“A nossa sonoridade continua a progredir e Ensemble será mais uma prova disso mesmo”, Hourswill
Com Unheilvoll, o primeiro single de avanço do quarto álbum Ensemble, os Hourswill dão início a um novo capítulo na sua trajectória musical, onde o peso do heavy metal clássico se funde com a identidade progressiva e experimental que sempre os definiu. Nesta entrevista, a banda fala sobre a origem do tema, o seu significado e a forma como este se insere no conceito global do novo disco.
Por Sandra Pinto
Ao longo da conversa, os Hourswill exploram também o processo de composição e gravação, o equilíbrio entre acessibilidade e complexidade musical, e a evolução do seu som ao longo do tempo. Entre influências assumidas, uma forte carga conceptual e a colaboração continuada com a Ethereal Sound Works, Ensemble afirma-se como um trabalho que reforça a ideia de risco criativo, união e identidade colectiva.
O single Unheilvoll é o primeiro avanço do vosso 4º álbum Ensemble. Como surgiu a ideia desta música?
Surgiu de forma espontânea, aliás, como a totalidade do resto do material incluído no álbum. Tem a particularidade de ter sido o último tema a ser escrito para o disco e foi baseado na ideia de querermos algo orientado para uma sonoridade próxima do heavy metal mais clássico, sem muita complexidade e com uma mensagem de entendimento direta! É musicalmente inspirado em coisas como Saxon, Accept ou Scorpions do início de 80 entre outros do género.
Qual é a mensagem ou o conceito central de Unheilvoll e como se encaixa no universo do álbum Ensemble?
Unheilvoll é uma palavra alemã que significa desastroso, ameaçador ou nefasto. O conceito central retrata a existência humana na sociedade moderna e do constante crescimento de políticas e ideologias perigosas cultivadas sobre a frustração, a desilusão, a fraqueza, o fracasso, o descontentamento e o ódio humanos que podem conduzir, num futuro próximo, a vida como a conhecemos ao seu extermínio. Como se irá constatar mais à frente encaixa perfeitamente no que foi delineado conceptualmente para este álbum.
O tema apresenta elementos característicos do vosso som progressivo. Como conseguiram equilibrar complexidade musical e acessibilidade para os ouvintes?
Creio que este até é daqueles temas mais virado para o acessível do que propriamente para o complexo. Tem coisas que são muito características da nossa identidade musical enquanto colectivo, como o desafio ou o risco, mas de uma forma global, acho que um ouvinte do género não encontrará problemas em relacionar-se facilmente com o que aqui se lhe é apresentado.
Como foi o processo de composição e gravação deste single? Alguma abordagem ou técnica particular se destacou?
Foi uma criação muito espontânea. Queríamos um tema com uma natureza e estilo assumidamente mais tradicional dentro do heavy metal, mas, mantendo a nossa identidade. Foi um dos primeiros a ser gravado e a sua gravação decorreu de forma rápida, calma e sem grandes sobressaltos.
Existe alguma história ou experiência pessoal que inspirou a criação de Unheilvoll?
Nem por isso! Apenas existiu da nossa parte a intenção de retratar liricamente uma das muitas faces do estado atual da sociedade e de homenagear musicalmente uma quantidade de bandas que nos influenciaram e marcaram ao longo dos anos.
Ensemble será lançado a 19 de maio de 2026. Que diferenças ou evoluções os fãs podem esperar em comparação com os álbuns anteriores?
As pessoas que seguem o nosso trabalho e apreciam por alguma razão o que fazemos musicalmente já saberão que serão surpreendidas de alguma forma pelo conteúdo que iremos apresentar no futuro. O desafio e o risco são coisas que nos são inerentes enquanto força criativa, por isso, acredito que haverão muitos motivos de interesse e entretenimento neste novo disco.
O título Ensemble sugere uma ideia de coletivo ou união. Como este conceito se reflete nas músicas do disco?
Num mundo cada vez mais fraturado, extremo e dividido pelas diferenças, fez-nos sentido trazer para este trabalho uma mensagem de união. É um conceito utópico nos dias de hoje, sabemos disso, mas a música que escrevemos para o disco assim o exigiu. Unheilvoll e o próximo single, que irá sair em Abril, já revelam um pouco do que se poderá encontrar em termos de temática ao longo deste novo álbum.
A banda costuma combinar metal progressivo com elementos atmosféricos ou experimentais. Que novas sonoridades podemos esperar neste álbum?
Acredito que existe uma evolução musical em relação ao que fizemos no nosso disco anterior. Arriscou-se um pouco mais em matéria de composição mantendo no entanto a nossa identidade. Acho no geral que a nossa sonoridade continua a progredir e Ensemble será mais uma prova disso mesmo.
Como foi trabalhar com a Ethereal Sound Works nesta fase de produção do álbum?
Nós já temos uma relação de trabalho com a Ethereal Sound Works de mais de uma dezena de anos. Nós já sabemos com o que contar e eles já sabem o que podem esperar de nós. E desta vez, não foi diferente de todas as outras vezes. Felizmente, correu tudo conforme o que havia sido definido e planeado antecipadamente.
Quais foram os maiores desafios ao compor material progressivo sem perder emoção e coesão?
O desafio e o risco são definições que se encontram naturalmente presentes no que tentamos fazer em termos musicais. No entanto, acho que o material incluído neste novo álbum atinge um nível de emotividade que, apesar de presente nos discos anteriores, nunca esteve tão exposto e em evidência como neste trabalho.
Como é o vosso processo colaborativo de composição dentro da banda?
É do mais simplista que pode existir (risos)! Eu e o Nuno ( Peixoto, baterista ) vamos para o nosso estúdio compor e trabalhar em ideias
que se considerem ser de alguma utilidade musical e que possam vir a dar resultados de futuro. Há vezes em que isso funciona, outras em que não. Depois juntamos os restantes elementos e começamos a trabalhar mais em detalhe qual o caminho a seguir.
Houve algum tema ou faixa que foi particularmente difícil de finalizar para Ensemble?
Que me recorde, não! Em termos de composição não houve assim nenhuma espécie de bloqueio em redor de uma parte ou partes específicas.
Acho que conseguimos desde cedo nesse processo tomar as decisões mais assertivas e as que nos pareciam melhores acerca do que queríamos para o disco. No entanto, em estúdio aquando da gravação, surgem sempre algumas ideias e aí poderás levar algum tempo a resolver essas situações, assim como a captar ou executar tecnicamente o feeling certo para um determinado momento.
O vosso som tem referências internacionais, mas mantém identidade portuguesa. Como conseguem equilibrar essas influências?
De uma forma instintiva ou inconsciente, acho eu, porque para além das referências internacionais de que falas também temos influências
de música feita no nosso país. Esse equilíbrio, a acontecer, surge de forma natural e sem quaisquer tipo de preconceitos. A mim pouco importa de onde é originária a música, desde que se goste dela, poderá eventualmente ser motivo de inspiração para a escrita de uma coisa qualquer.
Há planos para videoclip oficial, tour ou datas ao vivo para apresentar Ensemble?
Para já ainda estamos a estabelecer o nosso planeamento. Queremos promover este novo trabalho até onde nos for possível. O primeiro single
saiu à pouco tempo, portanto, ainda há muito a fazer com ele. Temos já um segundo single agendado para ser editado no fim de Abril. O disco sairá em Maio e contamos apresentar a coisa ao vivo. Ideias sobre o assunto existem e a seu tempo serão reveladas, temos de aguardar.
Como esperam que os fãs se conectem com Unheilvoll e com o álbum no seu todo?
É quase impossível responder a isso (risos)! Nós esperamos que exista essa conexão por parte das pessoas que já estão familiarizadas com o
que fazemos musicalmente, quanto ao restante do mundo, é algo totalmente imprevisível! Nos dias de hoje e como estão as coisas neste meandro da música, isso para um projeto como o nosso é completamente uma incógnita. Se acontecer, ótimo, se não acontecer, iremos continuar o nosso caminho.
Que metas a longo prazo a banda estabelece para consolidar o seu lugar na cena progressiva internacional?
A nossa meta principal continua a ser a mesma desde o nosso aparecimento como banda. Simplesmente a de tentar fazer chegar a nossa proposta musical ao maior número de pessoas possível. Sem expectativas, pois, nunca as tivemos. Como disse na resposta anterior, o meandro da música hoje em dia encontra-se totalmente inundado de coisas e acontecimentos o que aumenta a dificuldade em consolidar o que quer que seja. Por isso, tratamos de viver a nossa realidade tranquilamente apenas preocupados em apresentar, da melhor maneira possível, um trabalho que musicalmente nos orgulhe e nos traga satisfação.