A minha vida num disco: Rui Miguel Abreu

Colecionador de discos, Rui Miguel Abreu escreve sobre música há mais de duas décadas em jornais e revistas especializadas. Diretor do programa da Antena 3 e revista digital, Rimas e Batidas, Rui partilha hoje um dos álbuns da sua vida, «é um deles, sem dúvida, integra o meu top 5», confessou-nos.

A minha vida num disco: Rui Miguel Abreu

Ao vasculhar aqui nos arquivos em busca de palavras escritas sobre aquele é talvez o disco da minha vida e que agora completa 50 anos (tem quase a minha idade…), encontrei o texto que vos deixo aqui e agora. Nunca fui muito de ficções, mas este é um daqueles discos que parece esconder um romance, um filme inteiro, longos murais ou poemas épicos em cada nota, em cada suspiro, em cada dobra de cada uma das suas canções. Não sei escrever romances, nem fazer filmes, muito menos pintar ou fazer poesia… isto foi o que me saiu, há 20 anos, quando eu mesmo ia aprendendo, a cada dia, a ser pai (continuo a aprender, todos os dias).

Father, father, father
O velho Buick de 59 pára em frente à minha casa e eu, sentado nas escadas do prédio, já havia sentido o ronronar cansado daqueles velhos cilindros antes mesmo dele dar a curva. O carro tem ar de já ter dado três voltas ao planeta, apesar de há apenas 12 anos ter saído da linha de montagem da fábrica onde o meu pai trabalha. Lembro-me perfeitamente do dia em que ele o trouxe para casa, reluzente, polido até ao ponto em que o próprio pó se recusava a encarar a hipótese de repousar naquela chapa. Perfeito. Imaculado. Eu tinha só 6 anos e o meu pai sentou-me ao seu colo e deixou-me fingir que o conduzia, parados aqui nesta mesma rua onde aprendi a jogar softball e onde dei o primeiro beijo.

O Verão é mais pesado este ano. Mais quente e mais duro. A água que os miúdos roubam da boca de incêndio da esquina não chega para lhes devolver toda a energia. Eles deixam-se simplesmente estar ali, sentados na berma do passeio. E as gotas que correm em direcção ao céu a mil à hora fazem um arco íris mesmo por cima do carro, quando eu me volto por causa daquele som que eu conheço de cor. Como nos filmes, por um momento apenas, o carro, os miúdos, a água da boca de incêndio, as irmãs Jackson do outro lado da rua e o sr. Lee da mercearia parecem desacelerar os movimentos até ao ponto em que tudo demora um milhão de anos a acontecer. Talvez seja do sol, mas está tudo muito lento. E o bairro assim é fantástico. Os brownstones parecem velhas pirâmides egípcias, erguendo-se majestosos em direcção ao céu. Mas só por um segundo.

Depois há qualquer coisa que rasga o silêncio e que devolve o tempo ao seu passo natural: “(…)Brother, brother, brother there’s far too many of you dying/You know we’ve got to find a way/To bring some lovin’ here today(…)”

O carro pára e o meu pai sorri, enquanto se curva para apanhar o saco com as compras do dia. A voz continua: “(…)Father, father, father we don’t need to escalate/You see, war is not the answer/For only love can conquer hate(…)” Não sei porquê, mas aquela voz fura-me os ouvidos, rasga-me o peito e parece que se atira para dentro da minha alma. Levanto-me de repente e olho o meu pai nos olhos. Ele inclina-se para desligar o rádio e eu, nem sei porquê, peço-lhe bruscamente – “deixa estar só mais um bocadinho”. Ele parece perceber o meu estranho pedido, recosta-se no velho estofo e acende um Marlboro.

“What’s going on?” A pergunta é repetida como um grito, um pedido de ajuda. “Picket lines, and picket signs/Don’t punish me with brutality”. A perfeição que eu senti há pouco, por um segundo apenas, espraia-se em cada nota da canção que sai de dentro do carro. O meu pai parece senti-la da mesma maneira. Tem os olhos fechados e permanece imóvel enquanto o fumo se acumula lentamente no tecto do carro. O mundo – os cheiros, os sons, a cor e a urgência – só nos é devolvido com a voz do DJ da WKDT que o meu pai ouve porque o rádio do Buick não apanha mais nada: “Our soul brother, brothers and sisters, the great Marvin Gaye, teaching us all, every single day. Stay tuned… more satin voices and soul grooves just after this advice from our sponsor…”

Os meus olhos e os do meu pai voltam a encontrar-se. Ambos sabemos que o jantar de hoje vai ser diferente. Mas, por causa daquela canção, do calor ou das emoções que cavalgam nas minhas veias e no meu peito e na minha pele, tudo parece fazer sentido. Eu sinto-o próximo e ele, naquele olhar, parece compreender-me. As irmãs Jackson acenam-me do outro lado da rua e eu abro a porta para ajudar o meu pai com as compras.
Subimos as escadas juntos e eu grito para dentro “father, father, father”. Na mesa da sala, onde o meu pai se vai sentar dentro de menos de dois minutos, está o papel que chegou hoje por correio para me dizer que vou viajar.

Será o Vietname assim tão quente?….
Pequena ficção inspirada em “What’s Going On”, a canção, e “What’s Going On”, o disco. Aliás, O DISCO.

You May Also Like

À conversa com Miguel Andrade dos Apotheus

Sotz apresenta “Popol Vuh” no Hard Club

Metalpoint lança Confinement Sessions gravadas ao vivo

Caminhos Metálicos apresentam este fim-de-semana festival online. Links diretos aqui

error: Conteúdo protegido. Partilhe e divulgue o link com o crédito @lookmag.pt