia a frase “refaço o jantar, é o início da noite […] olha que ainda há jantar para comer”. A voz apareceu mais cantada do que declamada, aproximando a música de ambientes trip-hop, embora sempre filtrados pela estranheza jazzística que caracteriza os Adoro Protocolo. A composição cresceu até um pequeno refrão mais pesado, onde o saxofone atingiu registos agudos particularmente expressivos, regressando depois ao ambiente inicial. Num dos momentos mais performativos da noite, o saxofonista soltou gritos enquanto a vocalista abandonava o palco para assistir ao desenrolar da música no meio do público.
“Quero Esconder” apresentou um registo emocionalmente mais sombrio. Baixo e voz entraram quase em uníssono, desenhando um arranjo particularmente entrelaçado. A bateria manteve uma postura laid back, sustentando uma canção onde predominava a tristeza e a contenção. Ainda assim, a intensidade foi crescendo de forma gradual. A música dos Adoro Protocolo vive muito mais do ritmo do que da melodia, e essa característica voltou a revelar-se até desembocar num caos absoluto, onde os três elementos vocais terminaram a gritar em simultâneo.
O sexto tema voltou a mergulhar o público num ambiente profundamente estranho. Um baixo sólido encontrou uma guitarra suspensa, quase invertida, enquanto um assobio atravessava discretamente a textura sonora. A voz alternava entre o canto e a declamação, lançando imagens como “cospes para o chafariz, engoles prodígios” ou “não há bomba mecânica para me cortar o canto”. O grotesco e o absurdo surgiam como elementos centrais da narrativa. Depois de um breve suspiro, instalou-se um diálogo entre baixo e guitarra que conduziu a uma secção fortemente influenciada pelo trip-hop e hip hop, com melodias de inspiração oriental. O baixo tornou-se novamente avassalador, o saxofone improvisava sobre a base e a bateria reinventava constantemente o pulso. O tema terminou numa longa jam coletiva onde todos os músicos participaram vocalmente, reforçando a natureza espontânea da atuação.
Já perto do final, a banda perguntou ao público: “Querem mais uma música? Siga!” A resposta surgiu imediatamente. O derradeiro tema, “Vem Comer a Noite”, recuperou a agressividade inicial através de um baixo poderoso e de uma bateria novamente próxima do punk. Um motivo melódico recorrente servia de refrão — “cidade das marquises” — enquanto a música se transformava progressivamente numa mistura delirante de psicadelismo, jazz, rockabilly, punk e hip hop. O breakdown final serviu apenas para preparar a explosão derradeira, encerrando o concerto numa autêntica celebração do excesso, da improvisação e da liberdade criativa. Mais do que apresentar um alinhamento de canções, os Adoro Protocolo construíram nos Jardins do Bombarda uma narrativa sonora onde o desconforto, a tensão e o caos nunca são gratuitos. Cada mudança de direção, cada silêncio e cada explosão parecem cuidadosamente pensados para desafiar o ouvinte, sendo necessário sublinhar também a excelente execução por parte de cada músico. Num tempo em que tantos concertos procuram a previsibilidade, a banda continua a afirmar-se precisamente pelo contrário: pela coragem de nunca deixar o público completamente confortável.
Após este devaneio completo que foi a apresentação dos Adoro Protocolo, foi a vez de uma das vozes mais emblemáticas e promissoras do underground português subirem a palco, os Parque Império.
O grupo tem vindo a afirmar-se como um dos nomes mais interessantes da nova vaga de música alternativa portuguesa. Movendo-se entre o post-punk, o rock alternativo, o post-rock e a canção de autor, o quarteto construiu uma identidade própria através de uma escrita profundamente honesta, onde a crítica social, a precariedade, o desencanto e a intimidade coexistem com melodias envolventes e arranjos de grande intensidade emocional. No sábado passado, nos Jardins do Bombarda, essa fórmula voltou a revelar toda a sua força perante um público que acompanhou atentamente cada canção. A atuação começou de forma inesperada, com a introdução de “Educação Flop”, utilizada apenas como porta de entrada para o concerto. O breve excerto serviu para criar expectativa antes da banda mergulhar em “Isostasia”. Um sintetizador envolvente e um baixo extremamente poderoso abriram espaço para uma das canções mais marcadamente post-punk do alinhamento. A voz inconfundível de Chico Apolónio voltou imediatamente a dominar o palco, carregando versos como: “Não deixares que eu tenha a oportunidade de te dar prazer” com uma intensidade quase teatral. Ao seu lado, a voz delicada e etérea de Joana Mont’Alverne, por momentos próxima de um imaginário folk nórdico, surgia como o contraponto perfeito aos gritos e à tensão constante do vocalista. A relação das duas vozes é um dos grandes trunfos da banda.
“Horror Importa-se” manteve a energia elevada. A bateria assumiu maior protagonismo, sustentada por uma guitarra solta de inspiração post-punk, enquanto sintetizadores e guitarra desenhavam um ambiente carregado de melancolia antes da entrada da secção rítmica. A música cresceu lentamente até revelar toda a sua carga crítica. Entre versos como “o amor importa-se” e o mordaz “o meu cu é assalariado”, Parque Império cruza ironia, desilusão e comentário social, transformando a canção numa reflexão sobre o quotidiano contemporâneo sem nunca perder a urgência musical.
O terceiro momento da noite pertenceu a “Raio ou Canto Libertino”. Joana trocou momentaneamente os teclados pelo acordeão, acrescentando uma nova textura ao universo sonoro da banda. “Esta música é sobre o meu quarto”, anunciou-se antes do início da canção. Um baixo firme e os timbalões marcaram a entrada de um tema profundamente intimista, onde frases como “vês-me a ser sincero, não tenho que dizer” ou “atiro da janela” reforçavam a escrita simultaneamente confessional e imagética que caracteriza o grupo.
“Centro Tédio” trouxe uma mudança de registo. A composição revelou-se mais melódica e contemplativa, aproximando-se de uma linguagem pós-rock onde a construção atmosférica se sobrepunha ao impacto imediato. A banda mostrou aqui a sua capacidade para controlar a dinâmica, deixando espaço para que cada instrumento respirasse antes de voltar a crescer. “O que sempre foi atrás” ecoava sobre uma paisagem sonora carregada de nostalgia.
No tema seguinte, Parque Império regressou ao território mais musculado do post-punk e do rock alternativo. A bateria assumiu novamente um papel central, impulsionando uma das atuações mais intensas da noite, ouvindo uma das linhas mais forte dessa composição, “Somos amigos até ao fim”.
“CAL” revelou outra das grandes qualidades da banda: a capacidade de construir tensão a partir da simplicidade. O tema começou apenas com um baixo solitário, desenhando uma melodia que fazia lembrar o universo sombrio de Nick Cave, antes de Chico entrar de forma contida com “acuso-me à rotina de levar pela mão”. A partir daí, a canção foi crescendo lentamente até assumir novamente a sua identidade post-punk. A presença em palco de Chico revelou-se magnética durante todo o concerto, conduzindo cada música com uma entrega física contagiante que encontrava resposta imediata no restante grupo.
“FEL” trouxe uma pausa emocional antes do encerramento. Um tema mais mexido, mais enérgico, que mostra bem o seu lado rock alternativo, sempre com um peso emocional e uma sensação melancólica constante. “Ver-te em âmbar” surgia envolto numa sonoridade particularmente nostálgica, demonstrando uma vez mais a capacidade da banda para equilibrar delicadeza e tensão sem nunca perder coerência, naquele que é um dos temas mais “leves” deste alinhamento.
O concerto terminou inevitavelmente com “Educação Flop”, talvez a canção mais conhecida do repertório dos Parque Império. Depois de ter servido de introdução ao espetáculo, regressou agora completa, funcionando como uma espécie de fecho de círculo. O público respondeu com entusiasmo a um tema que já se tornou um verdadeiro clássico da banda e que sintetiza muitas das características que definem o seu percurso: letras profundamente geracionais, uma secção rítmica implacável, guitarras angulares e uma identidade sonora que continua a fugir a qualquer fórmula previsível.
Nos Jardins do Bombarda, Parque Império demonstraram que pertencem à linha da frente da música alternativa portuguesa. O concerto confirmou uma banda cada vez mais segura da sua linguagem, capaz de transformar inquietações pessoais e sociais em canções que oscilam entre a violência e a beleza. Num panorama onde o post-punk nacional continua a reinventar-se, o coletivo prova que ainda há muito espaço para encontrar novas formas de dizer o desconforto do presente.
ADORO PROTOCOLO
PARQUE IMPÉRIO