A minha vida num disco: Daniel Laureano (A Constant Storm)

O guitarrista Daniel Laureano surge com o novo trabalho de A Constant Storm, “Lava Empire”, terceiro episódio depois do EP “Storm Born”, de 2014, “Storm Alive” de 2016 e Live at Greenhouse, de 2017. Podem ficar a conhecer mais sobre o Daniel nesta entrevista.

A escolha de hoje é dele.

A minha vida num disco: Daniel Laureano

O que fazer quando damos por nós mergulhados nas profundezas de um labirinto, sem qualquer ponto de referência ou perspetiva de escapatória? O que fazer quando perdemos o rasto ao fio de Ariadne, o mesmo que sempre nos guiará ao longo de tantas difíceis peripécias, nas quais a lógica fria inerente às decisões sempre tinha sido a única luz?
Pois bem, sem rodeios: o que fazer quando estamos totalmente e irremediavelmente perdidos?
O «Into the Labyrinth», dos Dead Can Dance, surgiu na minha vida numa altura em que me encontrava numa situação em tudo semelhante: estava perdido, sem rumo e afogado num mar de incertezas. O mundo parecia hermético, confuso… Um labirinto. E se é certo que esta ligação conceptual foi uma das maiores razões pelas quais me liguei tanto ao disco na altura, a sua qualidade musical e artística foi aquilo que fez com que, no meu imaginário pessoal, este passasse de uma peça artística que marcou uma altura específica da minha vida para uma que se tornou intemporal e universal.
Esta simbiose entre razão e emoção é nuclear na arte, tendo sido sobejamente explorada ao logo da extensa história da análise artística. Em 1980, n’”A Câmara Clara”, Roland Barthes separou o studium do punctum – de um lado as características intrínsecas da obra, mensuráveis por um qualquer grupo de critérios objetivos; do outro lado a “alma” da obra, tudo aquilo que vai além da objetividade e entra num campo mais indefinido, o da emoção.
Poderia descrever a mistura perfeita entre sons e ritmos étnicos com atmosferas góticas/darkwave, que pauta todo o disco, ou a maneira como a voz celestial de Lisa Gerrard paira acima das fabulosas composições belas e elegantes. Poderia falar das melodias melancólicas de “The Carnival is Over” – que já tantas lágrimas me trouxe aos olhos -, das letras poeticamente crípticas de “Tell me about the Forest (You once called Home)” ou da fortíssima ligação temática entre o alinhamento dos temas e as próprias estruturas circulares de muitos deles.
Mas o studium só nos leva até um certo ponto, sendo a fusão com o punctum que realmente transforma obras excelentes em obras lendárias. E o próprio punctum também só se pode explicar até um certo ponto, porque chega a uma altura em que a única coisa que se pode fazer é mesmo sentir.
Sentir, ver, ouvir, cheirar e procurar a saída do labirinto. Sempre com a ideia de voltar, porque este é um labirinto do qual posso sair mas que nunca sairá de mim.

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