À volta das letras com Helena Sacadura Cabral sobre “Passo a passo”

Num exercício de enorme intimidade, Helena Sacadura Cabral registou, neste novo livro, o passar do tempo e as muitas emoções que sentiu, sempre com uma certeza: seja qual for o obstáculo que temos pela frente, a vida não pára, as estações sucedem-se e o medo e a incerteza dão, invariavelmente, lugar à alegria da redescoberta.

Quando em março de 2020 nos vimos confrontados com o primeiro confinamento qual foi o seu primeiro pensamento?
No primeiro confinamento acreditei que todos o cumpriríamos e que, se assim fosse, a situação seria controlada. Não entrei em linha de conta com os
negacionistas. Por isso aguentei melhor que outros.

Com o passar dos dias, dos meses percebemos o quão difícil era a situação. Como viveu esses primeiros tempos marcados pelo medo e pela incerteza?
Medo, medo não senti. Fiz três intervenções cirúrgicas nessa altura e entreguei-me nas mãos de Deus e dos médicos. Senti que podia acontecer algo inesperado. Mas, contra isso, só tinha a esperança e o não dever sair de casa durante um ano, para além das idas ao hospital.

Surge agora com um livro ao qual deu o nome de “Passo a Passo”. É ele um exercício autobiográfico, um testemunho da maneira como viveu este ano?
De certo modo, sim. É um testemunho de como se pode viver aprisionada, sem passar pela prisão e de como em todas as situações negativas a “aceitação” também nos pode tornar mais fortes e pôr em evidencia qualidades que nem suspeitávamos que tínhamos!

Como surgiu a ideia de escrever este “Passo a Passo” e porque lhe deu este título?
No fundo eu queria escrever um diário que me lembrasse, para sempre, o que eu e o mundo estávamos a viver e como cada um reagia a esses acontecimentos. Foi assim que comecei. Depois, fui alargando as minhas reflexões e isso conduziu-me a este livro, que se tornou a metáfora dos passos que fui dando para me adaptar, sem tristeza ou temor, à nova situação.

Do que sentiu mais saudade?
Dos beijos e dos abraços

Parece-lhe que agora damos maior importância aos abraços?
Eu sempre lhes dei muita importância, porque considero o afeto uma forma de vida da qual não quero prescindir. Não saberia viver sem dar e receber provas de afetividade. Elas são um farol na minha caminhada nesta vida!

O que a ajudou a superar esta pandemia?
Deus, o amor e a amizade.

Acha que de alguma forma saímos mais fortes de toda esta situação?
Se tivermos tido a coragem de olhar para dentro de nós e para os valores em que esta sociedade tem vivido, acredito que podemos vir a sair mais fortes. Mas é preciso que o “ser” assuma, finalmente, a primazia sobre o “ter”.

Seremos capazes, depois de tamanha provação, de sermos mais felizes?
Uns sim. Outros não. Mas essa escolha vai depender muito de nós e das nossas opções.

Será que no meio da tragédia retiramos algum ensinamento? Se sim, qual?
Talvez que somos todos iguais no sofrimento, mas não na capacidade de o suportar. E, sobretudo, que importa que sejamos solidários para com aqueles
que menos podem – as crianças e os velhos!

Que balanço faz deste ano pandémico?
Teria de falar de política e eu não quero fazê-lo.

Como olha a Helena para o futuro?
Já fiz quase tudo o que queria fazer. Na minha idade isso é fundamental. Ainda gostaria de aplicar as minhas forças em dois ou três projetos, se tal me for permitido…

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